Manuela Cunha, figura incontornável da política almeirinense e dos Verdes, fala da infância na Rua do Pinhal, da emigração para França, das lutas ambientais que travou em Almeirim e de uma vida construída entre a militância e a memória da sua terra.
Comecemos pelo início da sua história: nasceu mesmo num escritório? Pode explicar esse episódio?
Sim, é uma história que sempre me ficou a roer. Quando estava previsto eu nascer, a parteira já estava em casa e o médico da família também ia acompanhar o parto. Mas eu fui um bocadinho apressada e já tinha nascido. O que é engraçado é que nasci num escritório da casa da minha avó, não num quarto. Durante anos, questionei-me: porquê num escritório? Só há relativamente pouco tempo percebi, através de uma prima, que a minha avó mandava sempre montar uma cama no escritório quando uma das filhas ia dar à luz em casa. Suponho que, na época, era fácil uma mãe ou uma criança falecer no parto, e ela talvez não quisesse que isso acontecesse no quarto onde dormiam, para que a vida pudesse continuar mais normalmente. E então nascíamos no escritório. Costumamos dizer, na brincadeira, que as crianças daquela casa nascem logo prontas para trabalhar.
Passou os primeiros anos da sua vida na Rua do Pinhal. Essa casa ainda existe?
Sim, e gosto muito de lá passar. Essa casa foi construída pelo meu avô a tempo da minha mãe lá nascer, foi a primeira dos cinco filhos a nascer naquela casa. Depois, vieram vários netos. Era um ponto de encontro, o meu avô era um homem muito social, muito convivial e a minha avó era uma mulher bastante culta. Nunca a vi fazer limpeza, mas sempre a vi ler o jornal até morrer. E o rancho de Almeirim ia lá para ela transcrever letras de canções que não estavam escritas, era transmissão oral. Há imensas fotos das festas de Almeirim, dos teatros, das marchas. Um arquivo familiar rico, que agora, com algumas primas, tentamos organizar e identificar.
O seu avô chegou a ter o primeiro cinema de Almeirim, não é verdade?
Sim, era um barracão numa rua que depois foi a antiga rua da GNR, perto do atual infantário municipal, do outro lado da rua, ao pé da antiga sede do clube de Almeirim. Foi lá que se projetaram em Almeirim, muito antes do cineteatro, os primeiros filmes. As pessoas pagavam. A minha mãe, em pequenina, viu gratuitamente todos os clássicos, o Ben-Hur, o Tarzan, entre outros. Tornou-se uma cinéfila de primeira. Depois, em França, íamos todos os domingos ao cinema, ela e um dos meus irmãos mais velhos, porque o meu pai preferia ir caminhar.
Quando é que vai viver para França?
Depois de uma breve passagem por Santarém, os meus pais foram primeiro para organizar a vida, procurar casa, e depois levaram-nos. Fui viver para Ivry-sur-Seine, um município junto a Paris, a primeira câmara comunista de França. Era uma terra que dedicava uma atenção extraordinária aos jovens e às crianças. Fiz esqui, aprendi a navegar à vela, ouvia conferências mensais sobre vulcanologia, com um dos maiores vulcanólogos da época, foi daí que me ficou uma paixão pelos vulcões que ainda hoje tenho. No ano passado, fui trepar o vulcão da Ilha do Fogo, a 1800 metros de altitude. A câmara proporcionava concertos de música sinfónica para todas as escolas primárias, onde aprendíamos a conhecer os instrumentos e os clássicos. Tudo a preços consoante o salário dos pais. Cresci a fazer comparações: em Portugal estávamos em ditadura, em França vivia-se em democracia. Isso formatou a mulher que sou.
A sua mãe tinha uma loja em Almeirim antes de emigrar, quer contar-nos essa história?
Era uma loja de louças, a única naquela época. Ainda hoje encontro pessoas que me dizem que têm em casa um serviço da loja da minha mãe ou uma frigideira. Eram materiais que duravam uma vida, ao contrário do que se faz hoje. E tem uma história com muita ligação à política, o meu pai emprestou um armazém da loja como sede de campanha do general Humberto Delgado, em Almeirim. Sempre foi um homem de esquerda, de família republicana.
Esses fatores marcaram-na politicamente desde cedo?
Desde que me conheço que tenho o coração à esquerda. Talvez de família, do ambiente onde cresci, onde a justiça social era algo muito presente. A minha avó ouvia Rádio Moscovo em casa e avisava-me para não contar a ninguém que punha um copo de água em cima da rádio, diziam que isso impedia os carros da PIDE de detetar as ondas de emissão. Eu era pequenina e estava avisada para guardar segredo. Depois, em França, apanhei toda uma geração marcada pela guerra do Vietnam, participei nos movimentos estudantis, fui ativista contra a proliferação de centrais nucleares. Venho para Portugal já com esse passado ecologista.
Regressa a Portugal em 1980. Como foi a adaptação?
Regressei com 24 anos, já com formação em animação sociocultural e em letras pela Sorbonne University, onde estudei Português, Literatura Portuguesa e História de Portugal, uma forma de manter viva a ligação à língua e à cultura que os meus pais sempre preservaram. Tentei ingressar na faculdade cá, mas havia imensos problemas com equivalências, que só se resolveram com o processo de Bolonha. Acabei por não voltar a estudar e fui trabalhar para o Barreiro, onde coordenei projetos de tempos livres num meio operário muito parecido com aquele onde tinha trabalhado em Paris. Em 1985, regressei a Almeirim.
E foi aí que começou o envolvimento com o PEV?
Quando vim para Portugal já trazia um passado ecologista comigo. Os Verdes tinham sido criados em 1982 e eu tive contacto com eles ainda no Barreiro. Quando regressei a Almeirim, comecei a dinamizar o núcleo do distrito de Santarém e fui candidata, pela primeira vez, em 86 ou 87. Depois fui chamada a integrar o grupo parlamentar e acompanhei os deputados ao longo de vários mandatos, sobretudo, nos dossiês ambientais (ferrovia, barragens, ordenamento do território, entre outros). Ainda hoje faço parte da Comissão Executiva Nacional, com mandato até 2027.
Quais foram as batalhas mais marcantes aqui em Almeirim?
Foram várias. A luta contra um aterro de resíduos industriais perto da barragem dos Gagos, que acabou por ir para a Chamusca porque as condições aqui eram inaceitáveis. A luta pelo traçado da atual autoestrada, que inicialmente, cortava os Foros de Benfica e destruía casas que tinham acabado de ser construídas, conseguimos que o traçado fosse desviado. E a questão da vala de Almeirim, que foi, muitas vezes, à Assembleia da República. Os últimos fundos para a limpeza da vala vieram de um acordo no quadro de um governo que muitos chamaram de Geringonça, que negociámos para erradicar espécies invasoras como o jacinto-de-água.
Trabalhou com dois presidentes de câmara muito diferentes, Sousa Gomes e Pedro Ribeiro. Como os distingue?
São matérias muito diferentes. Com o Sousa Gomes tínhamos grandes divergências sobre o modelo de desenvolvimento para Almeirim, ele achava que desenvolvimento passava por prédios altos e muita construção, eu não concordava. Mas era alguém que sabia ouvir. Nas reuniões privadas de câmara chegava a dizer ao Pedro Ribeiro para se calar e deixar-me falar. E tinha a inteligência de aproveitar boas propostas, mesmo que depois não as atribuísse a quem as fez. As ciclovias em Almeirim, por exemplo, foram uma proposta dos Verdes aprovada em reunião de câmara, o Sousa Gomes deixou passar o tempo e depois construiu. O Pedro Ribeiro é outra matéria. Para mim, não gosta de Almeirim, gosta de si próprio e do poder. Não tem visão estratégica para o concelho e não admite propostas de ninguém nem tolera opiniões divergentes. É curioso vê-lo agora como vereador da oposição em Santarém, quando nunca permitiu uma única voz de oposição quando governava.
Como olha para o presente e o futuro de Almeirim?
Foi uma pena para o Município de Almeirim a CDU ter perdido o seu vereador nas últimas autárquicas. A nossa presença teria feito diferença no acompanhamento da gestão. O atual executivo herdou um PDM que não construiu e que tem erros graves, referências ao concelho de Santarém em vez de Almeirim, a localização do cemitério trocada com a da herdade, a menção a moinhos de maré quando não temos mar. Os Verdes entregaram oito páginas de contributos na discussão pública, mas lamentamos que o processo não tenha sido mais amplamente discutido pela população. Há questões importantes sobre o futuro do território, habitação, fixação de jovens, crescimento urbano, que mereciam um debate mais alargado. E temo que o futuro não seja fácil, nem para o mundo nem para Almeirim.





