Pampilho ao Alto L

Não são raras as questões de conflito entre herdeiros. Nalguns casos a partilha de bens do autor da herança (o que faleceu e deixou os bens), acaba em Tribunal por desconhecimento dos procedimentos legais e, tantas vezes, por teimosia de algum ou alguns desses herdeiros. Tantas vezes para além dos valores materiais em causa, estão valores sentimentais de difícil ou impossível quantificação. Claro que a lei prevê a solução para os casos em que está em causa a disputa pela aquisição do mesmo bem por vários herdeiros, dispondo nestes casos a possibilidade de licitação entre eles com a entrega do bem ao que oferecer valor mais elevado, beneficiando os restantes desse valor nas respetivas proporções.

Ora, o Ti Zé da Feijoca (assim chamado por durante quase toda a sua vida vender de porta a porta feijão seco e outros legumes) quando faleceu não deixou grande coisa aos seus cinco filhos, seus herdeiros legítimos, mas, uma coisa havia que era a cobiça de todos, especialmente da sua filha e da sua nora Maria Pezuda, “assim chamada pelo tamanho exagerado dos pés” mulher do seu filho mais velho. Tratava-se do relógio de sala que estava pendurado na parede da pequena sala de jantar que fora do defunto Zé da Feijoca e de sua mulher Rita também já falecida. A partilha dos bens do Ti Zé correu bem até se chegar ao falado relógio de sala; a disputa entre todos pelo relógio acabou por ficar entre a Pézuda e a filha mais velha. Arguia uma que o relógio fora de sua mãe e que como tal tinha o direito de ficar com o relógio, ao que respondia a Pezuda que a filha estava há muito tempo em Lisboa e não cuidou do pai nem da mãe e que, por isso, quem tinha cuidado da sogra e do sogro fora ela, logo, o relógio só a ela pertencia

. A discussão azedou de tal forma que as duas se “engalfinharam” e ambas pegaram no relógio com a intenção de o guardar. Puxava uma por um lado do relógio, a outra pelo outro, puxão de cabelo aqui , puxão de cabelo ali, até que o relógio acabou por cair. Foi o azar do pobre relógio! A Pezuda sem querer largou-lhe a enorme chanca em cima e o desgraçado do relógio lá ficou feito em pedaços. Acabou a disputa pelo relógio com ambas abraçadas a chorar pelo relógio, mais do que choraram pelo Ti Zé da Feijoca.
Fiquem bem, de Pampilho ao Alto.

.