“A esperança é sempre a última a morrer!”

MOVALMEIRIM Helena Fidalgo fez o balanço do Plano de Desconfinamento e da situação atual dos associados da Associação de Comerciantes que preside.

O plano de desconfinamento gradual do governo permitiu que algumas áreas de atividade reabrissem, embora com condicionantes. Qual a sua opinião em relação à estruturação deste plano?
Bom, em relação a este plano, se calhar está a ser feito o que é possível fazer. A minha opinião em relação a esta estruturação vai muito ao sabor dos números que se vão apresentando e também de como as pessoas vão reagindo ao desconfinamento.
Se me perguntar se é o ideal, aí respondo-lhe que está longe de o ser, agora que tem que ser feito gradualmente e com condicionantes, pois terá que ser assim! Com isto, não quero dizer que não seja injusto para muitas áreas de comércio terem que estar a vender ao postigo, mas talvez seja a forma de minimizar o estrago que já vai tão avultado, quer na quebra da economia, quer na perda de vidas. E as vidas que se perderam, jamais se restituem. É principalmente nisto que temos que pensar, pois se uma família com a economia abalada é difícil de se reestruturar financeira e emocionalmente, uma família que fica sem o seu pilar, por exemplo, é ainda mais difícil. Nada substitui a vida dos nossos entes queridos. Temos que ser pacientes e prudentes.

“Não permitir a sua entrada na loja é uma dor d’alma, para o comerciante e para o cliente”

Qual tem sido o retorno dos vossos associados em relação a este plano?
Os associados da MovAlmeirim são incríveis! Nada lhes morre nas mãos. Mas isso é apanágio das gentes da nossa terra. Somos Ribatejanos e isso diz tudo. “A esperança é sempre a última a morrer!”
Até aqueles que esta terra adotou, já se habituaram ao nosso andamento. Depois desta tempestade que se abateu sobre nós, arregaçamos as mangas e já estamos quase todos no ativo. Não dá para ganhar para a “bucha”? Está longe
disso! Trabalhar ao postigo serve apenas para não estar fechado em casa a olhar para as paredes. É quase troca por troca, mas ficar parado adianta de alguma coisa? Assim, vamo-nos ajudando uns aos outros psicologicamente e vamos fazendo circular os trocos… apenas os trocos. Ainda o outro dia falava com uma associada MovAlmeirim que dizia.
“temos duas vezes mais trabalho e cinco vezes menos receita, mas pronto, estamos na luta!”. Isto diz tudo.

O comércio ao postigo adequa-se a todos os negócios? É suficiente para manter um nível de vendas sustentável?
De forma nenhuma! Vender ao postigo é uma chatice, seja qual for o ramo de negócio. Estamos a condicionar a escolha e a liberdade do cliente. Não permitir a sua entrada na loja é uma dor d`alma, para o comerciante e para o cliente. Não permitir um almoço ou jantar no restaurante é uma tristeza. Obrigar a beber um café, longe da porta e num copo de plástico é quase criminoso. Tem que haver muito jogo de cintura por parte dos comerciantes para que consigam cumprir e fazer cumprir todas as regras.
E se é sustentável? Neste momento está a anos luz de o ser. Como já o disse é quase troca por troca. É para não deixar
passar a coleção dentro da loja porque o investimento já foi feito! É para pagar a renda, a água, a luz e todas as nossas
outras obrigações porque, sem isso, não conseguimos trabalhar. Mas um comerciante é como outra pessoa qualquer
que tem despesas pessoais, que tem filhos pequenos que dão imensas alegrias mas dão imensas despesas, temos que pôr pão na mesa todos os dias e temos que ter a nossa sanidade mental minimamente estável, mas sem ganharmos o pão nosso de cada dia, às vezes não é fácil.

A MovAlmeirim criou algumas parcerias e iniciativas como forma de apoiar os seus associados. Fale-me delas.
A MovAlmeirim esteve e estará sempre ao lado dos seus associados. Neste ano de pandemia, a informação atempada
e detalhada chegou sempre até cada um dos nossos associados. Estivemos a trabalhar, lado a lado, com advogados, contabilistas e consultores que prestaram todos os esclarecimentos e apoiaram sempre que surgiram dúvidas ou
quando foi necessário avançar com algum projeto. Também iniciamos uma parceria interessante com o banco Millennium BCP, onde eles colocam à disposição dos associados MovAlmeirim um produto criado especialmente para o comércio e que poderá ser um balão de oxigénio para os negócios que estão já na linha de água ou, alguns deles, até abaixo dessa linha. Aqui será sempre a MovAlmeirim a encaminhar cada um dos seus associados.
Outra parceria que consideramos de muita importância, é a que estabelecemos com o jornal O Almeirinense e que também pode traduzir-se num grande apoio aos nossos associados, pois podem usufruir de um desconto em publicidade. E claro, não podemos deixar de referir que, em tempo de pandemia, por diversas vezes, tiveram a oportunidade de publicitar as suas atividades e lojas de forma completamente gratuita.
Outra parceria muito importante foi com o Município de Almeirim, que, entre outras, criou a oportunidade de todos os comerciantes poderem usufruir, de forma gratuita, da “BuyOnMov”, uma plataforma de vendas online que, tem demorado a crescer mas neste momento já começou a dar frutos.
Outra iniciativa importante, foi a criação dos vouchers “5 Vale o Dobro”, e que, diga-se em abono da verdade, veio
dar uma lufada de ar fresco pela altura do Natal. Também a isenção do pagamento de taxas e licenças de utilização de esplanadas e toldos, foi uma ótima ajuda. Tudo faremos para que estas parcerias se mantenham futuramente.
Depois temos outras parcerias com outras entidades que não só beneficiam o comércio, como também beneficiam toda a comunidade.

“Neste momento, as perspetivas de futuro em relação ao comércio são fracas e os comerciantes não arriscam em fazer futurologia”

As medidas de apoio do Estado às empresas foram suficientes? Há setores/áreas de atividade mais afetados ou desfavorecidos?
Não! Não! De todo. Não foram suficientes e pecam por tardias. Há muita gente com “a corda p`lo pescoço”. Alguns já não estavam bem, porque as anteriores crises também provocaram uma turbulência enorme no comércio. Agora esta crise económica que se abateu devido à COVID-19, veio arrasar com o resto. Quem já se estava a reerguer, vai se conseguindo safar, mas é urgente conseguirmos debelar a pandemia, para que consigamos voltar ao chamado “normal” e não será de um dia para o outro. Aqueles que ainda estavam a levantar-se das cinzas, tenho muito medo
que alguns fiquem pelo caminho. Isto vai afetar não só o comerciante que fica sem o seu trabalho. E como fica a sua
família? E os seus funcionários?
E isto é uma imensa bola de neve…Os apoios não chegam em quantidade, nem em tempo útil e às vezes nem sequer chegam, de forma a evitar estas catástrofes. Há setores mais desfavorecidos que outros. Estou a lembrar-me da restauração. A vender em take-away quem é que aguenta uma máquina que estava montada, como estavam os restaurantes e bares de Almeirim? E quantas pessoas em Almeirim trabalham na restauração? E os salões de cabeleireiro e estética? Esses tiveram que fechar completamente as portas. Como conseguiram sobreviver sem ganhar um cêntimo? Se assentarmos bem os pés no chão vimos que alguns setores estão mais prejudicados que outros, sem dúvida, mas a realidade é que desta pandemia saímos todos muito prejudicados.

Qual é, na sua opinião, o estado de espírito das pessoas, neste momento? A esperança mantém-se?
Valha-nos a esperança! Sim a esperança mantém-se. É sempre a última a morrer! Mas vejo muito desânimo. Vejo
tristeza e preocupação. Neste momento, as perspetivas de futuro em relação ao comércio são fracas e os comerciantes
não arriscam em fazer futurologia. É viver um dia de cada vez e continuar a apelar para que todos tenhamos consciência.
Esta crise económica que vivemos demorará menos tempo a recuperar se todos formos responsáveis. O vírus não é de fácil extinção e penso que vamos ter que aprender a viver com ele, no entanto a vacina, é óbvio que virá ajudar bastante, mas se não formos conscienciosos, demorará muito mais.

Ana Rita Amaro

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