André Luís: “Dedico este título a todos os almeirinenses”

Leia a segunda parte da entrevista ao treinador dos Tigres, André Luís

Se não subissem de Divisão não ficava em Almeirim?
Pouco depois de meio da segunda volta tive uma conversa com o presidente, José Salvador, e com o vice-presidente, Nuno Pardal, e de forma informal dei a minha palavra dizendo que, fosse qual fosse o desfecho da época e se eles continuassem à frente dos destinos do clube nas eleições de maio, ficaria na temporada seguinte. Como sou um homem de palavra, sendo que esta vale muito mais do que qualquer papel assinado, serei o treinador dos Seniores Masculinos do Hóquei Clube Os Tigres de Almeirim em 2019/2020.
Onde esteve a chave da subida?
A chave da subida esteve claramente no pormenor. Trabalhamos muito com Foto: O Almeirinense isso, principalmente na observação de adversários, e fomos referindo isso em quase todos os momentos aos jogadores, porque o pormenor faz quase sempre a diferença. Foi isso que nos levou por exemplo a vencer onze dos vinte e seis jogos na Zona Sul por apenas uma bola de diferença. Aliado a isso a chave também esteve na qualidade individual dos jogadores, que conseguiram construir uma equipa sólida e foram os verdadeiros obreiros da subida.

O HC Os Tigres era a equipa com maior orçamento?
Desconheço o orçamento dos outros clubes mas, analisando por alto, tenho quase a certeza que não éramos a equipa com maior orçamento. Ainda assim, estávamos claramente no top cinco dos maiores orçamentos da 2ª Divisão – Zona Sul. No geral da 2ª divisão, com as equipas da Zona Norte incluídas, não estávamos sequer no top dez.
A quem é que dedica este título?
Referir que este foi o meu primeiro ano como treinador principal de uma equipa sénior e por isso esta subida de divisão tem um grande sabor. Dedico este título a todos os almeirinenses que acreditaram que era possível, dentro e fora da estrutura do clube, este sucesso é muito de todos eles. Num plano mais pessoal, dedicar o êxito à direção e à minha equipa técnica pela paciência que tiveram de ter para comigo, à minha família, por todos os sacrifícios e também ao meu avô, Aníbal Honório Coelho, ele que era um aficionado do hóquei e que faleceu no final de maio de 2017, à beira de completar 89 anos de idade. Tenho a certeza que, onde quer que esteja, me “guiou” na difícil decisão de vir para Almeirim e nesta caminhada até à subida de divisão. Festejou a subida, mas não conseguiu ser campeão.

Como explica a derrota tão desnivelada no primeiro jogo?
Foi um jogo em que nos correu muita coisa mal. Acabámos por fazer uma boa preparação pré-jogo, incidindo sobre a postura que teríamos de ter e sobre as características pressionantes e agressivas da equipa da Sanjoanense, e a realidade é que mesmo jogando mal conseguimos equilibrar o jogo e estar com 2-1 à menor até ao primeiro quarto do segundo tempo. A partir do momento em que sofremos o 3-1 perdemo-nos completamente, os jogadores saíram totalmente do registo, mostraram alguma sobranceria e pouca vontade de fazermos melhor. Disse-lhes isso com toda a honestidade no final do jogo e nos dias que se seguiram. Ficámos muito longe de podermos chegar ao título de campeões nacionais da 2ª divisão, num jogo em que provavelmente se tivéssemos perdido por uma ou até duas bolas de diferença teríamos feito um bom resultado.
Na segunda mão em Almeirim, com mais uns minutos, acha que ganhava o título?
Nunca iremos saber. A verdade é que tivemos duas semanas para preparar este jogo e dissemos aos atletas que teríamos de jogar com todas as armas que pudéssemos utilizar. Eles, desta feita, interpretaram bem o papel que lhes destinámos e num estilo de jogo pressionante a nossa equipa sentiu-se no seu “habitat natural”. Deixámos a eliminatória a apenas um golo de diferença quando fizemos o 8-3 a longos quinze minutos do final do jogo e todos acreditaram. A partir daqui estávamos a perder por apenasum golo de diferença na eliminatória e acalmámos as hostes. Contudo, não conseguimos ampliar a vantagem e a Sanjoanense alcançou o título, depois de na primeira mão não termos estado ao nosso nível.
Os Tigres festejam a subida de divisão nos Seniores, mas só têm um jogador de Almeirim que até esteve muitos anos fora. É com tristeza que vê este vazio na formação?
Não existe vazio na formação, existe sim falta de jogadores formados no clube a jogarem nos Seniores. Mas essa realidade não é nova em Almeirim, anos houve em que não havia qualquer jogador formado no clube na equipa principal e as loucuras que se cometeram nesses mesmos anos fazem com que o clube neste momento esteja numa posição débil no que diz respeito, por exemplo, à negociação com jogadores. Esse vazio só será preenchido se houver um trabalho continuado e de muitos anos, pois a fasquia competitiva está muito alta, tanto na primeira como na segunda divisão e até mesmo na terceira.

O clube resistirá sem formação?
Pelo que sei o clube está a fazer esforços para manter e melhorar a sua formação e apesar de não ser a minha área de jurisdição acho que o envolvimento dos pais, familiares, amigos e comunidade envolvente é fundamental para que os jovens atletas se possam sentir bem e importantes, e para isso é essencial que os primeiros façam sacrifícios e que não fiquem “deitados no sofá”. Acho que o clube em si, e no geral, tem um pensamento demasiado “resultadista” nos escalões de formação, e atenção que já referi isto à direção e à coordenação. É preciso pensar de uma maneira mais ampla, fazer de tudo para colocar os jovens a competirem no Campeonato Nacional dos diversos escalões de formação/ competição, tentando desenvolvê- los com reais desafios que lhes deem condições para um dia integrarem a equipa sénior.

Almeirim, pelo que já conhece, tem dimensão empresarial e público para estar numa primeira divisão?
Claramente. Aliás, com a dimensão empresarial existente na região, acho que o clube deveria arranjar estratégias para manter o que tem e angariar outro tipo de sponsorização, de modo a criar bases financeiras e relacionais ainda mais fortes. Hoje em dia os parceiros são fundamentais a todos os níveis. Relativamente ao público é necessário fidelizar as pessoas ao espetáculo e isso só é alcançável com boas exibições, resultados e também a vinda de grandes clubes a Almeirim, o que só se consegue estando na primeira divisão que é onde estão as melhores equipas. Os Ultras Almeirim têm neste campo um papel decisivo, pois eles, mais do que ninguém, têm a capacidade de ajudar a mobilizar os almeirinenses e de trazê-los ao Alfredo Bento Calado, assim como os media locais, com “O Almeirinense” à cabeça, que com uma atitude mais ativa e positiva podem também ajudar o clube a mobilizar mais pessoas, numa época em que as dificuldades serão acrescidas. O povo de Almeirim já mostrou ser bastante regular e fervoroso.

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