A peregrina que foi influenciada pelo Papa

Para Maria do Carmo Godinho “Fátima e as peregrinações sempre exerceram um grande fascínio sobre mim. Lembro-me de, em miúda, o meu pai ter ido a Fátima a pé e eu pensar “Se o meu pai com esta idade conseguiu, eu também hei-de conseguir”, e recordo-me de ouvir encantada os relatos dos peregrinos que todos os anos, em maio, partiam para Fátima: de como era uma alegria o caminho, que rezavam, cantavam, bebiam água nas fontes, cosiam as bolhas dos pés com agulha e linha, dormiam nos bombeiros em Pernes e comiam onde calhava… E eu sonhava “ um dia também hei-de ir com eles…”, começa por contar.

No entanto nunca foi, até que chegou o mês de maio de 1991, e era a segunda visita do Papa S. João Paulo II a Fátima: “Ia partir daqui de Almeirim um grupo enorme de peregrinos, o grupo da Miló. A minha filha mais nova tinha nascido em 89 com um sopro cardíaco, que graças a Deus fechou passado um mês, e eu decidi que tinha chegado a hora de partir, de ir agradecer. E fui. E foi comigo o meu marido a dar apoio, e a pé a minha melhor amiga e a minha filha mais velha, com apenas seis anos, que fez uma parte do caminho. E nunca mais parámos, já lá vão mais de cinquenta vezes – todos os anos em maio e outubro – sempre com o apoio do meu marido, muitas vezes com as nossas filhas, com amigos e até com o meu neto”, revelou. De 91 até 2017, a professora de português e francês diz que “os caminhos são sempre iguais na fé e na esperança que nos movem a nós, peregrinos. São também sempre diferentes, já que cada peregrinação é única pelas vivências, pela partilha com os outros peregrinos, pela aprendizagem, por tudo… Porém, este ano, porque é o ano do Centenário, porque vem o Papa Francisco, que é tão especial e uma referência para todos nós, cristãos e não cristãos, vai ser naturalmente uma caminhada diferente não na fé, nem na esperança, nem na motivação de cada um de nós, mas eu acho que todos vamos caminhar com o peso de um século às costas”.

Maria do Carmo descreve também que “durante o caminho, tanto para Fátima que já fiz mais de cinquenta vezes, como para Santiago que também já fiz muitas, penso, em primeiro lugar, como é bom ter saúde para poder caminhar; na alegria de o poder fazer sempre com o apoio e a companhia da minha família, da minha amiga Otília e de amigos próximos. Depois, é a partilha com os peregrinos que vamos encontrando ao longo do caminho; é agradecer a Deus e a Nossa Senhora pelas muitas bênçãos recebidas e pela força nos momentos menos fáceis; é o encanto de ver o Sol nascer, de ouvir os pássaros cantar, de subir montes e atravessar florestas; é a comunhão com a natureza e é bendizer a Deus por tudo isto, e compreender cada vez mais a oração de louvor a Deus, de S. Francisco de Assis, com o seu “ Cântico das Criaturas”, e o seu exemplo de como se pode viver com quase nada, porque um peregrino sabe que tudo o que precisa cabe na sua mochila”. Este ano, e na contagem decrescente para a chegada do Papa, Maria do Carmo Godinho celebra o Centenário das Aparições de Nossa Senhora de Fátima e sublinha que “é um privilégio, ainda por cima com a possibilidade da Canonização dos Pastorinhos, (em 2000, pude assistir à sua Beatificação pelo Papa S. João Paulo II); por poder presenciar a visita do Papa Francisco, que tanto tem trabalhado em prol da Igreja e do Mundo, é extremamente enriquecedor e inesquecível.

Vou vivenciar esta data, peregrinando como de costume e vou fazer a vigília de 12 para 13, que sempre quis muito e por alguma razão nunca consegui fazer. Quem sabe estava guardada para esta altura tão especial…” E a crença da antiga professora passou já para as filhas: “Estou convicta de que consegui transmitir este sentimento às minhas filhas, pelo entusiasmo com que sempre peregrinei. E porque cresceram com uns pais peregrinos, não tiveram outro remédio senão tornar-se peregrinas também”. Na conversa a O Almeirinense, a antiga professora deixa uma última nota: “O Caminho não se faz sozinho, temos sempre Cristo no nosso coração. É muito bom senti-Lo em cada passo, em cada paragem, em cada dor, em cada anedota, porque o caminho está cheio de graças… E em cada manifestação de Deus na natureza. O Caminho é uma metáfora da vida: andamos com o objectivo de alcançar a meta e quando, por fim, chegamos vemos que o propósito não é chegar – é o próprio caminho – e que nem precisamos chegar, porque Nossa Senhora e o Senhor Santiago caminharam sempre ao nosso lado. E que o fim de um Caminho é sempre um recomeço”.

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