“É uma relação muito boa… Tenho um grande presidente!

2018/2019 Gonçalo Carvalho, treinador do Fazendense, traça em entrevista a O Almeirinense os objetivos pessoais e do clube. Garante que a relação treinador/presidente sempre foi boa e faz um elogio aos capitães.

Quais são os seus objetivos?
Os meus objetivos para a época que se inicia passam por consolidar a identidade da equipa e do clube, que procuramos implementar desde a nossa chegada. Queremos continuar a ser uma equipa humilde e trabalhadora, disciplinada e nobre, ambiciosa e otimista. O futebol positivo é um objetivo claro. E com ele ganhar o que conseguirmos!

E os do Fazendense?
Os objetivos do Fazendense alinham-se com os meus. Querer jogar bem, em qualquer campo, e ganhar com a nossa ideia, com a nossa forma de estar, com a nossa mentalidade.

Pode parecer estranha a pergunta, mas algumas vezes os clubes e treinadores não têm exatamente os mesmos objetivos. Aqui são iguais?
Sim! Como já referi, os objetivos e a forma de pensar alinham-se, na sua generalidade. As diferenças que possam existir, que são naturais e normais, têm sido ultrapassadas com relativa facilidade.

O quinto lugar do ano passado soube a pouco?
Sim, claramente! Ficámos todos, sem exceção, com um sentimento de frustração, pois merecíamos mais do que o 5º lugar. Fomos a equipa que, sem ser apontada para tal, deu uma réplica (parcial) ao Mação. Creio que, no que à qualidade de futebol apresentado diz respeito, fomos enormes. Não vencemos alguns jogos, mas em todos demonstrámos qualidade e afirmámo-nos como equipa. Estivemos sem perder o campeonato praticamente todo, e nos últimos cinco jogos fizemos 1 ponto. Foi cruel, mas é o futebol!

Subir de divisão faz sentido quando isso não representa, por si só, mais ganhos financeiros e mais público?
Numa perspetiva desportiva, faz todo o sentido. Qualquer treinador, qualquer jogador, qualquer equipa quer ganhar! E caso se ganhe mais que os outros, sobe-se de divisão. Essa é a motivação de um grupo de trabalho. Na conjetura atual, se um clube não tiver sustento para tal, o CPP pode ser demasiado complexo. Os adeptos são os mesmos, as receitas não aumentam e as despesas são consideravelmente superiores. Esta é a perspetiva economicista. Eu prefiro a perspetiva desportiva.

O treinador do U. Almeirim colocou o Fazendense no lote de candidatos. Isto é para colocar pressão ou é mesmo candidato?
Não sabia que o Mário nos considerava candidatos, mas fico contente que o faça. Pressão não coloca! Motivação extra também não nos dá! É somente a opinião de um treinador do nosso campeonato. Nós sabemos que temos os nossos argumentos, as nossas qualidades e as nossas debilidades. Vamos trilhar o nosso caminho. No final, olhamos para as contas…

E o U. Almeirim também é?
Numa análise global, pelo plantel que tem, eu creio que sim. Mas também é só a minha opinião. Acredito que os outros 13 treinadores do nosso campeonato também considerem o U. Almeirim candidato.

Qual a melhor equipa desta temporada?
É muito cedo para responder a essa questão. Há plantéis muito ricos nesta competição!

E a que tem melhores jogadores?
Também não é fácil responder… Espero um Coruchense, um U. Tomar, um U. Santarém, um U. Almeirim, com muita qualidade individual… Mas considero que todas os clubes têm, nos seus plantéis, bons jogadores e com capacidade para fazer “algo”, domingo após domingo.

Como é a sua relação com António Botas Moreira?
É uma relação muito boa, de uma transparência assinalável. Tenho um grande presidente!

Não se incomoda que fique perto da banco a criticar às vezes a equipa?
Como referi anteriormente, essas situações não acontecem. Até porque, caso haja alguém para criticar, esse alguém sou eu! Por vezes, no final dos jogos, falamos um pouco da prestação da equipa, dos jogadores, e trocamos opiniões relativamente à visão de cada um, tendo em conta o próprio jogo. Sempre de forma cordial. Qualquer pessoa da minha equipa de trabalho (treinadores, diretores, massagista, técnico de equipamentos, jogadores) respeita o nosso presidente. Como tal, o presidente respeita todos os elementos da minha equipa de trabalho. É assim que funciona! E comigo, só assim pode funcionar!

A estrutura foi este ano reforçada com Hugo Ribeiro. O que acrescenta?
O Hugo é um homem que sabe estar, que se envolve no contexto, que desenvolve um bom relacionamento com os demais. Nós tínhamos somente um diretor da equipa sénior, o Luís Relvão, que se desdobrava em inúmeras tarefas, difíceis de concretizar por uma só pessoa. O Hugo surge no Fazendense no intuito de colaborar, de oferecer uma maior capacidade de resposta às diferentes situações que se colocam. E sendo um homem extremamente competente e com conhecimento de uma realidade de equipa de futebol sénior, é uma inquestionável mais-valia no nosso clube.

Dentro das quatro linhas tem a equipa que pediu?
Conheço bem todos os jogadores que compõem a minha equipa. No defeso sinalizámos lacunas, traçámos perfis de jogadores e contactámos aqueles que considerámos as melhores opções. Todos os nossos jogadores são primeiras escolhas, todos! E a sua maioria tem uma margem de evolução enorme… É um prazer para mim trabalhar com este grupo, que irá crescer dia após dia!

Dos mais antigos destacam-se Fábio e Licá. São a sua extensão dentro de campo?
O Fábio e o Licá são, a par do Isas, os nossos capitães (precisamente por esta ordem). São pessoas que eu conheço há uns largos anos, foram meus colegas de equipa, são homens a sério, que demonstram diariamente o porquê do estatuto que têm! Para eles já não há segredos no futebol, não há nada de novo, e essa experiência permite-lhes algo que outros ainda não conseguem. Estão completamente identificados com as nossas ideias, e essa é uma grande ajuda não só no campo mas no nosso dia-a-dia!

Até quando acha que podem jogar?
Essa é uma resposta que só eles podem dar. O Fábio teve uma lesão complicada na época passada, e foi de uma perseverança inigualável, de fazer ver a qualquer jovem, acabando por recuperar. Esta época está mais forte! O Licá é de uma regularidade inexplicável, creio que desde criança! Estão “para as curvas”.

Se terminarem entretanto, quer que fiquem consigo na equipa sénior?
Nós não sabemos o dia de amanhã… Mas se for pela relação que temos ou pelas competências que eles demonstram, têm um espaço óbvio na minha equipa de trabalho, que já é composta por bons e dedicados treinadores.

Poderão dar dois bons treinadores?
Acredito que sim. São inteligentes e perspicazes. Mas, para já, estamos a falar dos capitães do Fazendense!

O Gonçalo já é da geração dos professores. Sente que hoje já não há tanto preconceito?
Eu creio que é importante, para um treinador, ter a experiência de jogador. Contudo, acho que não é determinante o facto de ser uma experiência a alto nível. Isto porque as realidades são distintas, mas as variáveis são iguais em todo o lado… O futebol tem uma linguagem universal. O ser professor acaba por oferecer um conjunto de ferramentas que podem ser úteis na gestão técnica e pedagógica de uma equipa. Considero que, nos dias de hoje, qualquer treinador é avaliado pelas competências que revela e não pela “sua origem”.

Onde gostava de chegar enquanto treinador?
Ao futebol profissional. Esta modalidade desportiva, para mim, é uma paixão, com um interesse ilimitado. Eu aprecio o futebol, estudo o futebol, desenvolvo a minha própria conceção do futebol. Quero caminhar, passo a passo, sem autoelogios ou autopromoções, em busca do sucesso. Acredito que para isso é preciso “muita coisa”, para além de muita sorte, mas recuso passar por cima de alguém ou precipitar seja o que for, para chegar onde quero! Tudo acontecerá naturalmente!
No dia que me surgir um grande desafio, no âmbito profissional, estarei pronto!

Gonçalo Carvalho – Referências

Quando questionado sobre quem é a referência, Gonçalo pára, pensa e diz: “ Difícil… Sou fã do José Mourinho. Era aluno do FMH e vibrava com aquele treinador, com aquele Porto, com aquele Chelsea… Mas adoro apreciar um bom trabalho. Eu valorizo muito a identidade, os princípios, o que fazer em cada momento. Claro que o ganhar é o produto final, mas gosto de avaliar o processe não somente o resultado! Há tantos treinadores que, se estivessem numa equipa top, ganhariam tanto… e outros que só ganham títulos porque estão em grandes clubes… Não acredito que o Zidane fosse campeão europeu se treinasse o Basileia, e provavelmente o Abel Ferreira (treinador do SC Braga) poderia vencer a Champions se treinasse o Barcelona. Mas numa resposta direta à pergunta, aprecio o Mourinho e o Guardiola, como 90% de quem gosta de futebol. Por cá, identifico-me bastante com o perfil do Luís Castro (a titulo de exemplo).”

 

Gonçalo Carvalho – Mudança

Toda a formação na Académica de Santarém, com percurso contínuo na seleção distrital de Santarém. Como sénior, jogou no CCRD Moçarriense (subida de divisão e manutenção na 1ª). Gonçalo podia ainda hoje ser jogador, mas o nascimento do seu filho, há seis anos, fez com que muda-se algumas prioridades. “Dava aulas em duas escolas e tinha que conciliar com o treinar (lidero equipas desde os 17 anos, altura em que entrei para a Faculdade de Motricidade Humana) e jogar. Algo tinha que ficar para trás. As prioridades ficaram claras: Família, trabalho, treinar, jogar. Deixei de jogar! “. E o agora técnico do Fazendense acredita que se perdeu um jogador mediano para se ganhar um bom treinador: “Desde que comecei a jogar, com 12 anos, que fui titular nas equipas por onde passei, em todas elas enverguei a braçadeira de capitão, e revelei sempre estabilidade e lealdade para com os meus… Isso sempre foi algo que me caracterizou. Sendo num nível amador, considero que fui um guarda-redes interessante! Mas, na minha opinião, acho que posso ser melhor treinador do que fui enquanto jogador”, conclui.

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