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Opinião

MEMÓRIAS E CURIOSIDADES DE UM DESAPARECIDO IMPÉRIO: 26. Ceilão: os portugueses e o reino de Kotte

Por: Inês Ribeiro 15 de junho, 2026 10 minutos de leitura

Depois de já termos abordado, em edições anteriores, alguns arquipélagos do Oceano Índico que foram domínios portugueses, antes de referirmos a outros territórios, agora na Península Indostânica após a chegada de Vasco da Gama à Índia em 1498 (só na costa Ocidental Indostânica foram mais de 20), finalizemos com mais uma ilha no Índico, a de Ceilão (a Taprobana referida por Camões no seu “Lusíadas”, hoje Siri-Lanka) que foi possessão portuguesa durante 153 anos, de 1505 a 1658. Estrategicamente era um ponto importante pois daqui podia controlar-se a navegação entre as duas metades daquele Oceano. Os portugueses esboçaram um plano para a conquista da ilha como um todo, pelo que após a sua chegada não se limitaram a feitorias costeiras, mas na construção de grandes fortalezas em pedra e cal por toda a ilha, calculando-se em cerca de meia centena, incluindo pequenos fortes e tranqueiras, muitas em estrutura de terra compactada e madeira. Se toda a ilha fosse dominada por inteiro, poderia ter mudado o destino de Portugal na Ásia. 

Vejamos como foi o início da presença portuguesa em Ceilão. D. Lourenço de Almeida, Capitão-Mor do Mar da Índia, chegou à ilha em 1505 e encontrou-a dividida em vários reinos, sendo os três mais poderosos: Kotte, Candia e Jafanapatão. Impressionados pela posição estratégica da baía natural, os portugueses assinam um tratado com o Rei de Kotte, que recebeu os portugueses favoravelmente, impressionado com o seu potencial militar e comercial. O rei concordou em estabelecer relações comerciais, o que incluiu o pagamento de um tributo a Portugal, marcando o início da suserania europeia na ilha. A partir deste período os portugueses dedicam-se a conquistar os reinos circundantes, principalmente o Reino de Candia, situado nas altas montanhas e o de Jafanapatão a Norte. A relação entre os portugueses e o Reino de Candia foi marcada por um século e meio de intensos confrontos militares, alianças políticas e resistência. Candia, localizado nas montanhas centrais e isolado estrategicamente, recusou-se a aceitar a hegemonia e o domínio católico que Portugal exercia no litoral da ilha. Quanto ao Reino de Jafanapatão, os portugueses começam por ocupar em 1540 a pequena ilha de Manar pertencente a este reino, ao Norte, e em 1591, as forças de André Furtado de Mendonça invadem o reino, e instalam um governo vassalo. 

Hoje abordarei apenas alguns detalhes do relacionamento entre os portugueses e o Reino de Kotte, ao longo de mais de 150 anos.

Quando Lourenço de Almeida desembarcou na ilha, estabelecendo o primeiro contato com o povo de Ceilão, era rei de Kotte Dharmaparakrama Bahu IX, que concorda em pagar ao rei de Portugal um tributo anual em canela, em troca de proteção militar. Sucede-lhe seu filho Vijayabahu VII em 1513. O seu reinado terminou abruptamente em 1521 após uma conspiração onde foi assassinado pelos seus três filhos, que dividiram o território entre si. Após a divisão do reino assumiu o trono de Kotte Bhuvanaikabahu VII (1521–1551). Este aliou-se firmemente aos portugueses para proteger o seu poder contra o seu irmão, Mayadunne (que governava o reino rival de Sitawaka). Em 1533 Kotte melhora o tratado da transação da canela com Portugal, acrescentando-lhe pedras preciosas e o envio anual de 10 elefantes. Os portugueses usaram estes animais como máquinas de guerra, para carga, transporte de artilharia pesada ou como valiosos presentes diplomáticos para estreitar relações com outras cortes europeias e figuras de poder. Porque considerados símbolos de máximo prestígio, um deles, o elefante branco chamado de Hano, foi enviado de Kotte para Lisboa e depois oferecido em Roma pelos portugueses ao Papa Leão X, causando enorme sensação. Outros eram exportados e vendidos pelos portugueses no Estado da Índia, onde os monarcas indianos os valorizavam imensamente tanto para a guerra como para cortejos cerimoniais. Através da aliança com os portugueses, e temendo o seu derrube por Sitawaka, Bhuvanaikabahu VII conseguiu que o seu neto fosse reconhecido pelos portugueses como herdeiro. Para o efeito enviou para Lisboa, a D. João III, uma embaixada que transportou uma estátua em ouro do seu neto Dharmapala, solicitando que o coroasse em detrimento de todos os outros herdeiros. Assim o fez D. João III, após o que dita a Carta de Alvará (1543) entregue ao ministro de Kotte, Sri Ramaraxa Panditer, que trouxera a estátua a Lisboa: “Fazemos saber que, por parte do Rei de Cota, nos foi apresentada a imagem de seu neto Princepo Dharmapala (…). Pelo que, em nossa Corte e com a solenidade devida, houvemos por bem coroar e declarar o dito Princepo como legítimo sucessor, prometendo-lhe favor, ajuda e defensão contra quem quer que lha queira impedir”. O príncipe Dharmapala educado pelos frades franciscanos, inicia o seu governo em 1551, converte-se ao catolicismo e adota o nome cristão de D. João Dharmapala (homenageando com nome próprio D. João III). Sua esposa batizou-se com o nome de Catarina, tal qual a rainha de Portugal. 

A cristianização da corte teve um efeito cascata, com vários nobres e líderes de Cota seguindo o exemplo do rei e convertendo-se ao cristianismo. Doze igrejas foram construídas por padres franciscanos e o catolicismo começou a se espalhar, embora com significativa resistência dos monges budistas e da população em geral que se mudava para o rival reino de Sitawaka, alimentando o anseio do rei Mayadune em unificar a ilha e expulsar os estrangeiros, ameaçando a supremacia de Kotte e a influência portuguesa na região. 

O momento mais crítico para os portugueses ocorreu na famosa batalha de Mulleriyawa, travada em 1559, e liderada pelo príncipe Tikiri Bandara (filho do rei Mayadunne), que mais tarde assumiria o trono como o temido rei Rajasinghe I. Nesta batalha o reino de Sitawaka obteve uma vitória esmagadora sobre as forças portuguesas e guerreiros nativos aliados, os laskarins. O confronto ocorreu nos pântanos de Mulleriyawa, perto de Colombo, e foi uma das maiores e mais severas derrotas sofridas por um exército europeu na Ásia. As forças portuguesas, sob o comando de Jorge de Menezes, foram inicialmente vitoriosas ao avançar pela região, mas acabaram cercadas e empurradas para os pântanos locais devido às manobras táticas do príncipe. Este utilizou de forma devastadora os elefantes de guerra, destacando-se nas crónicas da batalha dois destes animais, em particular o Airavana e o Viridudassaya. A tática combinada de choque e o uso de armamento adaptado ao terreno foram os fatores decisivos nesta batalha pois conseguiu neutralizar a superioridade do fogo português. Os elefantes, quais escudos vivos contra pólvora, avançaram na vanguarda para absorver e quebrar a linha de tiro dos arcabuzes e mosquetes portugueses. Estes traziam lâminas afiadas ou adagas atadas nos dentes e pesadas correntes e barras de ferro presas às trombas para despedaçar as fileiras inimigas, enquanto inúmeros guizos presos nas patas provocavam um barulho ensurdedor. Logo atrás e sob a cobertura física dos elefantes vinha a infantaria leve, os “Illangam”, utilizadores de espadas curtas e escudos, ou de arcos e flechas incendiárias ou ainda do “ethunu kaduwa” a espada-chicote, composta por várias lâminas de aço flexíveis, ideal para combates contra múltiplos adversários, pois podia contornar os escudos de madeira portugueses e atingir as zonas desprotegidas atrás dos joelhos e cotovelos dos soldados protegidos por pesadas armaduras de placas e cotas de malha, esta uma série de entrelaçamentos de centenas de pequenas argolas de metal. Se estas ofereciam excelente proteção contra flechas e cortes, tornaram-se uma armadilha mortal, fazendo com que as forças portuguesas se afundassem na lama pesada do pântano e ficassem exaustos rapidamente. Por último vinham os “angampona” guerreiros exímios na arte marcial tradicional “angampora”, focada no combate corpo a corpo. Tudo isto impediu os portugueses de terem tempo ou espaço para recarregar as suas armas de fogo. O pânico gerado pelos elefantes quebraria a formação quadrada (terço) europeia. Os locais flanqueando o exército português pelos pântanos e florestas, bloquearam a retirada derrubando árvores. Os portugueses com as suas armas de fogo de mecha, embora letais, revelaram-se inúteis porque lentas a recarregar sob a chuva e a humidade do pântano, facilitando a aproximação das forças nativas. Por último a humilhação final: o elefante Viridudassaya não só contribuiu para esmagar as linhas inimigas, como capturar o próprio estandarte português. Fontes do Sri Lanka (a crónica Rajavaliya) afirma que cerca de 1.600 homens pertencentes ao exército português e nativos aliados foram completamente aniquilados, sobrevivendo apenas cerca de 30 homens, entre os quais o capitão-mor Jorge de Menezes.

A derrota travou temporariamente a expansão de Portugal na ilha, elevando Sitawaka ao estatuto de principal potência militar da região e forçando os portugueses e o aliado Rei Dom João Dharmapala em 1565, a recuar para posições defensivas fortificadas na cidade costeira de Colombo, sob o comando de Pedro de Ataíde Inferno. Este abandono de Kotte por parte do rei Dharmapala, causou uma profunda rutura identitária, cultural e religiosa na população cingalesa, pois ao abandonar a sua capital histórica para viver sob a proteção direta das muralhas portuguesas, o rei perdia a legitimidade tradicional perante o seu povo. 

D. João Dharmapala não teve herdeiros diretos, pelo que, em 1580 fez um testamento doando os seus domínios ao rei D. Henrique de Portugal (e mais tarde ratificado a favor de Filipe I de Portugal). Em 1593, após a morte do rei Rajasinghe I, o reino de Sitawaka entrou em colapso repentino. Com a morte do monarca e deserções de generais, os portugueses aproveitaram o vazio de poder para invadir e anexar todo o território de Sitawaka entre 1593 e 1594. Em 1597, vem a falecer D. João Dharmapala, pelo que dois dias após a sua morte, D. Jerónimo de Azevedo, Capitão Geral de Ceilão, ao saber do testamento deixado pelo defunto rei, chamou os principais da Corte e em nome do rei de Portugal prometeu guardar para todo o sempre as suas leis e costumes, após o que lhes impôs o juramento solene de fidelidade à Coroa portuguesa, sendo Filipe I de Portugal aclamado Rei de Ceilão. 

A 11 de Maio de 1656 perdia-se a fortaleza de Colombo para os holandeses. O cerco durou quase sete meses e foi assombrosa a resistência, sob o comando de António Sousa Coutinho. Sem rotas de abastecimento, a população e os soldados portugueses foram reduzidos à fome extrema, consumindo cavalos, cães e o que restasse, enquanto a peste assolava o interior das muralhas. Pela assombrosa resistência, os sitiantes comandados pelo governador Adrian van der Meyden, concederam a 11 de maio de 1656 aos vencidos, todas as honras de guerra. Terminava a soberania portuguesa após 138 anos de presença.

(Bibgª: Diogo do Couto, João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda, Gaspar Correia, Paul E. Eris, Fernao Queyroz, António Vasconcelos Saldanha, Frei Paulo de Trindade).

Opinião, por Cândido de Azevedo

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