Especial pandemia: Pedro Sousa e Silva admite que “Covid trouxe despesas de 200 mil”

No dia 6 de março, fez um ano que surgiu o primeiro caso de Covid-19 no concelho de Almeirim.
A edição impressa de 1 de março do jornal O Almeirinense abordou a situação de um ano de pandemia com um conjunto de entrevistas que retratam a luta do concelho contra a Covid-19 e a opinião dos entrevistados sobre o tema. O terceiro entrevistado foi Pedro Sousa e Silva, da Santa Casa da Misericórdia de Almeirim, que admitiu a Covid-19 trouxe despesas e os desafios que houve ao longo do ano.

Como tem vivido a SCMA este ano de pandemia?
Não tem sido fácil, ninguém está preparado para gerir uma situação destas. Felizmente que temos uma equipa, que permitiu responder de forma adequada aos vários desafios que foram surgindo, mas muitas vezes fomos levados ao limite, a vários níveis.

Quais têm sido os maiores desafios ao longo destes quase 12 meses?
Foram imensos, no entanto, não podíamo-nos deixar vencer pelo medo, temos muitas vidas à nossa responsabilidade.
No início da pandemia, foram poucas ou nenhumas as orientações das entidades competentes, então, tivemos de assumir uma postura proativa e gerir todo o processo. Foi criado um grupo de trabalho, que desenvolveu um plano de contingência com vários níveis, estes iam sendo ativados à medida que a pandemia ia evoluindo.
Para dar uma ideia do nível de restrições que criamos, o Colégio Conde Sobral foi dividido em cinco colégios que
funcionavam completamente independentes, para assim conseguir reduzir contactos. O lar S. José foi dividido em três lares independentes, não havendo cruzamentos entre eles.

Como se adaptou a instituição, que principalmente no lar, tem dezenas de idosos?
Foi feito um trabalho competente a esse nível, tivemos pessoas muito preparadas que desenvolveram uma estratégia de combate à pandemia. Esta assentava em duas grandes vertentes, prevenção e mitigação, ou seja, tentar impedir a “entrada” do vírus mas, se este “entrasse“, que provocasse o menor dano possível.
A partir daqui, tudo o que era possível fazer, foi feito, desde demolir ou construir paredes para criar unidades de isolamentos, promover quarentenas a cada ida ao hospital, implementar numa fase precoce de utilização de EPIs de máxima segurança, fomos muito para além das recomendações da Direção Geral da Saúde. A juntar a tudo isto, nunca houve uma limitação orçamental para a proteção individual dos funcionários e utentes.

“Para os utentes o principal sacrifício é emocional, verem-se confinados, privados da sua liberdade, das suas famílias (…)”

Tem existido um grande sacrifício de funcionários e utentes?
Os funcionários têm sido essenciais na gestão desta pandemia, são incansáveis, sempre disponíveis, mesmo quando dominados pelo cansaço e exaustão, a eles muito devemos. Para os utentes o principal sacrifício é emocional, verem-se confinados, privados da sua liberdade, das suas famílias,
numa fase tão avançada das suas vidas, é muito triste.

Atualmente são testados com muita frequência?
No início da pandemia, de 15 em 15 dias, e sempre que a situação justificasse, mais recentemente de 5 em 5 dias.
Aproveito para deixar um especial agradecimento à autarquia, que esteve sempre disponível para ceder gratuitamente os testes.

Fizeram-se até mais testes do que aqueles que eram sugeridos?
Sem dúvida, a Segurança Social apenas assegurava uma testagem mensal, por nossa iniciativa implementamos um
plano que assentava numa testagem massiva, só assim podíamos prevenir propagação de contágios.

Conseguiram assim detetar possíveis surtos?
Por várias ocasiões conseguimos detetar casos positivos em funcionários, mas como eram identificados numa fase
muito precoce, permitia impedir o desenvolvimento de surtos.

As saudades dos familiares como foram “combatidas”?
A componente psicológica desta pandemia irá certamente deixar marcas profundas. No entanto, foram desenvolvidas
várias iniciativas para manter um contacto permanente entre famílias e idosos. Um exemplo disso foi o projeto “alegria do reencontro” onde levamos os idosos ao encontro das suas famílias numa carrinha adaptada onde o contacto se fazia através do vidro . Mas os canais digitais são os principais meios de contacto com as famílias.

A vacina é vista como a luz ao fundo deste túnel que parecia não ter fim?
Sem dúvida, só a vacina ou um medicamento eficiente, pode colocar fim a esta pandemia, por isso é dar graças à ciência e aceitar esta vacina como uma dádiva de Deus.

A SCMA associou-se também ao Instituto Gulbenkian de Ciência para um estudo inédito ?
Sim, é um estudo inédito em Portugal, e dos poucos realizados no mundo. Este consiste em realizar, periodicamente,
testes sorológicos à população idosa residente nos lares de 3ªidade, no caso deste estudo foram quatro lares em Almeirim, com o objetivo de precisar o nível de imunidade criada pela vacina em populações mais idosas.
Os resultados deste estudo serão extrapolados para a realidade global e certamente úteis para definir estratégias
futuras.

Em que medida a pandemia aumentou as vossas despesas?
Desde o início, decidimos que iríamos ao limite, porque as vidas não têm preço. Mas esta crise pandémica criou até hoje uma despesa suplementar na ordem dos 200.000€, já para não falar nas receitas perdidas, a recuperação não vai ser fácil.

Que apoios têm tido?
Até agora cerca de 10.000€ do governo, 20.000€ do Município de Almeirim, e oferta de vários materiais de proteção
individual de algumas empresas, instituições e pessoas individuais.

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