Especial pandemia: Pedro Ribeiro afirma que “Profissionais de saúde vão ser reconhecidos pela Câmara”

No dia 6 de março, fez um ano que surgiu o primeiro caso de Covid-19 no concelho de Almeirim.
A edição impressa de 1 de março do jornal O Almeirinense abordou a situação de um ano de pandemia com um conjunto de entrevistas que retratam a luta do concelho contra a Covid-19 e a opinião dos entrevistados sobre o tema. O quinto entrevistado foi Pedro Ribeiro, Presidente da Câmara Municipal de Almeirim, que contou a sua experiência com a Covid-19 e que os profissionais de saúde merecem ser reconhecidos.

Quais é que foram as principais medidas que a Câmara Municipal de Almeirim tomou de novo em março, quando isto começou?
No final de janeiro/princípio de fevereiro, eu comecei a ficar preocupado com uma série de coisas. E quando começámos a ver nas notícias que existe um suspeito que vai fazer teste, etc…, não foi logo no princípio de fevereiro, mas mais para meados de terceira semana de fevereiro, começámos aqui a pensar num conjunto de medidas de contenção.
Aliás, nós acabámos logo com um conjunto de eventos que tínhamos como espetáculos, etc… Fomos, talvez, a primeira Câmara da região a fechar no sentido do atendimento geral ao público. Estivemos ali fechados uns dias para
nos prepararmos para poder reabrir outra vez. E eu acho que também isso fez a diferença, porque antecipámos o fecho para pôr os acrílicos, para fazer os distanciamentos, para tratar dessas coisas todas de forma que, a seguir,
pudéssemos ter o atendimento e manter sempre o atendimento.
Existe um conjunto de serviços, nomeadamente da Administração Central, que pura e simplesmente fecharam,
ou então o contacto é uma coisa impensável e nós obviamente privilegiamos aquilo que são os contactos online, etc…, mas nunca deixámos de atender ninguém que precisasse.

“Eu passei o meu dia de Páscoa numa reunião da Proteção Civil. E uma das reuniões, e das decisões mais complicadas que tivemos de tomar, foi quando houve uma notícia de Espanha sobre um funeral que tinha infetado 40 pessoas.”

Que reação teve ao saber do caso primeiro em Almeirim?
É daquelas coisas que recordamos para sempre. Foi no dia 6 de março de 2020.
Eu estava em Santarém na Comunidade Intermunicipal e às 17h25, quando vejo o número da Dra. Ana
Simões, percebi que não eram coisas boas. E diz-me ela: “Sr. Presidente, temos o nosso primeiro caso”. E eu fiquei assim um bocadinho em silêncio e depois acrescentou: “Já está no Curry Cabral, mas temos aqui um outro problema: é que já tenho aqui os contactos da esposa do senhor que tem ela múltiplos contactos e” (pausa).
E hoje nós já não achamos estranho que pessoas tenham e as esposas, os maridos e os filhos, etc… não tenham,
portanto ainda não percebemos porquê, mas sabemos que é normal. Foram 24 horas muito intensas e depois fomos tendo mais uns casos e a grande questão aqui era: como é que faziam as cadeias de transmissão e como é que isso acontecia. Aqueles primeiros dias foram muito intensos, muito difíceis, porque nós estávamos a viver um tempo e a tomar decisões sem saber muito bem do que é que estávamos a falar.
Hoje sabe-se de coisas que na altura não sabia. E andámos a inventar. Adaptámo-nos. Acho que nos adaptámos bem.

A Câmara tentou manter a atividade normal mas ao mesmo tempo ser o elo de ligação com a comunidade e
IPSS´s…

A minha relação pessoal e institucional com a Delegada de Saúde é excelente, e sei que há sítios do país onde isso não é assim, e portanto nós não temos nada a dizer com a saúde em si e nós sempre estivemos do lado da solução. Quando nós conseguimos comprar máscaras como conseguimos comprar material de proteção e tal, nunca foi aquela lógica de: então, mas só serve para nós? Não! Se for preciso para vocês que estão na Linha da Frente, nós temos aqui.
Percebemos também que com as próprias IPSS havia essa necessidade. Tudo aquilo que pudemos fazer para
ajudar, fizemos, quer dizer… Ajudámos financeiramente, ajudámos com material, ajudamos com álcool e gel,
ajudamos algumas vezes com instalações… Sempre foi nesta lógica de colaborar e de tentar resolver assuntos.
Dos momentos que também me ficou marcado foi numa reunião. Nós andámos a reunir com a Comissão Distrital de Proteção Civil durante dois meses, talvez, todos os dias. Eu passei o meu dia de Páscoa numa reunião da Proteção Civil. E uma das reuniões, e das decisões mais complicadas que tivemos de tomar, foi quando houve uma notícia de Espanha sobre um funeral que tinha infetado 40 pessoas. E nós, com a indicação da Saúde, da Medicina Legal,
etc…, fechámos os cemitérios.
E a seguir, lembro-me de uma conversa do representante da Medicina Legal que nos dizia: “Precisamos de fazer o
Plano de Emergência, entre aspas, da mortuária. “Oh Sr. Presidente, você já tem o seu crematório já a funcionar?”.
E perceber que nós tínhamos que encontrar sítios, eventualmente alguns até fora do cemitério … (pausa).
Aquela medida que fizemos de colocar depois uma flor em cada… Eu acho que isto às vezes… É a história da proximidade…(pausa).

No final do ano, o concelho ficou com a situação descontrolada?!
Eu admito que fui surpreendido por uma coisa: eu acho que o problema maior não foi o Natal; eu acho que o problema maior foi a passagem de ano. E portanto foi algo que eu acho que ninguém estava à espera e, aliás, nós
vamos estar confinados até à Páscoa precisamente para não se repetir.

“Estas coisas fazem mossa e fazem diferença. Isto não é fácil, e portanto todos nós temos que ter cuidado.”


Quando abrir não poderá acontecer o mesmo?

Não. Eu acho que nós temos de continuar todos a ser conscientes. O que é que nós precisamos de fazer? Duas
coisas fundamentais: vacinar e ter cuidado.
Isto é muito duro, eu dou o meu exemplo pessoal: eu no meu primeiro confinamento estive quase dois meses (um mês e três semanas) sem ver o meu filho. Ele estava com a mãe e eu recordo-me que a primeira vez que o fui ver numa Lisboa completamente deserta, levava máscara, levei os álcool gel todos, coloquei-o no meu carro, demos uma volta por Lisboa. Contacto físico quase zero e depois desinfetei-lhe as mãos e tal para o deixar outra vez. Estas coisas
fazem mossa e fazem diferença. Isto não é fácil, e portanto todos nós temos que ter cuidado.
E portanto, nós temos todos de ter muito cuidado, isso garantidamente.

Quanto a Câmara já gastou com a Covid-19?
Sei que o número andará provavelmente acima das duas centenas de milhares de euros. Mas eu não consigo
dar um número certo. Por exemplo: os custos das refeições escolares,… Isto tem um custo que é por causa da Covid-19, mas que nós não conseguimos contabilizar assim. Nós conseguimos contabilizar naquilo que comprámos dos ventiladores, das máscaras, dos milhares de litros de álcool e gel, dos apoios que demos a várias instituições… Isso é tudo possível contabilizar, podemos contabilizar as isenções todas que demos dos nossos passos, das taxas, etc… Portanto, tudo isso é mensurável.
Da área da Saúde nunca ouvi dizer um “não” e mais importante do que isso: uma preocupação que as pessoas
às vezes não sabem e eu admito que quem tem uma consulta desmarcada obviamente que não fica contente,
mas tentar manter a atividade assistencial é uma coisa louvável. Nunca foi conseguida a cem por cento,
vai haver gente que, quando ler estes comentários, vai dizer: “Ah, mas eu não tive consulta!”. É verdade.
Não foi garantida, agora tenho a certeza de uma coisa: o nosso concelho a esse nível, comparado com
muito do que eu ouço e que vejo por esse país fora, não tem nada a ver. E isto deve-se a um esforço titânico
de gente que chegou além das consultas, além de estar nos covidários, a seguir faziam 100 telefonemas por
dia. Fazer 100 telefonemas a pessoas, enfim…
Uma coisa é ligar para quem não tem sintomas, outra coisa é ligar e perceber que há gente com sintomas e se
calhar tem que ir ao hospital e que se calhar tem de… Portanto, isto é um esforço, enfim… (pausa) que não há palavras e que também é possível porque eu acho que há aqui esta enorme colaboração entre toda a gente.

“(…) esta doença tem tudo ao contrário do que é: nós quando estamos doentes, por norma temos as pessoas ao nosso lado e aqui não! Nós quando estamos doentes, temos de estar afastados de toda a gente!

Acha que essas pessoas merecem da Câmara um reconhecimento?
Sim, merecem. Nós atribuímos as medalhas no 25 de abril como sabem. E este ano, o nosso foco, enfim não
vou dizer tudo, mas o nosso foco vai estar para aqueles que efetivamente estiveram para as instituições, que
estiveram naquilo que é a Primeira Linha. E na Primeira Linha estiveram naturalmente a saúde, estiveram as IPSS.
As pessoas das IPSS não estavam preparadas; nem dirigentes, nem utentes, nem colaboradores…
Quer dizer, porque esta doença tem tudo ao contrário que é: nós quando estamos doentes, por norma temos as pessoas ao nosso lado e aqui não! Nós quando estamos doentes, temos de estar afastados de toda a gente! Sozinhos, isolados, etc… E portanto, como há pessoas que são dependentes e não podem ter isso, ter pessoas que a seguir os vão tratar, isto é de uma complexidade e de uma exigência física e mental enorme!
E portanto eu acho que nunca conseguiremos reconhecer todos e então individualmente impossível, mas
queremos reconhecer de uma forma geral, pelo menos as instituições.

A Câmara apostou também muito nos testes rápidos?
Sim. Houve uma altura em que os, nomeadamente, das IPSS faziam-se PCRs de mês a mês. Enfim, a probabilidade
de efetivamente de apanhar alguma coisa é alguma, mas não é aquilo que nós queríamos. Comprámos já uns milhares de testes, temo-lo feito em colaboração com a saúde, e implementámos uma estratégia de prevenção.
Ou seja, de regularmente fazer testes a toda a gente, mesmo sem sintomas. E fomos apanhando pessoas, pessoas
essas que não tinham sintomas, mas felizmente não tivemos aqueles surtos que se ouviu por aí falar e eu acho
que isso tem muito a ver, sobretudo agora nesta última fase, com esta estratégia que tivemos de prevenção.

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