Um dia na charneca… Por Augusto Gil

Os farnéis que levavam já um pouco melhorado em relação aos anos 20, era por vezes composto por um casqueiro ou parte dele, umas sardinhas ou um bocado de toicinho, bacalhau seco, não esquecendo da dita massa p´ra caldeirada à barrão, onde a burra era posta logo ao chegar e todos contribuíam ao pôr na panela o que traziam não esquecendo o tomate e o azeitito. Outra curiosidade daquele tempo foi a chegada dos carros. O pessoal vindo da charneca pela estrada fora, não tinha hábitos como de agora de vir em fila de pirilau, era tudo ao molho, logo as buzinadelas era uma constante e o agradecimento por vezes desse susto, os homens porque naquela altura tinham cajados, estes eram arremessados direito a eles e depois lá havia cachaporra que fervia. Tanto que ao chegarem à Vila, ao entrarem nalguma taberna, o cajado era guardado pelo taberneiro para evitar depois de estarem com o copito, alguma zaragata de “pau feito “o que era já esperado! Como tudo na vida e isso até se vai perdendo com tempo pelas tantas, os rapazes e as raparigas lá se iam entretendo a fazer e a dizer uns dichotes e uns olhares já a tentarem fazer um namorico. Por vezes possível e outras vezes não. As mais velhas por vezes ou estragavam tudo ou “compunham” tudo, era preciso caírem em graça “sanão” nada feito ou tudo feito. Cartas de amor do antigamente hoje poderão ser de riso mas dantes pedia-se a alguém que soubesse escrever e de confiança porque era um risco de tal forma que se aplicava o proverbio: tanto éra o ladrão que ia à vinha como o que ficava cá fora. Mas para os mais novos muitos podem imaginar as dificuldades na altura como é que os “ajuntamentos ou os namoros eram feitos ou pedidos”. – Ó c´chopa, na sê se jarreparaste ande d´esinsefride countigue, tenhe andade cá c´uma fezada qu´a gente até pode amanhar-se os dois. Ingracei contigue logue à primera, és ingraçada e davas-me muinta geite, a gente arrepanhar-se um c´um o outre, iste é meme vurdade. O mê patrão já m´ indrominou, p´ra falar contigue, proque sabe das nhas fraquezas d´ andar a dezer- lhe que me intraste no goto, e que até na m´ímportava nada de fazer mais umas gavelas p´ra´rinjar uns tostões p´ra casar contigue, ou mesme a gente ajuntar-se e ós pois ver s´a vida se cumpunha. Na sê s´ tás desposta a estas coisas, mas olha…, ê goste de ti porra! Se ficava “incarnada” ou não, muitas da vezes era um sinal que só c´um olhar, tava feito o pedido, ou intão, ela lá ìa pedindo openiões às mais velhas, qu´essas iriam fazer de tribunal da situação e mali, e darem o sim ou sopas nos ses pinsamentos e de caloris! È de recordar que um dia o Manel Pedrês, depois andar a galar durante um mês uma dita gaiata que diáriamente em frente dele lá na eira, desbulhava as maçarocas de milho, na fazenda do patrão, a troca de arremelgações, piscadelas d´olhes, mais umas fosquices e ela lá com custo lhe sorriu, e disse logo prós ses butões: – Já tás no pape, rica coisinha da tu mãi! E resolveu depois da desferra, fazer um pleno. Iam-se embora e por norma atravessavam o pinhal do Caroça. O Manel acelarou o passo e atráz d´um pinheiro gordo a esperou. Ela lá vinha descansada a pensar nos seus afazeres, quando lhe apareceu o Manel que com muitas e boas atinções e das boas lhe fez ali logo à queima-roupa uma declaração deste tipo: – Ó Maria és p´ra mim a melhor coisinha deste mundo, s´na fosse pucado dava-te já um beije, mas sê que começavas logo a gritari e prontes lá se ía o meu segredo e o mê amori…! E ela coitada com algum medo lá lhe respondeu; – À M´nel ê alguma vez o fazia, atão na tás a ouvir-me na nhã voz e no falari? Tou toda rouca que nim posso gritari… e olha, aproveta agora mas depressa… pode-me passar a róquidão daqui a nada…! E lá acontecia… muitas dessas vezes que ao chegarem a casa ainda traziam carumba e formigas agarradas às ciroulhas…!

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