Pampilho ao Alto XXXI

Porque rir faz bem.
Histórias simples da gente simples cá do meu Burgo

A Quinta-feira de Ascensão já foi um dia de grandes devoções nas Fazendas de Almeirim.
Havia a devoção religiosa e a do farnel comido à borda da ribeira em Paços dos Negros e Marianos. Neste dia Santo (era assim que era chamado) havia a tradicional picaria no touril do Sr. Catrola. A picaria consistia na largada no redondel de umas vacas que, já fartas de andar nestas andanças, arreavam porrada aos toureiros mais afoitos, ou mais bebidos. Era o gáudio da malta ver o saudoso
Crocodilo, o Garnicho e o António da Rosa, armados em afoitos toureiros, levarem umas tareias das vacas. Naquela Quinta-feira de Ascensão, a última vaca a ser largada quando estava a descer da camioneta para o redondel, fugiu e desatou a marrar em tudo e todos os que lhe aparecessem pela frente.

Nesta fuga desordenada acabou por matar dois carneiros que estavam a pastar, e ferir um burro que só não foi morto porque se defendeu a coice. Apareceram os forcados de ocasião a querer pegar o animal, mas o resultado era tareia e mais tareia nos valorosos e bebidos forcados. Outros surgiram com espingarda com a intenção de abater o animal mas quando eram confrontados com o facto de ter de pagar a vaca ao dono desistiam de imediato da ideia.

A vaca, acossada por cães e toureiros de ocasião munidos de panos vermelhos à laia de capa e armados de cajados, não fosse falhar o passe de capote, procurou refúgio junto a uma cabula de palha de centeio onde mortos de medo, estavam encavalitados muitos dos valentes toureiros que a perseguiam; manhosa, lá ia andando à volta da cabula e, a cada um que resvalava para baixo dava a respetiva sessão de marradas. Eis então, já quase noite, que surge o Zé Pirralho, homem já entradote na idade, míope e algo
surdo, pessoa muito popular na terra, que nesse dia tinha cumprido o sonho de uma vida: comprou uma bicicleta nova. Sentindo a algazarra da rapaziada, vendo pouco ou quase nada, aproximou-se da cabula com a bicicleta à mão e para que todos a vissem, saudou: ora viva o pessoal! A vaca, ao ouvir o Zé Pirralho, voltou-se e deu tamanha cabeçada na bicicleta que a fez ir pelos ares. O Zé Pirralho sentiu a falta da bicicleta e tentou agarrá-la, só que, como via mal, agarrou nos cornos da vaca pensando que era
o guiador da bicicleta e disse: ah cabrões! querem-me esconder a bicicleta mas o guiador é que eu não largo. A vaca, sentindo-se agarrada, deu tamanha sova no Zé Pirralho que o deixou todo empenado; quando o Zé Pirralho foi informado de que a bicicleta tinha levado a mesma sorte, apenas dizia: coitadinha da minha bicicleta nova, deve estar cheiinha de dores!

Fiquem bem, de Pampilho ao Alto.

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