Nascida e criada no hospital velho

Quando eu nasci, ainda nasciam crianças em Almeirim. A minha mãe, que trabalhava na maternidade, naquele dia, em vez de entrar ao trabalho, entrou em trabalho de parto!

A maternidade fechou uns anos depois, assim como muitos dos serviços prestados naquele hospital. Nas minhas memórias continua aberto. Labiríntico, cheio de recantos, enorme aos olhos de uma criança. Do tamanho de uma infância feliz.
Frequentei o lactário no rés-do-chão, mas com a desculpa de que ia dizer uma coisa à minha mãe, lá ia eu escada acima. Quantas vezes subi aquela escadaria, quantas vezes desci pelo corrimão!
Ao subir as escadas havia umas salas de enfermagem, a da varanda do pau da bandeira era a primeira onde eu espreitava. A enfermeira Felismina, com um saco de água quente no colo, contava material e chamava-me para ajudar. Da sala do lado vinham risos. O enfermeiro Gregório tinha sempre uma anedota e uma pastilha elástica, e o enfermeiro Eduardo alinhava na brincadeira.

Se fosse para a ala da direita, a da enfermaria das mulheres, muito provavelmente iria encontrar a minha mãe na rotina das higienes e da alimentação das doentes, por isso virava sempre para a esquerda. Nas enfermarias havia sempre barulhos, gemidos, gente a chamar.

Na copa, a Maria Leonor Rafôa dava-me bolachas Maria com manteiga, que eu comia enquanto me esgueirava para a capela, só para ver. Na copa havia um pequeno elevador para a comida. Da cozinha, lá em baixo, já estavam a mandar a sopa e lá ia eu corrimão abaixo ter com a Estrudes ou com a Anabela Chinesa.

Não me lembro de haver limites, ainda que fosse complicado andar nas urgências. Havia mais gente, mais confusão. Na sala grande, o meu avô Fernando, de bata branca, coseu-me um dia uma mão. Já estava de gravata preta, tão preta como a linha do ponto que deu e, ao colocar-me no chão, disse-me para ir brincar para o quintal.

Mesmo assim corri aquelas salas todas e disse olá à tia Isabel na farmácia, ao Dr. Jorge, à Dr.ª Antonieta, ao senhor Branco, à dona Conceição, ao Dr. Maia, à Irene, à Antonieta, e a tantas outras pessoas. Umas ainda estão connosco, outras apenas no meu coração!

 

Sílvia Raposeira – Professora

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