José Salvador: “É fácil apontar erros”

José Salvador, apesar da temporada ainda não ter terminado, qual o balanço da época?
Após a paragem inesperada devido à Covid-19 ocorrida na parte final da época de 2019/2020, partimos em 2020/2021 para uma fase preliminar (liguilha) como outsiders e, num grupo de seis equipas, conseguimos ficar em 2.º lugar, assegurando assim a desejada permanência na 1.ª Divisão. Agora quando se desce de divisão o balanço nunca pode ser positivo mas foi o possível tendo em conta as condicionantes que atualmente existem.

O que falhou? Que explicações encontra para este insucesso?
Nestes momentos, é fácil apontar erros e dizer se falhou aqui ou ali. O importante é que todos nós temos que assumir as nossas responsabilidades. Em termos desportivos, um fator que pesou muito, foi não termos conseguido fazer mais pontos em jogos chave e do nosso campeonato. Formamos um projeto com a continuação do nosso treinador jovem e com uma grande ambição, com uma base de gente muito jovem e com muita qualidade para disputar na final dessa liguilha, a 2.ª ou a 1.ª Divisão, mas tendo sempre em conta um orçamento muito limitativo que temos e que é, claramente, o mais baixo de todos os clubes da 1.ª Divisão e até de alguns que competem na 2.ª Divisão.
Tal como disse anteriormente, estivemos novamente este ano no melhor campeonato do Mundo e, para que isso aconteça com mais regularidade, é necessário partir para orçamentos que mesmo em tempos normais sem Covid-19, terão de ser claramente superiores. Talvez esteja aqui a chave para explicar este sobe e desce constante a que o clube tem estado sujeito nos últimos anos. Sem termos uma maior envolvência financeira das nossas empresas, será num futuro próximo impossível atingir os sucessos recentes.
Vou dar um exemplo para perceberem do que falo. Ter no nosso concelho uma Empresa com a dimensão da Sumol/Compal que apresenta por exemplo no ano de 2019, um volume de negócios de cerca 300 milhões de euros e depois em termos concretos de apoio ao clube, ter sido retirado o seu apoio financeiro há muitos anos atrás, nem se digna já sequer ofertar quando são pedidos, uns meros sumos e águas para os nossos miúdos da formação, é bem demonstrativo desta situação.

Em que medida a Covid-19 afetou?
Todos nós temos a noção de quanto se torna atípica uma competição condicionada pela questão da covid-19. Com todas as restrições e limitações, foi-nos imposto regras para prosseguirmos a competição. Estivemos, por motivos alheios a nós, duas vezes confinados em termos de plantel/Staff e tivemos depois que reatar os treinos, com
todas as implicações que daí advém ainda por cima num plantel totalmente amador em que alguns jogadores estudam e outros trabalham. Tivemos, felizmente, apenas dois ou três casos positivos, mas tudo isto afeta a competição e acentua as diferenças entre as equipas, em que nalguns casos existe um total profissionalismo.
Para perceberem do que falo, a dado momento da pandemia, existiu a obrigatoriedade de se jogar de manhã. Tínhamos que nos deslocar nessa data a Barcelos. Só para terem uma ideia, existiram jogadores nossos que nesse dia se levantaram às 03:00 horas da manhã para seguir para Barcelos, onde jogámos às 11:00 horas dessa mesma manhã.

Com adeptos teria sido diferente? Quanto perdeu o clube com a pandemia?
Claro que sim, o jogo tem uma envolvência diferente com público e aqui não é exceção, até porque as gentes de Almeirim gostam de Hóquei e apoiam bastante a equipa com a nossa claque (Ultras Almeirim). Agora também temos de dizer que foi diferente para todos e que não nos podemos refugiar nisso para apontar o insucesso. A falta de
público, que no início se pensava ser temporária, veio a confirmar-se para já para toda a fase regular.
Em termos financeiros, podemos falar num decréscimo de receitas na ordem dos 20.000 euros. Esta foi a época mais difícil de gerir desde que estamos no clube. Num Concelho em que a restauração é um dos nossos pilares e tendo sido dos setores que mais tem sofrido com esta situação, torna tudo bem mais difícil, juntando ainda o facto de termos de jogar à porta fechada, com custos normais e sem receitas de bilheteira, onde os seus valores assumem para nós um papel significativo.
Com este decréscimo de receitas, iniciamos o projeto Tigres TV, que visa colmatar a falta de público, permitindo a todos os sócios/adeptos ver os nossos jogos nas suas casas e, ao mesmo tempo, potenciar aquelas empresas que, apesar das dificuldades, continuam a apostar em nós. Quero aproveitar a ocasião para agradecer o trabalho de todos os intervenientes neste projeto pelo seu empenho e ajuda.

“(…) e qual o valor do orçamento que poderemos ter até porque parece que a pandemia não acabará tão depressa como todos desejamos”

Mas da autarquia não houve reduções?
A autarquia tem sido um pilar muito importante neste projeto. Muito do que se consegue no Concelho em termos de grandes feitos desportivos e não só do HC Os Tigres, deve-se em grande parte ao apoio autárquico. Gostaríamos de ter mais apoios autárquicos? Claro que sim. Sabemos que existem outros clubes vizinhos que competem
connosco e que têm mais apoios dessas autarquias? Sim, mas sabemos também das limitações e dotações existentes.
Posso-vos dizer que mais importante que tudo isso para nós, por exemplo, é o facto de não termos uma sede própria, onde poderíamos receber na nossa casa, os nossos sócios e guardar condignamente a nossa história que é bem vasta.

O treinador André Luís não evitou a descida

E agora? O que será do clube?
Um Clube como o H.C. Os Tigres, com quase 50 anos de vida, tem um passado e uma História que nunca se apagará. A vida seguirá e o seu futuro deverá ser sempre pautado pela honradez/honestidade de quem tem o privilégio de dirigir os seus destinos. Agora também tenho de confessar que ficamos tristes quando vemos um clube que tinha acabado de subir à 1.ª Divisão e saneado financeiramente, em que tem uma reunião magna como é a sua Assembleia Geral, cerca de 15 sócios presentes e sem que exista uma Direção que queira pegar nos seus destinos.
O Clube precisa da intervenção de todos os sócios e é, nesses locais, que estes se devem apresentar e manifestar. Aqui deixem-nos apontar uma crítica às gentes de Almeirim, por muitas das vezes não terem uma maior capacidade de se aglutinar e onde se revela uma clara falta de bairrismo. Basta olharmos, por exemplo, para clubes bem próximos de nós como são por exemplo, o Turquel, em que uma aldeia pequena se agiganta em torno de um objetivo comum.

O treinador e jogadores vão continuar para a segunda divisão?
Como sabem, no último fim-de-semana, matematicamente falando, infelizmente acabamos de descer para a 2.ª divisão. Existe uma clara intenção de preparar já a próxima época e temos estado a trabalhar nisso. Temos de saber com o que contamos a nível desportivo e qual o valor do orçamento que poderemos ter até porque parece que a pandemia não acabará tão depressa como todos desejamos. Agora a questão primordial passa por assegurar em AG a definição de quem irá gerir os destinos do clube.

“Toda a estrutura federativa e associativa parece que se esqueceu da formação e apenas se preocupa com a retoma do escalão sénior”

Em termos financeiros, como está o clube?
Como já referi anteriormente, este foi para nós o pior e mais desgastante ano desportivo, começamos muito cedo a trabalhar para participar na fase preliminar e ao longo da época, a incerteza devido à pandemia tem sido diária e tem provocado enormes problemas de tesouraria. Temos tido alguns revés no que toca a apoios das empresas que estão a sofrer com a pandemia. Por isso temos sentido alguma dificuldade em cumprir atempadamente todos os nossos
compromissos e lutamos diariamente para os concretizar.

No meio disto, o que fez a formação? Acredita que este plano de retoma dará para ter treinos e competição dos mais jovens? Teme que alguns jovens já não voltem?
Este sim tem sido o parente pobre desta história. Toda a estrutura federativa e associativa parece que se esqueceu da formação e apenas se preocupou com a retoma do escalão sénior. Sabemos que não é fácil assumir a retoma dos miúdos e o que tudo isso implica em termos de possível contágio. Mas vermos os nossos miúdos da formação
tanto do hóquei como da patinagem agora parados e mesmo quando treinavam aos soluços sem qualquer tipo de incentivo/estímulo competitivo, nalguns casos mesmo a desistir da sua prática, faz-nos ver que se, nada for feito rapidamente na base, caminhamos a passos largos para o abismo e não sentimos modo de conseguir evitar lá cair. Mesmo sem a pandemia este já era um problema grave e transversal a todos os clubes. Este ano tínhamos planeado ter um projeto de captação de miúdos através das escolas com um atleta nosso nas Atividades de Enriquecimento Curricular e, para isso, fizemos um forte investimento, que foi todo por água abaixo devido à pandemia e às suas restrições. De uma coisa temos a clara certeza, se nada for feito ainda no final desta época e aproveitando o plano de
retoma, iremos continuar não só a deixar de captar novos atletas, bem como a perder ainda mais dos poucos que já restam. Temos alguns projetos para essa área com concretização a curto prazo e que, caso as autoridades de Saúde nos deixem avançar, poderão atenuar este problema.

Está disponível para continuar na liderança da comissão administrativa?
Antes de mais uma palavra de agradecimento ao jornal Almeirinense pela oportunidade dada e no interesse demonstrado em partilharmos publicamente a vida do Clube, mesmo que isso aconteça em momento mais difícil.
Em jeito de balanço final devo-vos dizer que, no preciso momento em que falámos, estou a atravessar uma fase particularmente difícil na minha vida pessoal, por problemas de saúde. Independentemente da decisão que eu vier a tomar a título pessoal, ela assentará sempre em sentir que o trabalho que toda a comissão administrativa planeia e realiza tem viabilidade e que no final de cada ciclo, existe uma clara melhoria e reconhecimento devido de todas as forças vivas, a um Clube que, por vezes, é desvalorizado por muitos e que leva bem longe o nome de Almeirim pelo País inteiro e divulga as nossas marcas, onde a Sopa da Pedra é o seu ex libris.
A nível pessoal, se eu sentir que não existe essa envolvência total dessas forças vivas, sejam elas: autarquia, empresas, comunicação social, sócios, adeptos do clube e de toda a população em geral, não continuarei nas minhas funções, saindo de consciência totalmente tranquila e de ter feito tudo o que era humanamente possível para melhorar o clube. Agora, seja qual for a decisão, e falo por mim, serei sempre um Tigre e mesmo que decida sair, continuarei sempre pronto e presente para ajudar o Clube.

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