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Opinião

Viagem no tempo

Por: Inês Ribeiro 01 de janeiro, 2026 2 minutos de leitura

O inverno chegava… as cheias eram a delícia da pequenada e dos adultos (alguns). Não havia escola por vezes e lá íamos para a pontinha ver os barcos e o nosso amigo Molha-Pão que carregava as pessoas para o barco e/ou os tirava! Almeirim parava e ali bem perto na Praça da República o povo se juntava na conversa ou mesmo aquecendo as mãos por vezes num bidom que se encontrava a arder com lenha. O Armando Peitaço, Ramiro Bixezas, Zé Júlio, Tonho Papão, o Rita, exímios engraxadores que com destreza batiam com as escovas no chão e faziam rodopiar no ar e.… zás, poliam ali os sapatos com dignidade a troco de vinte e cinco tostões… o Alfredo Rapa, Zé Clara, Alfredo do Café, Cabral da Farmácia, acredite ou não em simpatia eram o máximo, nunca os vi sorrir. E para lembrar a barbearia do Zé Carvalho, onde um dia saiu de lá um bilhete premiado da lotaria…nunca vi tanta gente nesse dia Chico Boavida das bombas da gasolina só nesse dia ia despejando os depósitos, já não falando do Mestre Jaime em que mesmo no inverno a cerveja foi toda, o Afonso do Café, que recordo a sua filha artista, Belita Azevedo que bem cantava… até a ouvíamos na Rádio Ribatejo.

Ao fundo da rua, a Pensão do Pinhão, uma das mais antigas de Almeirim, junto ao Fernando dos Pneus, vindo da paragem da Ribatejana lá aperecia uma silhueta que todos gostavam de meter a unha… o Baliza com o seu carrinho lá levava as encomendas aos clientes, este sempre com uma dama inesquecivel a acompanhar, a ”Saudosa Vizinha”, a qual tinha uma paixão asselimbantada* pelo meu pai “o meu Heldro dos carres de praça”, o Jaquim Cabaço, com os chinelos a dar a dar e o boné com a pala bem esticada para o ar. E quando se metiam com ele? Bem gritante ele respondia com uma varina “E atão na tedá já uma baceira… na te dá uma traçã das piores que sejam” … e o inconfundível som da corneta que o Badé que apitava na venda do peixe.

E na recolha… já na recolha de coisas velhas, lá aparecia o Sr. Tonho dos Trabalhinhos com a sua saca às costas lá comprava as peles de coelho e qualquer coisa velha e seguia para o seu barraco lá para a Rua das Ribeiras. O Pitrolino, sempre me admirou como uma carroça bem equipada vendia de tudo. Também era alvo de sucesso a Camila… “É branco ou tinto?” Esta história verdadeira serve para si, leitor… concluir que o pitrol* também se bebia.

Os Homens dos Carros de Praça não poderão aqui ser esquecidos. Por um lado, eram eles que nas horas de aflição e não só faziam de bombeiros, de ambulância, de polícias e até de padres, muitos confiaram a eles segredos… que talvez nem a própria PIDE veio a saber. Recordo um dia o meu pai Helder ter chegado a casa todo zangado, porque tinha nascido dentro do carro uma criança. Estava tudo sujo como podem imaginar… só à sua conta, nos carros que ele possuiu, nasceram 6 bébés.

O mais castiço era o Pardal Esquiado. Um dia na Nazaré com um casal de clientes, o marido perdeu-se da mulher e através dos altifalantes da sonorização da capitania, a fim de o encontrar, a mulher pediu para que este viesse para o porto de abrigo onde ela se encontrava, com o “Pardal Esquiado”. Quem não sabia da alcunha ficou com uma boa impressão da dita senhora.

Havia também o António Henriques “Penca”, o Zé Xamorro, o Simão e o Emídio Barrão. Eram eles os heróis em tudo em Almeirim. Sabiam as ruas de cor e os nomes das pessoas todas… até demais.

A D. Anica das Castanhas na esquina do Alfredo Rapa vendia a dúzia a 10 tostões. Matou-me a fome de lanche muitas vezes e, mais acima, quem não se lembra de uma Senhora com os dinheiros pretos e, porquê? Era a D. Rita Pirua a vender os tremoços, tremoços e pevides a dois tostões e cinco tostões cada saquinho; a tasca do Zé das Cabras e não esquecendo uma senhora que criava com o seu negócio, riquezas imaginárias. Tinha o seu defeito… do copito… era a D. Olívia Cauteleira…. Vamos iniciar uma viagem no tempo??. Com alguma mágoa tenho que recordar quem era rico e quem era pobre… lembro a Sopa dos Pobres (hoje edificio da Câmara), onde muitos pobres naquelas mesas frias de mármore comiam por esmola, um prato de feijão com couve e por vezes um copo de água e um naco de pão. E para tomar um banho? Cinco tostões ou dez tostões, bem ali ao lado nos Bombeiros ofereciam essa benesse… eu fui um deles.

Miséria todo o ano era descrita e apontada, mas quando chegava o Natal todos os corações estavam abertos a iniciativas. Fazer e dar pelos pobres. Por isso mesmo, as dificuldades também existiram para o meu lado…

E já que estou a descrever o passado, aqui vai…

Começamos pela Rua dos Aliados… depois das casas da Vasca, oliveiras limitavam um circuito invejável de altos e baixos onde nós com as bicicletas chocolateiras da altura nos deliciávamos a andar porque aquilo parecia o carrocel e ao fundo, por detrás dos celeiros, o folhedo colocado para secar pelos fazendeiros fazia de piso para as tradicionais jogatanas de futebol entre a Tróia e o Pupo ou Nitreira e Poupas e, como era habitual, acabava aos 10 e mudava-se aos 5 e, se corria mal, o jogo era acabado à porrada que, como se dizia, até chagava. As atiradeiras eram as armas mais convencionais de ataque e de defesa.

O Pupo ali ao lado onde novos e velhos ao Domingo se entregavam no “Jogo do Bixo” * e uma jogatana de cartas ou mesmo uma fogueira de cepa e assar uma xoriça* ou um bocado de toicinho* e outros petiscos. Parte das ruas não eram alcatroadas e as poças de água serviam muitas vezes de piscinas e locais para xafurdar*, para a bincadeira. Outros locais como a Tróia, Fonte dos Namorados, etc., seguiam o quotidiano na altura.

Namorar só à quinta-feira. Ela à janela e ele cá fora com frio. Todas as promessas de amor eram feitas para aquecer, mas, nada feito…

O pão vendido de bicicleta porta à porta pelo Borges e Zé Maria, o Filipe, o leite, nas quartas-feiras e vendido a metade de meio litro ou quartinho. Era assim o dia-a-dia ou, nesse caso, rente à noitinha depois da ordenha e irem à analse* para verem se este tava em orde*… e ficava-se a dever e pagava-se no final da semana. Uma quarta de café ou manteiga embrulhada no papel vegetal e depois no papel pardo e só então era pesado, já não falando nos papeluços onde o fundo dos mesmos era colado com cimento, para que o homem da loja ganhasse mais algum… (a ASAE esteve lá?) E claro, o Jaquim* da Loja, o Zé Moreno e tantos deixaram para os descendentes todo o esforço de uma vida… de esperteza… e riqueza Bem hajam… ainda hoje há quem os recorde. A família? Tenho dúvidas.

Escolas velhas… o início para já em setembro/outubro. Junto à Igreja, Salavessas, Reguinga, Cabaço, Aida, Diniz, Ravasco, etc. Digníssimos Professores que não poderão esquecer. Reguadas, canadas e orelhas de burro virados para a janela para escárnio dos que passavam, os males vestidos e coitados descriminados de tal forma que recordo o Ernesto com a sua deficiência era e foi posto na última carteira e lá ficava. Hoje ainda o poderemos ver em frente aos celeiros velhos… continuando…. Só a sineta era bem desejada para o intervalo ou para a saída. No largo ali em frente, o jogo do peão, os berlindes (com.… altes, com.… vissas, sim nada, sim nada*). Era assim que gritávamos para não haver batota. Jogar às uvas toquifoge*, à bandeira… além de brigas entre elementos do Pupo e outros da Tróia por causa dos botões que no jogo da malha valiam 12 dúzias e afinal ao bater nos dentes os botões não valiam isso, logo eram arrancadados das portilholas das calças para pagar. Quantas vezes muitos foram para casa sem os respectivos botões. Ali ao lado as meninas saltavam à corda, ao lenço, ou algumas já faziam olhinhos aos mais velhos da 4.ª classe. Existiam génios no fabrico de carros de cana com arame, os papagaios de papel. Eu mesmo com 7 anos via criatividade…

A D. Maria dos Anjos, na esquina onde morava o Sr. Mendonça da Farmácia lá tinha os xupas de açucar e mel enrolados em papelinhos de várias cores a um tostão e a dois tostões… para quem podia. Ali bem perto, a praça onde as arrefadas e as pombinhas eram por vezes o almoço de muitos. Também nesse lugar se encontrava uma personagem sempre bem-humorada… o Sr. Arnaldo da papelaria. A semana terminava muitas vezes com a visita da biblioteca itenerante onde os livros do pinoquio, gato das botas, etc., nos iria deliciar nos fins-de-semana.

O Domingo aparecia, lá iamos à missa das 10. Para nós crianças (até isso acabou), éramos deliciados com o final da dita missa com a passagem de filmes do Charlot no salão por detrás da Igreja e claro, a D. Maria Prudêncio Silva Santos tomava conta de nós, meninas para um lado e nós para o outro, e lá íamos para casa todos contentes, pobretes e alegretes. Á hora do almoço, como era Domingo, muitas vezes havia um miminho. Uma galinha corada, um pato, um bife. e como ainda se diz… e poupa, e é se queres!


Crónica, por Augusto Gil

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