Aos 40 anos, Pedro Russo decidiu trocar a estabilidade de um emprego pela agricultura. Filho de agricultores, cresceu entre tratores, vinhas e campos de melão. Hoje aposta na produção e venda direta de melões, meloas e melancias em Almeirim, procurando recuperar uma tradição antiga do concelho. Fala dos desafios da agricultura, das características únicas das terras almeirinenses e da importância de oferecer fruta de qualidade ao consumidor.
Como surgiu esta ligação à agricultura?
Sou filho de agricultores. Desde muito novo que ando ligado ao campo. Com cerca de 10 anos já conduzia tratores. Os meus pais produziam melões em grande escala e eu passava muito tempo com eles.
Mais tarde decidi despedir-me do trabalho que tinha e dedicar-me à agricultura.
Trabalhava em que área?
Trabalhava na indústria. Entretanto surgiu a ideia de apostar nos melões, meloas e melancias e avançar com este projeto.
Porque decidiu trocar a vinha por estas culturas?
Porque a vinha é uma cultura muito comum em Almeirim. Praticamente toda a gente tem vinha.
Já os melões e as melancias são menos frequentes e sempre foi uma cultura que me despertou interesse. Em criança era isso que via os meus pais fazerem e achei que seria uma boa oportunidade para aprender enquanto ainda posso aproveitar os conhecimentos deles.
O que têm as terras de Almeirim de especial para este tipo de produção?
O segredo está muito no pH da terra. As terras de Almeirim são muito boas para estas culturas e isso reflete-se na qualidade da fruta.
Porque decidiu vender diretamente na estrada?
Tem muito a ver com a localização. Estou à entrada de Almeirim e achei que fazia sentido aproveitar isso.
Quando fiquei com esta terra percebi que não queria colocar aqui vinha. A vinha pode ser plantada praticamente em qualquer lado, mas este local tem um sol excelente e características muito boas para os melões, meloas e melancias.
Tem recebido clientes de fora da região?
Sim, bastantes. Já vieram pessoas de várias zonas do país, incluindo do Norte.
Já me apareceram clientes que dizem que os próprios médicos lhes recomendaram melão cultivado em Almeirim devido às características destas terras. Tenho conhecido muita gente graças ao melão.
Qual é a diferença entre vender diretamente e entregar a produção a uma grande superfície?
Vender a uma cadeia de distribuição pode dar algum descanso porque escoamos a produção toda de uma vez.
Mas também nunca sabemos exatamente quanto vamos receber e esta é uma cultura muito sensível. Existem muitas doenças e basta uma campanha correr mal para ter prejuízos muito grandes.

Esta venda direta também ajuda a recuperar uma tradição de Almeirim?
Sem dúvida. Já há mais de 30 anos que via os meus pais fazerem isto. Hoje vê-se muita fruta à venda nas estradas, mas nem sempre é fruta produzida em Almeirim. Eu produzo aquilo que vendo.
Quantas variedades cultiva atualmente?
Tenho quatro variedades de melão branco, quatro de melão verde, duas de melão amarelo, duas variedades de meloa e cinco variedades de melancia.
Eu produzo melões em Almeirim, mas não o melão de Almeirim. Ainda assim tenho sementes muito antigas, algumas delas da altura do meu pai. No total devo ter cerca de 12 ou 13 variedades diferentes de melão.
Quais são as maiores dificuldades desta atividade?
Além das doenças da cultura, os roubos e o vandalismo.
Há pessoas que entram nos terrenos, pisam as plantas, arrancam-nas ou estragam os frutos. Depois chegamos aqui de manhã e encontramos tudo danificado. Isso acaba por provocar mais problemas e mais doenças.
Tem sentido apoio das autoridades?
Sim. Este ano tenho sentido uma maior proximidade da GNR de Almeirim. Têm passado por aqui e perguntado se está tudo a correr bem. Tenho sentido essa preocupação.
Ainda é possível viver da agricultura?
É possível, mas está cada vez mais difícil.
Como vê a agricultura em Almeirim daqui a dez ou vinte anos?
Sinceramente, nem consigo imaginar.
Mais de 90% do nosso território agrícola está ocupado com vinha. O vinho está cada vez mais barato, existe muito produto no mercado e o consumo também não é o que era.
Não sei mesmo como será daqui a alguns anos.
Que conselho dá a quem quer seguir a agricultura?
Fazer muitas contas. Hoje é fundamental analisar bem os investimentos e os custos. A agricultura exige muito capital e muito risco.
Talvez procurar culturas diferentes, que ainda não sejam muito exploradas, possa ser uma boa alternativa.
Tem apostado numa produção mais biológica?
Sim. Tento produzir de forma o mais biológica possível e reduzir ao máximo a utilização de pesticidas.
A fruta ganha sabor e qualidade. O meu objetivo é dar às pessoas fruta com sabor, qualidade e a um preço justo.
Vai continuar com este projeto?
Este é apenas o segundo ano. Quando comecei disse a mim próprio que iria experimentar durante três anos. Depois farei uma avaliação séria e decidirei se continuo, se altero alguma coisa ou se aposto noutra cultura.
O passa-palavra continua a ser a melhor publicidade?
Parece que sim. Há muitas pessoas que vêm aqui porque um vizinho, um amigo ou um familiar lhes falou dos melões. Isso é muito gratificante.
Para terminar, o que diria a quem ainda não experimentou os seus produtos?
Que tento fazer o melhor possível para oferecer fruta de qualidade, com sabor e a um preço justo.
E felizmente este ano sinto que as pessoas têm reconhecido esse esforço.






