Especial pandemia: Paulo Guia admite que “Em Almeirim existiu cooperação e proximidade”

No dia 6 de março, fez um ano que surgiu o primeiro caso de Covid-19 no concelho de Almeirim.
A edição impressa de 1 de março do jornal O Almeirinense abordou a situação de um ano de pandemia com um conjunto de entrevistas que retratam a luta do concelho contra a Covid-19 e a opinião dos entrevistados sobre o tema. O sétimo entrevistado foi Paulo Guia, enfermeiro da UCC Almeirim, que relatou o trabalho que tem sido feito desde que começou a pandemia até aos dias de hoje.

Que balanço faz deste ano de pandemia?
Neste momento, tendo decorrido um ano após o início da pandemia, é possível fazer um balanço bipartido da
mesma e que vai muito para além do problema de saúde/doença pois, se por um lado, temos infelizmente a reportar
mais de dois milhões e meio de óbitos no mundo e mais de dezasseis mil óbitos em Portugal resultantes da infeção por SARS-COV-2, o que constitui sem dúvida um balanço extremamente negativo a nível humano, por outro lado, podemos referir a excelente resposta da comunidade médica e científica na procura de soluções que, felizmente, após a pesquisa, desenvolvimento e testagem, culminou na produção de diversas vacinas preventivas da Covid-19 e/ou das
manifestações mais graves desta doença.
De facto, se nos concentrarmos nesta perspetiva positiva de resposta perante a pandemia, que nos trouxe diversos e
abrangentes desafios a nível educativo, laboral, económico e social, considero que a procura das melhores respostas
conduziu a uma efetiva inter-relação e cooperação entre os diversos setores da sociedade, deslocando o campo de discussão e decisão na área da política de saúde para o nível regional e comunitário, aproximando-o das pessoas e das suas necessidades.

Quais as piores situações que tiveram de ultrapassar?
As piores situações que tivemos de ultrapassar foram, sem qualquer dúvida, num primeiro momento a necessidade
de realizar as colheitas de amostras biológicas através de zaragatoa para a pesquisa da infeção SARS-COV-2 em todas as grandes Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI’s) de Almeirim, visando a prevenção da disseminação
desta infeção entre os residentes e os profissionais, sendo que, nesses (longos) dias, os enfermeiros estiveram durante
cerca de 7 horas seguidas, totalmente equipados com fatos de proteção, máscaras FFP2 e viseiras, sem poderem satisfazer as suas necessidades mais básicas, tais como comer, beber água ou ir à casa de banho.

Num segundo momento, com a identificação de casos positivos entre residentes e idosos de algumas destas ERPI’s,
em alguns casos atingindo a quase totalidade de infetados, a verificação pelos profissionais de saúde intervenientes da
forma como esta doença pode ser cruel pela extrema gravidade clínica e sub-reptícia pela forma como se mantinha
aparentemente assintomática, mesmo com parâmetros vitais descompensados, mas também a verificação de que
estas pessoas idosas, por serem mais vulneráveis, deveriam ser mais protegidas pelos organismos que tutelam esta área, para que não se encontrem em espaços inadequados, exíguos e pouco conservados, e com recursos humanos pouco preparados nesta fundamental área de atuação.
Felizmente, na nossa área geográfica de atuação, estes casos são muito poucos, quando comparados com outras estruturas muito bem preparadas, altamente profissionais e competentes na sua intervenção junto das pessoas idosas.

“Quanto as “heróis”, somos todos heróis, desde o padeiro até ao empregado dos serviços de limpeza, do agente das forças de segurança (…)”

Os nossos profissionais estão esgotados?
Sim, é fácil constatar que os profissionais de saúde estão sobrecarregados, uma vez que, no último ano, existiu sempre
a preocupação e necessidade de manter as respostas assistenciais, tais como as consultas médicas e de enfermagem, os tratamentos, os cuidados domiciliários, os cuidados continuados integrados e as ações paliativas, a reabilitação, a intervenção precoce, as resposta de saúde pública e a preparação para o parto/ recuperação pós-parto, em simultâneo
com as respostas específicas no âmbito da pandemia, como foram as colheitas de zaragatoas, as áreas dedicadas para doenças respiratórias e Covid-19 (ADC-r), a aplicação de testes rápidos (TRAg), a vigilância epidemiológica de casos positivos ou de casos próximos com as inúmeras listagens provenientes dos agrupamentos escolares de Almeirim
e de Fazendas de Almeirim, e, a partir do início do ano, a vacinação anti-Covid-19 nas ERPI’s, lares e casas de acolhimento, assim como a utentes com mais de 50 anos com comorbilidades e a utentes com mais de 80 anos.
Acresce à sobrecarga, a insatisfação por carreiras pouco valorizadas economicamente e, no caso dos profissionais da
Unidade de Cuidados na Comunidade (UCC), o não pagamento do tão discutido subsídio CoViD-19 em 2020.
No entanto, importa realçar que o extremo empenho, dedicação e competência dos profissionais de saúde de Almeirim foram uma constante nos diversos cenários de intervenção, sendo que colocaram sempre um último esforço
em todas as atividades realizadas e demonstraram zelo e uma enorme disponibilidade para responder as muitas
solicitações de que foram alvo, pelo que muitos não tiveram fins de semana ou feriados durante meses a fio, trabalhando dia e noite sem qualquer retribuição para além do seu horário autorizado de trabalho… mas a satisfação sentida por todos, em cada intervenção realizada ou em cada necessidade suprimida, superou tudo o resto e foi sempre a melhor gratificação para quem cuida do outro.
Quanto aos “heróis”, somos todos heróis, desde o padeiro até ao empregado dos serviços de limpeza, do agente das
forças de segurança ao professor ou auxiliar das escolas de apoio ou no ensino online, dos profissionais das ERPI’s aos
bombeiros e, fundamentalmente, são heróis as pessoas mais vulneráveis da nossa comunidade, ou seja, as pessoas
idosas, as crianças e os jovens, destacando aqui, se me permitem, os filhos dos profissionais de saúde pois o heroísmo
foi, principalmente, deles neste período tão desafiante.

“(…) cada um destes profissionais e todos os parceiros tiveram um papel determinante na pandemia, comunicando a uma só voz as determinações da DGS e a forma como localmente estas seriam implementadas (…)”

Que trabalho foi feito para evitar que a situação em Almeirim tivesse sido pior?
Em Almeirim, existiu o que se caracteriza como cooperação, interajuda, proximidade e acima de tudo proatividade
na procura das melhores soluções para os desafios colocados pela pandemia, por parte dos diversos parceiros na comunidade e na área específica da saúde com uma efetiva articulação entre as diversas unidades funcionais do Centro de Saúde de Almeirim, destacando aqui a excelente comunicação dos Coordenadores entre si, como também com os restantes profissionais, pelo que aproveito para aqui agradecer a sabedoria e humildade do Dr. Joaquim Duarte (UCSP Almeirim) e do Dr. João Soares Ferreira e Enf.ª em Chefia Salete Ferreira (USF Côrtes d’Almeirim).
De facto, cada um destes profissionais e todos os parceiros tiveram um papel determinante na pandemia,
comunicando a uma só voz as determinações da DGS e a forma como localmente estas seriam implementadas,
relembrando constantemente à população quais as atitudes promotoras da saúde e comportamentos preventivos da doença e, por último, demonstrando uma visão de futuro alicerçada no planeamento em saúde e no conhecimento da nossa população.
Considero que foi essa visão e proatividade que nos permitiu, durante muito tempo, ter os números de casos positivos
em números relativamente baixos face ao restante país, assim como nos permitiu atuar rapidamente perante o
aumento abrupto de pessoas positivas para a infeção por SARS-COV-2, no período após o Natal e Ano Novo.

Considera que houve um trabalho de grande proximidade com a autarquia e instituições do concelho?
Na minha opinião, existiu efetivamente um trabalho de grande proximidade com a autarquia e instituições do concelho, realçando desde logo o pensamento crítico, a rápida intervenção e a disponibilidade da Autarquia de Almeirim, na pessoa do Presidente Pedro Ribeiro e de todos os vereadores do elenco camarário,
assim como a competência e o empenho demonstrado pelas Direções e Diretoras Técnicas das ERPI’s na implementação dos melhores e mais eficientes circuitos que fossem protetores e preventivos da infeção por SARS-COV-2 nas suas instituições.
Para tal, reforço o primordial papel da comunicação próxima e constante entre os mencionados decisores, contribuindo decisivamente para um aumento do empowerment comunitário em Almeirim, esperando que o mesmo permaneça e saudavelmente cresça em tempos favoráveis, após o término da pandemia.

Falou-se muito dos testes rápidos. Foram importantes em Almeirim para travar surtos?
Os testes rápidos de antigénio (TRAg) têm uma característica decisiva na limitação e controlo dos surtos que é o facto do seu resultado ser positivo quando existe carga viral suficiente na pessoa testada, isto é, apenas quando esta pessoa pode contagiar outras e assim contribuir para a disseminação da doença. Este facto é tão facilmente verificável
que a última norma da DGS já prioriza a realização dos testes TRAg’s nas situações de surtos identificados, em detrimento dos tradicionais testes pelo método PCR realizados em laboratório.
Logo, sem dúvida que foi determinante a utilização dos testes rápidos para travar surtos nas ERPI’s, nos Centros de Dia, nas Escolas e em entidade públicas e privadas do concelho de Almeirim, sendo que a sua disponibilização de forma gratuita desde o aparecimento deste tipo de testes veio confirmar os predicados antes enunciados, relativamente à antecipação de respostas por parte da Autarquia de Almeirim.

Até com o Instituto Gulbenkian de Ciência, o nosso concelho conseguiu estabelecer parcerias. São estudos importantes?!
O estudo que se encontra a ser desenvolvido pelo IGC em parceria com a Autarquia e a Saúde é muito importante
porque, numa fase muito inicial da pandemia, nos permitiu ter como que uma fotografia da população de Almeirim, no que diz respeito à sua imunidade, verificando-se que estaríamos muito longe da imunidade de grupo, o que conduziu à definição de estratégias mais adequadas à realidade da nossa comunidade. Neste momento, o estudo continua através da avaliação da resposta imunitária de pessoas residentes e profissionais de algumas ERPI’s de Almeirim, em momento diferentes da vacinação COVID-19, isto é, antes da vacinação, após a primeira dose da vacina e 21 dias após a segunda dose (vacina Pfizer/Bio’n’Tech).
Para além do que referi, a realização do estudo e a escolha do local por parte do IGC é um facto que agradecemos e que, ao mesmo tempo, muito nos lisonjeia, pois reflete o reconhecimento deste Instituto pela disponibilidade e características ímpares desta comunidade, assim como a capacidade de organização e operacionalização demonstradas pelos profissionais de saúde da UCC Almeirim/Alpiarça.

“(…) atingir a imunidade de grupo no final do verão e, consequentemente, retomar os hábitos (…)”

Estamos numa fase em que os profissionais de saúde estão vacinados e a população em geral também já começou
a vacinação. É a esperança para o regresso a alguma normalidade?

A partir do início do mês de fevereiro, os profissionais de saúde encontram-se vacinados com a segunda dose da Vacina Comirnaty (Pfizer/Bio’n’Tech), o que significa que, à presente data, já decorreram mais de 21 dias desde esse momento, pelo que é expectável que todos (ou uma grande maioria) tenha desenvolvido a tão almejada imunidade.
No entanto, na perspetiva do profissional de saúde, o momento marcante foi a realização da segunda dose da mencionada vacina nas ERPI’s, lares e casas de acolhimento de Almeirim, e o início da vacinação a utentes +50 com comorbilidades e +80 anos, pois foi muito gratificante perceber que a nossa ação pode fazer alguma diferença no futuro… assim esperamos!
A título pessoal, encontrando-se o meu pai numa destas instituições, foi muito especial poder estar presente nesse momento e até esboçar um abraço que, durante um ano, foi muito desejado e ansiado.
Confesso que houve momentos em que a minha Fé se deixou abalar pelas circunstâncias, mas esse momento fez
retornar a crença em dia melhores, em que todos possamos voltar ao convívio próximo com os nossos familiares, com os nossos amigo(a)s, enfim, com os que mais amamos, sendo que este é, provavelmente, o ensinamento mais importante que podemos retirar desta pandemia: não basta “Estar”, temos que “Estar Com” e aproveitar cada momento junto dos outros com a Felicidade possível e dando sempre o máximo de nós. Quanto ao regresso à “normalidade”, se mantivermos o ritmo de vacinação e se existir disponibilidade de vacinas, é expectável atingir a imunidade de grupo no final do Verão e, consequentemente, retomar os hábitos (apenas os bons) anteriores à pandemia.

Que mensagem gostava de deixar…
A mensagem que quero deixar é, por um lado, de esperança no ultrapassar de todos os desafios que ainda nos esperam e no regresso o quanto antes à “normalidade”, mas também gostava de deixar o alerta que temos deixado nos lugares onde temos realizado a vacinação Covid-19, que consiste na necessidade de todos mantermos os cuidados preventivos de etiqueta respiratória, de uso de máscara, de lavagem e desinfeção das mãos, do distanciamento social, isto mesmo depois de fazermos a segunda dose da vacina, pois não é seguro que
se atinja a imunidade – afinal a eficácia da vacina é de cerca dos 90% (varia entre farmacêuticas) – e nem todos estão
protegidos com a vacina, pelo que é uma questão de respeito pelo próximo.
Pensem que é mais um sacrifício decorrente da pandemia, em prol de um bem comum e perspetivando uma sociedade mais consciente e saudável.

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