Onde é o jardim, avó?

Presenciei, ao almoço, um diálogo entre avó e neto de cinco anos. A avó, referindo–se ao Jardim da República, disse: “Vamos terminar de comer para irmos passear ao jardim”. Ao que a criança retorquiu: “Onde é o jardim, avó?”

Após um momento de reflexão, concluí que, hoje em dia, se dissermos a uma criança em Almeirim que vamos ao jardim, muito provavelmente esta não saberá onde vai. Contudo, se lhe falarmos em ir ao parque, isso não levanta dúvidas – significa, na maior parte dos casos, que a ida será ao Parque Urbano da Zona Norte ou, por outro lado, poderá significar que a ida será a um dos outros parques infantis.

Ao contrário, na minha infância não me lembro de ser usado desta maneira o termo ‘parque’. Se os meus pais me queriam levar ao único parque infantil existente em Almeirim no princípio da década de 1980, diziam-me: “vamos aos Charquinhos”. Para a minha geração, na infância, a palavra ‘parque’ apenas significava aquele equipamento portátil ‘tipo piscina’ onde os bebés brincavam enquanto as mães cozinhavam ou, então, significava um qualquer parque de estacionamento.

Mas se, nessa altura, ouvíamos falar em ‘jardim’, sabíamos que era o Jardim da República e sabíamos onde era, pois se o passeio de domingo à tarde não fosse aos Charquinhos, muito provavelmente seria a esse jardim – onde jogávamos à apanhada e às escondidas.
Existem palavras que nos são familiares pela experiência que temos e pelo contexto do momento. O Jardim da República já não faz parte do mapa de primeiras escolhas dos pais para levar os filhos a passear, logo as crianças não relacionam ‘jardim’ com nada de concreto. No Parque da Zona Norte existe uma grande zona verde (jardim) frequentada por muitas crianças com os pais, mas esse jardim lá existente continua a ser, todo ele, o ‘parque’. Por isto, é natural que para os avós e para os netos, a palavra ‘jardim’ esteja arrumada em gavetas distintas.

Bem, mas para além das palavras é magnífico verificar que em Almeirim existem hoje mais parques infantis, mais jardins e mais zonas verdes a permitir que crianças, pais e avós possam dedicar tempo de qualidade uns aos outros, alimentando mais e mais o sentido de família.

 

Telmo Marques – Mental Coach

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