Almeirinense revela investigação académica

Tiago Catrola Raposeira, tem 41 anos, é Licenciado em Engenharia de Segurança e Pós-Graduado em Gestão de Emergência, Técnico Superior de Segurança do Trabalho e Técnico Especialista de Segurança Contra Incêndios em Edifícios. É Bombeiro Voluntário desde março de 1991, sendo Subchefe.

Qual o significado de ter recebido o Diploma de Mérito?
O significado de ter Recebido o Diploma de Mérito atribuído pela Direção Geral do Ensino Superior em conjunto com o ISLA de Santarém para mim é um reconhecimento pelo meu percurso académico durante toda a Licenciatura em Engenharia de Segurança onde sempre tentei dar o meu melhor, pelo que é sempre bom e reconfortante quando esse percurso é reconhecido. Até porque as regras de atribuição deste prémio são exigentes.

Qual foi a nota que obteve?
A Média que obtive no ano letivo 2013/2014 foi de 16,22 Valores com aprovação a todas as Cadeiras neste ano letivo, bem como nos anos letivos anteriores, ou seja com todas as Cadeiras feitas à primeira durante toda a licenciatura.

Como surgiu este trabalho de investigação?
Este trabalho de investigação surgiu no âmbito do projeto final da Licenciatura em Engenharia da Segurança, e após o verão de 2013, em que perderam a vida oito Bombeiros no combate a incêndios florestais em Portugal Continental.
Como no projeto final de Licenciatura temos de demonstrar as competências adquiridas ao longo da formação pretendi realizar um trabalho que fosse útil e aplicado à vida real do dia a dia. Nesse sentido contactei o Comando Distrital de Operações de Socorro (CDOS) de Santarém da ANPC sobre a possibilidade de realizar o meu Estágio Curricular em duas vertentes a Segurança Contra Incêndios em Edifícios e a Segurança Ocupacional dos Bombeiros durante o Combate a Incêndios Florestais no Distrito.
Assim surgiu a minha Tese de Licenciatura que é o resultado do Relatório de Estágio efetuado no CDOS de Santarém nestas duas vertentes: “Segurança Contra Incêndios no Distrito de Santarém”- Implementação e Manutenção das Medidas de Autoproteção em Edifícios- Estudo da Sinistralidade com Bombeiros no Combate a Incêndios Florestais. Porquê a realização do Estudo da Sinistralidade com Bombeiros no Combate a Incêndios Florestais. Tal como já referi anteriormente esta ideia surgiu em outubro de 2013 após terem morrido oito bombeiros nesse Verão durante o Combate aos incêndios florestais, nesse sentido a minha ideia foi de tentar perceber como é que se poderia diminuir a sinistralidade dos Bombeiros por forma a conseguir aumentar a sua segurança pessoal durante o Combate aos Incêndios Florestais.

Quais as principais conclusões do Estudo sobre a Sinistralidade com Bombeiros no Combate a Incêndios Florestais no Distrito de Santarém?
As principais conclusões quanto à sinistralidade com bombeiros no distrito de Santarém, e de uma forma sintética, verifica-se que a maioria dos acidentes ocorre no período da tarde, no local do incêndio, sendo originados por quedas, e destas uma grande parte é na saída das viaturas. Maioritariamente, estes acidentes ocorrem na fase do Ataque Inicial aos Incêndios, ainda que os incêndios com maior sinistralidade sejam os com duração entre 90 minutos e as três horas. Sendo que a maioria dos Acidentes ocorre na faixa etária entre os 21 e os 25 anos de idade e em bombeiros com um a cinco anos de serviço efetivo.

Quais são os factores que potenciam a possibilidade de sinistros?
Existem muitos factores que podem potenciar a possibilidade de Acidente, daí a necessidade de se monitorizar a Sinistralidade por forma a que se possa Notificar, Registar e Investigar de forma padronizada por forma a identificar e quantificar quais são os desvios que causam os Acidentes para que se possa actuar sobre esses mesmos desvios.

Há riscos que se podem controlar à partida?
Sim, há Riscos que se podem controlar à partida, por exemplo um dos desvios que foi encontrado neste estudo, e que muito me surpreendeu, foi a questão das quedas em que a maioria aconteceu a sair dos Veículos, ora com estes dados podemos actuar em contexto de Formação alertando os Bombeiros para em vez de saltarem para o chão, descerem dos veículos pelos degraus por forma a evitar a entorse.

A preparação entre voluntários e profissionais também foi analisada neste estudo?
Não, neste estudo não foi feita qualquer distinção de Vinculo entre os Bombeiros, até porque no Distrito de Santarém a formação é igual para Todos os Bombeiros, sejam eles Voluntários ou Profissionais, e ministrada em Módulos de Formação da responsabilidade da Escola Nacional de Bombeiros e por formadores acreditados.

Na nossa região, em particular, não temos tido muitos acidentes?
No Distrito de Santarém, e no período em estudo, de janeiro de 2006 a dezembro de 2013, ocorreram no distrito de Santarém 410 acidentes pessoais com bombeiros, sendo que, destes, 149 foram relacionados com ocorrências de incêndios florestais, num Universo de 1708 Bombeiros. Ou seja de uma forma geral podemos dizer que a sinistralidade no Distrito de Santarém é baixa, bem como a Gravidade das Lesões.

Na região este estudo é inédito?
Este estudo é inédito a Nível Nacional, foi a primeira vez que um estudo desta Natureza foi realizado em Portugal. O trabalho de investigação foi realizado em co-autoria com o Comandante Distrital de Santarém da ANPC – Comandante Mário Silvestre e com o Professor Doutor Paulo dos Marques do ISLA de Santarém, e deu origem a dois Artigos Científicos que foram publicados em dois Congressos de Segurança Ocupacional. O Estudo foi muito bem recebido por vários especialistas quer Nacionais quer Internacionais, sendo que já no final do Verão de 2017 fui contactado por alguns destes investigadores sobre se já tinha mais desenvolvimentos do estudo que apresentei em Outubro de 2014 e Fevereiro de 2015.

Quais os problemas mais frequentes?
Dos 149 Acidentes no distrito de Santarém resultaram 91 acidentes por queda; 21 por inalação de fumos; 14 por cansaço/exaustão; nove por acidente de viação; oito por contacto térmico; três por lesão ocular; dois por reação alérgica e um por eletrização.

Que comparação se pode fazer com o que acontece a nível nacional?
Neste momento não é possível realizar uma comparação a nível nacional, essa foi uma das conclusões deste estudo, visto que não existe uma forma padronizada para recolher a informação necessária a este tipo de estudos. Sem existir informação sobre a sinistralidade não é possível comparar o que se passa a nível Nacional com os resultados encontrados no nosso Distrito. Nesse sentido e incluído no próprio estudo de sinistralidade foram desenvolvidos um conjunto de Documentos para que a ANPC possa realizar uma Monitorização da Sinistralidade com os Bombeiros Portugueses, essa monitorização assenta na Notificação, Registo e Investigação dos Acidentes. Todo este trabalho foi entregue na Direção Nacional de Bombeiros da ANPC em Dezembro de 2014, e foi Apresentado Publicamente no Seminário Técnico de Segurança e Saúde Ocupacional nos Corpos de Bombeiros no dia 28 de Novembro de 2015.

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