O lugar da escrita de experiências na ficção de Antonieta dos Santos Nunes

A idade não é um posto. Nascer antes ou depois de outros é a lei do tempo… Idade é sabedoria e ainda se torna mais especial se juntar o saber “observar” os tempos.
Antonieta dos Santos Nunes tem esta sabedoria. Vive por cá, tem dois filhos – a Vanda e o Nuno, dois netos,
o marido, seu maior incentivador e já publicou dois livros em co-autoria e, em 2019 começou um percurso sozinha
já com duas obras publicadas.
A autora falou connosco sobre si, a sua obra e o processo criativo.

Assina Antonieta dos Santos Nunes mas é conhecida como Cabanas…
Cabanas é o meu nome de casada. Falei com o meu marido sobre a assinatura e ele achou que “Dos Santos Nunes” está no meu ADN porque é o nome de família do meu pai.

Como começou esta aventura da escrita?
Começou há uns tempos pela influência da minha mãe. Era uma mulher muito interessada, muito culta, com
um alto nível cultural e tinha um espírito artístico. Fez o curso de Belas Artes e como enviuvou aos 28 anos dedicou-se à Arte. Por outro lado, ela era uma grande apaixonada pela cultura popular e fazia tertúlias ligadas aos ranchos
folclóricos. Eu via isto e comecei cedo a querer fazer uma confraria das ervas de- cheiro. Constituímos a Confraria
das Ervas-de-Cheiro mas num conceito diferente do habitual que tem a ver com a sua função decorativa. Juntámos amigas nossas para fazer peças decorativas, licores, etc.
Entretanto, apercebi-me que havia um conjunto de lendas associadas a estas ervas e foi assim que editei em
2008, o meu primeiro livro coletivo em co-autoria com Suzet Coutinho e Isabel Moreira, uma compilação de Lendas das Ervas-de-Cheiro que foi lançado na Associação das Antigas Alunas do Instituto de Odivelas. Foi
um sucesso.

“Mesmo naquela altura, era difícil. A minha mãe chegou a empacotar comprimidos para uma farmácia.”

Frequentou o Instituto de Odivelas, o antigo colégio militar?
Sim, frequentei o antigo colégio feminino. E foi a partir daqui que surgiu a ideia do segundo livro – Um “Testemunho de Vida – Capitão Manuel Sidónio dos Santos Nunes” que era o meu pai. O comandante do batalhão, o Pino
Soares amigo do meu pai, disse que era melhor ir para casa descansar mas o meu pai veio morrer a casa naquela noite. Devia ter dado baixa ao Hospital Militar e por isso a minha mãe não teve direito a uma pensão de
sobrevivência.
Foi preciso os seus superiores envolverem-se no assunto para provar que estava em serviço quando morreu e ela
teve direito a uma pensão de miséria. A minha mãe tinha 100 escudos e cada um de nós 50 para vivermos por mês,
com um pequeno pormenor, a minha mãe não podia trabalhar nem podia casar, o casar, eu ainda compreendo, agora deixar de trabalhar? Ah e tinha de ter um bom comportamento civil, não podia trabalhar e uma pessoa diz assim “com 150 escudos é que se consegue viver? Mesmo naquela altura, era difícil. A minha mãe chegou a empacotar comprimidos para uma farmácia.
Assim fizemos o livro: a minha mãe, o meu irmão e eu. Escrevi alguma coisa com o Afonso Cruz, o jornalista que
contratamos. Foi uma escrita de afetos porque foi lembrar tempos, reviver fotografias… Depois, mais tarde, ainda reuni poesias da minha mãe, com os quadros dela e falei com um editor para publicar que foi lançado no lar onde ela estava.

E a sua escrita pessoal?
Há dois anos passou-me uma coisa pela cabeça… eu tinha uma coisa escrita desde 2010. O marido dizia-me que devia desenvolver a história e eu escrevi umas 5 folhas ou 6, uma coisa pouca. E foi em 2010, fiz aquilo e arrumei!

E deu o livro editado agora em 2019?
Sim. Peguei no texto de 2010 e “abri-o” e resultou na Sala dos Espelhos. Levei dois anos a escrever a
obra.
Foi curioso porque eu pensava que aquilo estava acabado e quando começo a desenvolver para um lado e a desenvolver para o outro, eu acho que o processo criativo renasce e recomeça, como as cerejas, umas coisas
puxam as outras e foi então baseado muito numa experiência.

“Acho que o livro em si é um misto das minhas vivências onde eu posso estar representada em muitas das personagens (…)”

É biográfico? Narra a história de uma senhora que fica viúva com uma série de filhos…
Não é! Por exemplo, posso ter ido pegar na viuvez da minha mãe mas não é a Maria de Branca. Acho que o livro em si é um misto das minhas vivências onde eu posso estar representada em muitas das personagens, mas são personagens que nas quais misturei vivências e ficcionei.
Maria Branca é uma pessoa muito bem instalada na vida, com uma fortuna excelente. Mas ao ficar sozinha, ao ter que assumir ela o papel de pai de família, de chefe de família, começar a sentir que existem coisas para as quais tem potencialidades e que nunca teria pensado pô-las em prática.
É uma transformação que ela faz por dentro. Ela começa a olhar o mundo e a entrar na profundidade das coisas, começa a perceber, começa a ter tempo para pensar nas coisas, os filhos começam a crescer e como tal, fica disponível para dar saltos na sua própria evolução. E acho que isto é um situação que se verifica nas mulheres e para isso eu tenho o exemplo da minha vizinha Custódia, uma pessoa humilde que quando começa a aliviar o luto, começa a “compor-se”.
Neste momento ela toma conta dela porque não já tem de dar satisfações ao marido nem à sociedade. Ela comporta-se de forma socialmente correta, mas a gostar dela e esta senhora é a senhora que me dá o mote para a evolução da Maria Branca.

É esta a transformação que as mulheres devem ter para serem ativas na vida política?
As mulheres independentes sim, as que têm marido e filhos, põe-se um outro problema que é para mim muito
interessante de observar. Sou completamente contra os movimentos feministas, acho que a luta se faz em conjunto, não se faz mulheres contra os homens. E se precisamos de todas as classes sociais também precisamos do sexo oposto.
As mulheres eram confrontadas com algum complexo de culpa ao deixar o filho para trás, hoje, ou amanhã, ou se tinha de ir para ali, ou para uma reunião, as mulheres da minha geração avançaram mas muitas delas com complexo de culpa, por conta do seu instinto de maternidade, quer dizer, estamos numa situação de adolescência social.

É também uma questão de poder…
Esta geração (da minha mãe e da D. Custódia, com 90 anos) é uma geração em que as mulheres são submissas, são mesmo porque são infantis. O século XX é de uma infantilidade feminina que até mete aflição. Até mesmo com a moda, no segundo livro eu fui fazer essa pesquisa, e assim que acontece uma situação qualquer em que elas tomam o poder, elas já estão preparadas para dar alguma volta.
O problema das mulheres nunca se resolve. As mulheres andam sempre na corda bamba, cada vez que muda uma geografia política elas estão sempre na linha da frente. Qualquer novidade ou mudança, até na moda era uma agressão ao mundo, era uma agressão aos homens, era uma agressão ao poder patriarcal.
A seguir efeminizam e “infantilizam” o século XX e voltam à casa, a ser donas de casa. “Que raio é que acontece às mulheres que estão sempre a mudar de contexto?”

“Tinha a intenção fazer um livro de contos ou histórias, com especial atenção ao “Submundo”, são as histórias macabras de criaturas com uma aparência normal”

“Balanças entre Pesos e Sinas” é o seu livro mais recente, editado em Novembro de 2020. Há aqui um peso histórico?
Não! Mas esta criatura existiu, não com o nome de Josué, mas com as características engraçadas que lhe
aponto. Imaginativo, criativo, sedutor e um verdadeiro “homem que nasceu com o rabo virado para a lua!

Uma escrita fruto do confinamento?
Foi. Mas é uma escrita diferente, com histórias. Tinha a intenção fazer um livro de contos ou histórias, com especial atenção ao“ Submundo”, são as historias macabras de criaturas com uma aparência normal. Pode ser a próxima obra – histórias de outras vidas, do que está para lá do visível.

Quando escreve tem um destinatário específico?
Eu acho que quando escrevi este último livro, foi objetivamente a pensar em mulheres. E as minhas colegas que o leram viram-se refletidas nele. A minha ideia era fazer com que essas pessoas se aproximassem desta leitura e que se divirtam. Não é uma leitura “light”, é uma literatura que tem preocupações sociais por um lado e tem, por outro, uma vontade de mostrar coisas terríveis que definiam o Estado Novo. Porque eu sou anti Estado Novo como pode ver! Foi um período bastante negro da nossa História, apesar das pessoas terem sobrevivido.
A personagem do Josué é um homem que não tem peso nenhum no ponto de vista da evolução, não participou em nada para a mudança, instalou-se e instalava-se em qualquer situação. É digamos uma rolha! Como muita gente foi.

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