Pampilho ao Alto LI

Disse-me quem já por mais de uma vez se divorciou, que o último por que passou, apesar do hábito, deixou igualmente traumas. É consabido que o divórcio é sempre um desmoronar de expectativas, o fim das promessas de amor eterno, o gorar de uma perspetiva de vida a dois e, apesar de toda a civilidade e urbanidade com que se termina o relacionamento, os traumas só se atenuam com o decurso do tempo.

Por mim, fico-me pela análise desapaixonada que tento fazer quando sou procurado para os trâmites jurídicos da partilha de bens num divórcio; e creiam que não é fácil o distanciamento dos dramas que quase sempre lhe estão subjacentes. O mais difícil, é a certeza de que (quando existem) as vítimas inocentes são as crianças, filhos do casal que entra em rutura na sua vida conjugal. Não raras vezes, estes seres inocentes servem de arma de arremesso entre o casal desavindo e, igualmente não raras vezes, transparece num divórcio toda a bestialidade encoberta do ser humano. Há casos de pais que fazem de cucos (entendem que o outro cônjuge tem a obrigação de alimentar o filho de ambos) e também há mães que vêem nos filhos uma fonte de rendimentos à custa da pensão de alimentos a prestar pelo outro.

Estes espécimes bárbaros de pais e mães, onde se incluem os de instrução superior, olvidam os superiores interesses das crianças, relegando-os para a última das suas preocupações. O importante é o seu orgulho; e para o fazer valer, pelo motivo mais fútil, impede-se a criança de ver e conviver com o pai, ou então, é a mãe que sofre esse castigo. Casos há de raptos e mentiras escabrosas só para impedir a criança ou crianças do convívio com um dos progenitores. Quase sempre, estes estados de violência psicológica extrema, ocorrem porque um dos cônjuges cometeu o sacrilégio de ter refeito a sua vida amorosa… Bem sabemos que a lei disciplina estes e outros desmandos dos pais divorciados. Bom seria que os traumas do divórcio não se refletissem nas crianças, afinal as vítimas inocentes das asneiras ou ambições desmedidas dos pais.

Bem sabemos também que, para além de outras, a causa primeira dos divórcios é o sufoco financeiro em que vivem tantos casais, logo seguida da intolerância e desamor. Que triste figura fazem os pais cucos e as mães chantagistas que vêem nos filhos uma fonte de rendimentos após divórcio. É a miséria moral na sua expressão mais crua. Felizmente que há excepções. Nada há que suplante os superiores interesses das crianças.

Fiquem bem, de Pampilho ao Alto.

Ernestino Alves – Advogado

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