Especial pandemia: Ana Andrade admite que “Quem não aceita a vacina é burro”

No dia 6 de março, fez um ano que surgiu o primeiro caso de Covid-19 no concelho de Almeirim.
A edição impressa de 1 de março do jornal O Almeirinense abordou a situação de um ano de pandemia com um conjunto de entrevistas que retratam a luta do concelho contra a Covid-19 e a opinião dos entrevistados sobre o tema. A quarta entrevistada foi Ana Andrade, a primeira médica de Almeirim, que admitiu como foram os primeiros tempos da pandemia e a sua opinião sobre as pessoas que não querem levar a vacina.

Como é que têm sido estes tempos de pandemia?
Horríveis. É preciso ter-se uma cabecinha muito forte para aguentar isto. Nós já não temos o amanhã; tivemos
o ontem. E é difícil, muito difícil, mas graças a Deus que, como tenho uma cabeça dura, tenho aguentado.

Alguma vez tinha imaginado que nós poderíamos passar por um problema destes?
Não, nunca pensei. Isto realmente é uma luta contra um soldado que nós não vemos e nem sabemos onde é que ele está.
No início, seria uma guerra perdida, mas graças a Deus que tivemos muita sorte em haver as coisas que há agora
Senão, isto era outra pneumónica como foi há 100 anos. Naquela altura, não havia nada. Era papas e era lambedouros feitos em casa e não havia mais nada. Nem aspirina existia.
Olhe, eu saí do trabalho há 13 anos, já não sei nada de medicina. Deixei de ler os livros novos e realmente é… Olhe, isto é uma obra de Deus junto com homens muito bem formados.

Acreditava que a medicina conseguisse dar uma resposta tão rápida?
Sim, acreditava e tinha esperanças e estamos no século XXI e graças a Deus que a medicina evoluiu muito e
há muitos bons médicos em Portugal. Não é preciso ir para o estrangeiro, porque os médicos que cá estão trabalharam que nem uns burrinhos, coitadinhos.

“(…) eu fiquei louca e deixei de ver. Já não me aguentava. Realmente, a idade faz muita coisa (…)”

E nós temos falado tanto dos profissionais que estão na primeira linha, merecem grande destaque por aquilo
que têm passado e que têm sofrido, todos os nossos profissionais de saúde ao longo deste ano?

Não só os profissionais. Mesmo os adjuntos dos profissionais mereciam todos um grande destaque… Um monumento,
uma coisa de agradecimento. Eu, que estou habituada a ver muita coisa, quando comecei a ver os primeiros
entubados, eu fiquei louca e deixei de ver. Já não me aguentava. Realmente, a idade faz muita coisa.

Não tem conseguido ver essas imagens?
Não, porque me recordo do meu pai. O meu pai morreu há 50 anos. Naquela altura, quando vi o meu pai entubado,
foi uma coisa horrível. De maneira que tinha recordações muito más e fazia de tudo para não ver nada.

Quando surgiu a possibilidade de se começar a vacinar a população em geral, aceitou de imediato? É que há muita gente que está a recusar…
São burros. Não há ninguém que faça uma vacina para fazer mal seja a quem for. Agora, não há doenças, há doentes.
Você dá uma insulina a mim e eu fico curada, você leva a mesma injeção e pode morrer. Por isso é que a gente está a responder àquele questionário que ali está feito. Pronto, e não posso dizer mais nada e estou muito contente de estar aqui.

Pelo menos há 10% da população de Almeirim que nesta primeira fase
não está a aceitar. Acha que eles não fazem bem?

Eu acho que eles estão a fazer mal e estão a ser são palermas em não aceitarem, este é um banho de Deus. Isto foi quase um milagre da Nossa Senhora ter uma vacina em tão pouco tempo.
De maneira que, se não aceitam, o problema é deles. É fazer mal aos outros também.

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