Da esquerda para a direita: Incêndios

Dificilmente haverá outro tema mais discutido, nos últimos tempos, que os incêndios. Infelizmente, os últimos anos têm sido profícuos em grandes áreas ardidas: recordo, principalmente, pela proximidade de Almeirim, o grande incêndio da Chamusca, de 2003. Por vezes, havia algumas mortes mas, felizmente, eram raras.

Mas nada nos poderia preparar para, num dia, mais de 64 pessoas que fugiam do incêndio perderem a sua vida. Como se pode aceitar que quase 50 pessoas morram carbonizadas numa estrada nacional mas se culpe o vento, a trovoada seca ou qualquer coisa, desde que a culpa morra solteira. Como se pode admitir que não se dê aos bombeiros e às autoridades os meios suficientes para fazerem o seu trabalho e morram pessoas por causa disso?

No fundo, o que as autoridades querem que acreditemos é que, se formos ao supermercado de carro e tivermos um acidente porque não parámos ao semáforo, a culpa é do mosquito que bateu no vidro, ou do raio de sol que bateu na cara do condutor. Se houve pessoas que foram desviadas para uma estrada pelas autoridades, a culpa será do facto de estarem a conduzir? Ou de terem a carta? Claro que não. Há culpa de quem comandava as operações e de quem decidiu quais os meios para esse mesmo combate. Mas há uma clara tentativa de que esta morra solteira. E se alguém tentar questionar isso, há acusações de aproveitamento político. Digam às famílias das pessoas que foram desviadas para a estrada e às que não foram evacuadas das aldeias de Pedrógão que não interessa perguntarem o que se passou. Que não interessa saberem o que correu mal. Só num País terceiro-mundista, apurar as causas da desgraça e tomar medidas para que estas não se repitam pode ser acusado de aproveitamento político.

Agora há mais um bode expiatório: o eucalipto. Vejamos com os exemplos dos anos em que houve maior área ardida: Em 2013 arderam 152.503 ha, dos quais 13.629 foram eucaliptos; em 2005 arderam 346.382 ha, dos quais 62.384 foram eucaliptos, e no ano 2003 arderam 439.918, dos quais 80.355 são eucaliptos. No total, a área de eucaliptos ardida é sensivelmente 16,7%. Se compararmos com a área ardida de pinheiro-bravo, obtemos 19,6%. Os matos e pastagens tiveram um peso de 40,3%. Mas se ouvirmos algumas opiniões públicas, o que dizem é que o eucalipto é o culpado. De tudo. Mas se olharmos para estas estatísticas, facilmente verificamos que não é assim. Talvez essas pessoas utilizem para atear lume ramos de eucalipto em vez de acendalhas ou pinhas. No Reino Unido, ardeu um prédio que vitimou 80 pessoas. A culpa não foi do vento nem das trovoadas secas. Em consequência disso, apurou-se rapidamente a causa: isolante inadequado (inflamável) aplicado numa obra recente. O Governo Britânico pagou aos desalojados dinheiro de um fundo de emergência; estão a ser investigados e podem vir a ser acusados quem geriu as obras e os empreiteiros que as fizeram; reviu-se se havia mais material desse tipo aplicado em outros edifícios e substituiu-se. Demitiu-se, passado poucos dias, Robert Black, o responsável pela área de Kensington e Chelsea (KCTMO). Em Portugal alguém se demitiu? Nem que seja por ter responsabilidade moral? Em Portugal, a Proteção Civil proibiu os comandantes distritais de dar informações sobre os fogos. Mas nada acontece.

Como se pode compreender uma coisa destas em democracia? Como disse o nosso Presidente da República “Em ditadura era possível haver tragédias e nunca ninguém percebia bem quais eram os contornos das tragédias”. Em democracia isto não é aceitável. Todas estas manobras de desculpabilização, notícias falsas, lei da rolha e caça às bruxas (eucaliptos) têm um propósito que nós, cidadãos amantes da democracia, não podemos aceitar. Temos de exigir investigações e medidas em consequências das mesmas. Não nos podemos resignar. Por nós, e acima de tudo, por eles. As vítimas inocentes.

João Lopes – PSD de Almeirim

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