“Não contava neste momento ser nomeado para Santarém” – D. José Traquina

O novo Bispo de Santarém, D. José Traquina, abriu a Casa dos Retiros Nossa Senhora das Dores, em Fátima, para receber o Jornal O Almeirinense. Uma grande entrevista concedida poucos dias antes de tomar posse e em que explica todo o processo de nomeação, que o surpreendeu, desde que escreveu ao Papa Francisco.

O que é que representa para Vossa Excelência a nomeação do Papa Francisco para ser Bispo de Santarém?
A nomeação do Papa Francisco, como Bispo de Santarém, representa para mim uma confiança colegial. É da sua responsabilidade o Papa fazer esta nomeação como aquele que preside à comunhão de todos os Bispos e portanto tem esta missão e recebo-a com esta confiança que o Papa deposita na minha pessoa, mas, naturalmente, conforme pude escrever ao Papa, pedi-lhe que rezasse por mim porque é sempre uma missão nova e, no meu caso, e como é o caso de muitos, começamos esta missão sem uma experiência do que é estar à frente de uma diocese. É sempre uma primeira vez, embora tenha uma experiência de três anos como Bispo auxiliar é, portanto, uma novidade, mas recebo com o sentido de responsabilidade, mas também, obviamente, com fé, com esperança de que os presbíteros, diáconos e o povo de Deus, principalmente os mais responsáveis na diocese, tenham esta espiritualidade de comunhão com a missão do Bispo e eu com a missão deles, obviamente, para edificarmos uma igreja, uma diocese e também, digamos, com fé porque há de ser Deus a inspirar-nos nesta missão.

Como é que viveu este processo da nomeação?
Vivi-o para já com admiração porque devo dizer-lhe que não contava neste momento ser eu o nomeado para Santarém, sou franco, não contava, portanto, foi com alguma admiração que recebi esta nomeação. Pensava que seriam outros colegas que serviriam para Santarém mas, claro, aceitei com alegria, pela confiança depositada e será assim que irei, mas tenho estado a viver com algum suspense no sentido do que é que vai acontecer. Há alguma ansiedade, sobretudo porque tenho tido pouco tempo para preparar-me, digamos assim. Nestes dias continuo com um programa muito intenso em Lisboa, diariamente, e portanto falta-me algum tempo para alguma preparação que gostava de ter, mas lá iremos com melhor vontade.

Quais são os grandes objetivos e as linhas orientadoras para a sua missão em Santarém?
Eu, para já, não descrevo nenhum objetivo prático no sentido de apontar objetivos definidos por mim, porque uma diocese tem um percurso feito e nesse percurso é que se deve respeitar a caminhada feita para chegar e introduzir, entrar, portanto não sou eu que estou a caminho, é a Igreja que está em caminho e eu chego e vamos com as pessoas que lá estão refletir sobre a caminhada feita para saber o que é que havemos de introduzir, penso até que não seria simpático da minha parte, não seria prudente da minha parte, estar a apontar objetivos sem ouvir as pessoas, porque nós vivemos num tempo em que esta dimensão da chamada sinodalidade, que é ouvir é o respeito pela participação, é muito importante nós ouvirmos as pessoas, ouvirmos os conselheiros, ouvirmos os padres, ouvirmos os leigos também, ouvirmos as pessoas para definir o percurso de acordo com a caminhada feita, porque senão vou estar a mandar palpites de uma coisa que está feita ou de uma coisa que já se fez e não pode ser. Essa escuta vai ser feita e é essa a definição. Agora há objetivos chamados grandes objetivos, que são de toda a Igreja, isso temos em conta, não é? Obviamente que queremos uma Igreja que seja testemunha de uma graça que Jesus veio trazer ao mundo, isso é um objetivo, mas da Igreja inteira e, portanto, da mesma que é em Santarém. Queremos uma Igreja que seja testemunha de um tempo novo, marcada com a presença do Espírito Santo e o que é que é isso na atenção aos mais pobres, o que é que é isso na atenção às pessoas que têm dificuldade, que é que é isso na atenção às pessoas que têm limitações e precisam de ajudas especiais, o que é que é isso de comunidades ou de famílias que vivem sem apoios ou não têm um subsídio para seu sustento? Essas atenções, como Jesus, no Evangelho, em que a sua boa nova é dirigida aos pobres, os pobres têm de fazer parte do projeto.

Vai reforçar essa vertente?
Obrigatoriamente, mas não vou reforçar pois ela faz parte; sei com certeza que têm sido feitos alguns esforços, de certeza, porque existe uma Cáritas Diocesana, mas terá todo o meu apoio para atender a estas situações porque é uma área que faz parte da essência do evangelho. Nós acreditamos, nós celebramos e nós sonhamos, temos de fazer alguma coisa e portanto é o Evangelho que me lo pede e não é um objetivo meu, digamos que é o pôr em prática aquilo que o Evangelho diz.

Como é que vê o legado de D. Manuel Pelino?
Eu vejo-o positivamente, não tive tempo de analisar todos os pormenores, mas o D. Manuel Pelino é um homem com boa formação na pastoral e na catequética, portanto ele tem formação superior nessas áreas e deu muito contributo quer em Santarém, quer a nível nacional; através da conferência episcopal deu um contributo válido, com documentação, com documentos que escreveu para a reflexão e o crescimento nessas áreas e portanto foi bom o seu legado dessa reflexão e que eu vou ler e acompanhar. Houve algumas coisas que eu, ainda não foi há muito tempo, em que eu lhe pedi uma conferência que lhe tinha feito e pedi por escrito porque achei muito interessante aquilo que ele disse, portanto há reflexões feitas por ele que eu acho que são muito interessantes e têm a ver com a evolução própria da maneira de estar na igreja, sobretudo nesta área da catequética, isto de estar junto das crianças, de adolescentes e jovens é uma pedagogia que tem a sua evolução e ele tem uma reflexão feita sobre isso e eu tenho em conta.

Que palavras é que ele lhe disse na passagem de testemunho, quando soube da nomeação?
Ele não sabia, como eu também não sabia e portanto ficámos agradados por nos declararmos um ao outro pelo facto de não termos a noção, nem ele tinha, nem eu, então quer dizer que é Deus que quer assim. A reação foi muito boa, um bom acolhimento, damo-nos bem. Não tinha nenhuma aproximação especial anterior, porque o D. Manuel é de Coimbra e eu sou de Lisboa, isto nas dioceses, portanto não temos uma história comum, mas tínhamos já uma prática de reunião, aqui na conferência episcopal. Nos últimos três anos encontrávamo-nos por aqui. Mas não, não tinha nenhuma confidencialidade, nenhuma aproximação, nem sequer eu pensava ir parar a Santarém. Neste momento, a razão é melhor, temos conversado sobre o assunto, já conversámos o suficiente para estarmos completamente à vontade, eu estou muito à vontade com ele e ele comigo e, portanto, o D. Manuel ficará até em Santarém com os seus aposentos e portanto ficaremos com alguma proximidade e ele sentir-se-á com certeza em casa. É a sua diocese, é a diocese até ao fim de bispo e portanto continuará como bispo emérito e com a possibilidade de estar em Santarém sempre que quiser, sem limites.

É natural de Évora de Alcobaça, no concelho de Alcobaça. Recorda-se das primeiras missas em que participou?
Lembro-me como criança, sim. Sobretudo no início da catequese, talvez com sete anos, em que comecei a ir à catequese e à missa e lembro-me perfeitamente, era bastante diferente do que é agora. Lembro-me dessa etapa da infância que fiz na minha paróquia, também do próprio Crisma que também fiz na paróquia, pelos 16 anos, embora depois o meu percurso como adolescente tenha sido feito em Alcobaça, propriamente, e fiz lá um percurso de trabalho, escola, de escola em regime pós laboral, escola técnica e ali fiz uma experiência alongada com adolescentes, com um grupo pastoral juvenil e que depois teve a sua repercussão, porque quando fui aos vinte anos para Santarém cumprir o serviço militar, levava comigo uma reflexão juvenil acerca da minha vocação e portanto aqueles últimos anos, dos 18 aos 20 anos, é onde há uma aflição juvenil, adulta, acerca da vida e alguém me tinha perguntado “porque é que não pões a sério esta hipótese?”. Na altura não pus tanto a sério, mas depois, como estava em Santarém com funções de militar, repus a questão.

Foi quando decidiu que, de facto, era isto que queria?
Foi. De facto foi em Santarém que eu decidi a entrada no seminário para aprofundar, porque o seminário, na altura, não era o de Santarém, já não estava a funcionar o de Santarém, estava em Almada e eu fui para Almada. No último dia em que estive na Escola Prática de Cavalaria em Santarém, fui diretamente dali para Almada e portanto foi assim uma passagem de facto direta, mas uma decisão tomada ali. Portanto, quando foi criada a Diocese de Santarém, em 1975, eu estava lá a cumprir o serviço militar.

Viu nascer a Diocese?
Vi, não estive na celebração inicial porque no fim de semana não estaria, mas lembro-me do assunto e logo de seguida estive com o senhor Bispo e com os senhores Padres que viviam lá no seminário, lá na residência e alguns deles ainda lá estão a viver. Lembro-me perfeitamente, na minha juventude, como militar, ir até lá cumprimentar e estar com eles.

Quem foram as pessoas que pesaram nessa decisão de ir para o seminário?
A pessoa fundamental que teve peso nesta decisão foi um padre, curiosamente oriundo de Santarém, da Azoia de Cima, chamado Joaquim Duarte. Esse padre era oriundo de Santarém, mas não estava em Santarém, estava exatamente em Almada e esse padre percorreu toda a zona oeste de onde eu era natural e foi até Alcobaça, e foi aí que ele me conheceu, aliás conheceu vários rapazes. Tinha um grupo vocacional de rapazes em Alcobaça, tinha um em Caldas, outro em Torres Vedras; ele formou um grupo vocacional com dois rapazes de cada paróquia, pediu aos colegas padres para lhe arranjarem dois jovens de cada paróquia e foi assim que ele me conheceu. Nessa experiência, o Padre Joaquim Duarte foi ao longo do curso, não foi ao longo do dia, ao fim de dois anos ele interrogou-me. Ele conheceu a minha sensibilidade, gosto de estar, o meu interesse pelas outras pessoas e fez-me esta proposta, mas na altura reagi com um não, disse-lhe que não, projetava a vida de outra maneira, mas depois, de facto, em Santarém decidi que sim.

Como é que reagiu a sua família?
Na altura, o meu pai já era falecido, portanto tinha só a minha mãe e quatro irmãs que reagiram bem, com estranheza, pois não o esperavam, mas eu também decidi sem perguntar se estavam de acordo. Quando lhes comuniquei já tinha decidido e também já sabia que iria ser recebido, já tinha feito a conversa da entrada no seminário e quando lhes disse estava já tudo decidido. As minhas irmãs e a minha mãe eram pessoas de fé e ficaram a rezar pela situação, porque é uma decisão para uma experiência, porque ninguém vai para o seminário com certezas absolutas, vai aprofundar para saber se é verdade, e ao fim de um tempo confirmou-se com a equipa de acompanhamento, confirmou-se que sim, este era o caminho bem discernido e era por aqui que tinha de continuar.

Como é que quer ser visto no distrito pelas pessoas?
Eu quero ser visto tal e qual como sou, não tenho necessidade de nenhum protagonismo especial, sou um pastor próximo, falo com as pessoas, estou com as pessoas, portanto, sempre que possível, sempre que eu possa estar junto com os padres a acompanhá-los na missão das comunidades, a acompanhá-los nas celebrações mais diversas em que o bispo é chamado a estar presente, eu responderei com toda a generosidade que esse é o meu timbre. Fui Prior durante 25 anos e portanto tenho este gosto, esta experiência de estar. A atividade pastoral foi a minha vida, estive como Prefeito no Seminário, é verdade, e aí dei algumas aulas, mas foram apenas sete anos, mais 15 como prior e mais sete como prior, o que me marcou o estilo de dedicação. Isso marcou-me de tal modo que estar com as pessoas para mim não é um frete, é um gosto, é uma alegria estar com as pessoas, conversar e ouvi-las também para discernir qual é que é o ambiente e o que é que podemos fazer, envolvemo-las na projeção da vida, portanto não existe nenhuma projeção, não faço nenhuma exigência de ser visto de outra forma, não farei nada para mostrar aquilo que não sou.

Que mensagem é que quer enviar aos ribatejanos, em especial aos almeirinenses?
Eu tenho sugerido a todas as pessoas que me fazem essa pergunta que as pessoas que têm fé façam uma oração ou na sua oração se lembrem deste momento. Porquê? Porque a nomeação de um bispo mexe com uma questão de fé. Um bispo não é um político, não é uma função política, embora entre em questões que tenham a ver também com a política ou com a vida das pessoas, mas a nomeação de um bispo tem a ver com uma dimensão que Deus quer. A igreja existe porque Deus tomou a iniciativa de existir, é uma iniciativa de Deus, portanto, se há igreja e a igreja diocesana de Santarém e é enviado um bispo novo para Santarém por necessidade, por razões de sucessão é um momento histórico e, como tal, um momento para fazermos uma oração todos: eu faço, os padres fazem e as pessoas que têm fé podem fazer, porque estou convencido que se nos colocarmos a este ritmo espiritual, nós mais facilmente somos dóceis à inspiração do bem, portanto não vou para fazer uma afirmação pessoal, porque tenho muita necessidade de me afirmar, não, eu tenho muita necessidade de fazer o bem que Deus quer que se faça, ver qual é que é esse bem e portanto rezar para que esta missão aconteça bem, aconteça com alegria e com sentido de envolvência dos sacerdotes existentes, dos diáconos, das pessoas responsáveis nas comunidades, existir com qualidade, com alegria e com empenho. Quanto melhor houver disto, o grande sentido evangélico da vida, que é agradar a Deus e à alegria dos homens, o que é para glória de Deus é para bem dos homens e sintonizar isto é uma coisa de inspiração, portanto a oração surge aqui como um elemento que nos ajuda a concertar e nos retira daquilo que é a vaidade, que nos retira de qualquer estilo, que nos retira da verdade, ou seja, nós precisamos uns dos outros, somos humildes, nós precisamos uns dos outros para nos fazermos felizes uns aos outros, e esse é o meu estilo, a minha maneira de estar. Portanto, rezando damos conta que é na entreajuda que podemos fazer bom trabalho, cada um faça aquilo que deve, qual é o seu trabalho, passar a ser uma colaboração com alguém e no conjunto fica uma obra bonita, não é? Eu não iria fazer nenhum trabalho sozinho, de certeza, iria fazer em conjunto, o que preciso de fazer é bem feito, aquilo que me compete de facto, é verdade, mas a obra é de todos, é em conjunto. Aquilo que eu aconselho é a oração, o segundo ponto, se quisermos, é cada um cultivar o sítio da boa vontade. Nós precisamos de ter boa vontade, paciência e boa vontade, quer para trabalhar, quer para ser cristão, quer para estar na vida na missão que temos, na família, com os outros, mas cultivar esta boa vontade é que é precisamente tudo e nessa boa vontade vai a nossa paciência, o nosso gosto pela bondade, é cultivar a boa vontade e Deus ajuda-nos, nós rezamos e ganhamos mais força para avançar e para fazer bem, é o gosto de fazer porque sentimos que há alguém que nos inspira e que nos ajuda, que nos motiva a estar com os outros, pelo menos para mim, a experiência da oração tem sido isto. O único conselho é que estas duas dimensões com espiritualidade depois têm a ver com o terreno, com uma alegria de estar.

 

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