Pampilho ao alto XLII

As coisas que me lembro.

Fechei os olhos e passou na minha mente a imagem de como eram as localidades por volta dos anos 60 do século passado, especialmente das Fazendas de Almeirim, Almeirim e Paço dos Negros. As habitações nas Fazendas eram um conjunto disperso instaladas em grandes quintais. Mas, apesar das grandes dimensões dos quintais, os vizinhos brigavam por um milímetro de terra nas estremas. Era quase um ritual as desavenças entre vizinhos, motivadas pelas estremas entre propriedades.

Um dia, o Xico Pinheiro, rapaz mais novo e forte que o Zé Leitão, não aguentou a provocação do Zé Leitão que lhe tinha cortado as raízes das cepas junto à estrema e esperou que o outro voltasse à propriedade e se aproximasse para lhe tirar disputa. Da discussão resultou ofensa verbal entre os dois, e o Xico Pinheiro, pensando que ninguém estava a ver, desferiu algumas sacholadas nas costas ao Zé Leitão, que o deixou maltratado. Enganou-se porém, já que a cena foi presenciada pela Rita Galdéria. A Rita Galdéria ( assim chamada porque nunca parava em casa) era uma Maria rapaz de 11 anos e que há quatro frequentava a primeira classe. O seu foco era jogar “à macaca” , armar ratoeiras aos pássaros e depois subir às figueiras e oliveiras a ver quando algum caía na ratoeira. Foi precisamente do alto de uma figueira que a Rita Galdéria presenciou a cena das sacholadas e foi a correr chamar alguém que acudisse ao Zé Leitão.

O caso acabou em Tribunal e o Xico Pinheiro contratou um causídico de Santarém, que tinha a fama de ganhar quase todas as causas que patrocinava. O advogado não via como defender o seu cliente, mas, informado que a testemunha da outra parte ( a Rita Galdéria) não sabia ler nem ver horas, pensou que seria por aí que derrubaria a credibilidade da testemunha, ou seja, iria perguntar-lhe a que horas tinha ocorrido a agressão, e quando ela dissesse as horas seria confrontada com um relógio para que dissesse as horas atuais; demonstrando que ela não sabia ver horas, estaria a credibilidade da testemunha posta em causa.

Chegado o dia do julgamento, apresentou-se a Rita Galdéria (naquele dia estava penteada e o cabelo brilhava, devido ao azeite que a mãe pusera no pente para deslizar melhor) e calçada com uns tamancos com sola de madeira, que faziam eco no soalho do Tribunal. A Rita não estava habituada a usar calçado e desequilibrou-se, soltando um palavrão maior que o Tribunal. Questionada pelo Advogado acerca das horas da ocorrência, a Rita respondeu: foi à hora do almoço! Continuou o Advogado: e a que horas foi o almoço? Resposta pronta da Rita: foi à hora que a minha mãe o cozeu.
Perante estas respostas da Rita, o Advogado deu-se por vencido e, quando saía do Tribunal resmungava : afinal ando há tantos anos a queimar pestanas e vem uma garota analfabeta e dá-me uma lição de estratégia.

Fiquem bem, de Pampilho ao Alto

Ernestino Alves – Advogado

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