Fica aqui comigo para sempre

Uma das promessas de amor verdadeiro que tenho é um momento especial sob as estrelas em que conto uma história ao meu filho mais novo antes de ele adormecer. Notem bem que é ‘antes’ de adormecer e não ‘para’ adormecer, pois ele gosta tanto deste momento que, habitualmente, me pede mais uma e outra história depois da primeira que conto.

Enfim, já sei que tenho de largar tudo o que estou a fazer para lhe dedicar este momento, mas confesso que, em alguns dias, a minha fragilidade humana me leva a querer moldar este momento ao meu jeito. Benditos sejam os dias em que estou tão de bem com a vida, que largo tudo e vou deitar-me na cama a contar a história ao meu filho, mas há aqueles dias em que sou arrastado pelo turbilhão mundano e teimo que tudo o que estou a fazer é mais importante do que a história que o meu filho me pede. Ainda assim, lá vou eu fazer de contador de histórias. Quando o faço neste estado de espírito, meio contrariado, a desejar que o meu filho cresça depressa para ler sozinho, estou sempre desejoso que ele adormeça durante a primeira história ou então que compreenda muito bem quando lhe digo que tenho algo importante para fazer ainda no computador, ou na cozinha e que tenho de ir embora depois da história.

Na maior parte das vezes em que desejo que o ‘momento da história’ acabe depressa, quase nunca isso acontece. E o meu filho começou a desenvolver uma estratégia quando eu não lhe quero contar mais que uma história. Diz-me: “Pai, fica aqui comigo e faz-me um bocadinho de companhia”.

O que ele quer é que eu fique ao seu lado até ele adormecer, o que é perfeitamente natural e de um carinho do tamanho do mundo. Mas os adultos têm a mania que são importantes e eu não sou exceção, tenho os meus momentos de fraqueza em que me comporto de maneira estranha. Quando ele me pede que lhe faça companhia, eu costumo aninhar-me ao seu lado deixando-me ficar ali a aconchegar… e a pensar no que tenho para fazer no computador, ou na cozinha…
Tão pouca é a paz a que me consigo remeter que, passados dois minutos, digo ao meu filho que tenho de me ir embora e que já lhe fiz um bocadinho de companhia. Ele, que começou por aceitar as minhas fugas por perceber que eu já lhe tinha feito o bocadinho de companhia que ele pediu, hoje começou a dizer-me algo diferente.

Hoje, após a história, ele disse-me: “Pai, quero que me faças um bocadinho de companhia e quero que fiques aqui comigo para sempre”. Com estas palavras, fiquei sem resposta e tomei verdadeira consciência de que o “para sempre” que ele referiu era apenas só mais um bocadinho da minha vida naquela noite. Era só até ele sossegar verdadeiramente. Era só um momento partilhado com paz interior, sem a concorrência de um qualquer afazer no computador, ou na cozinha. Será que ele pedia demais? Afinal, as promessas de amor verdadeiro e infinito que eu lhe fiz no segredo do meu coração quando ainda ele era um recém-nascido, não contemplarão esta dádiva de tempo e de carinho? Ah, como de repente somos apanhados pelo mundo!

Levantemos a cabeça e vejamos onde podemos fazer pequenas reparações de maneira a honrar essas promessas de amor verdadeiro que nos levam à felicidade.

 

Telmo Marques – Coach

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