Em duas anteriores edições de O Almeirinense abordei eu a navegação e ocupação pelos portugueses das ilhas de Zanzibar, Pemba e Socotorá, no Oceano Índico, bem como a ocupação de Ormuz e diversos territórios no Interior do Golfo Pérsico e Costa de Omã, o que deu azo a D. Manuel assumir em 1523 o título de “Rei de Portugal e dos Algarves, d’Aquém e d’Além-Mar em África, Senhor da Conquista, da Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia”. Continuemos hoje com a ocupação de outros arquipélagos que também fizeram parte do Império Português: as Laquedivas e as Maldivas, situadas no Mar Arábico a Noroeste do Oceano Atlântico.
O arquipélago das Laquedivas é um conjunto de 12 atóis de coral, recifes e bancos de areia, além de muitos ilhéus menores num total de 32 km2. Significa em sânscrito “cem mil ilhas”. Estas estão situadas entre 200 e 300 km da Costa do Malabar, Índia. Os portugueses avistaram as Laquedivas em1498, quando da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, fazendo estas de imediato parte da esfera de influência e controle do Império Português na Ásia entre 1498 e 1545. A ocupação foi feita à força, pois algumas das ilhas eram um antro de piratas. Aqui constrói António Almeida um fortim.
O suporte dado pela população aos piratas muçulmanos cedo levou a que os portugueses punissem a população, também ela muçulmana e, de forma mais violenta, os piratas. A dificuldade em navegar nas águas pouco profundas do arquipélago, acrescido ao pequeno provento das ilhas, levaram os portugueses a perder o interesse por elas. Pequeno provento, porque, a riqueza deste arquipélago foi sempre a pesca, o coco, o coral e a concha “cauri”, esta, tal como na costa angolana, foi uma das primeiras moedas de circulação mundial e funcionava como dinheiro para a compra de coisas miúdas. Se o coral interessou durante algum tempo, mais valorizada foi a fibra do coco (cairo) pelo seu aproveitamento nas actividades marítimas, pois utilizavam-na nas embarcações fosse para fazer enxárcias, amarras, cabos, escadas, cordas, protetores de mastros, redes de bordo, etc. ou o mais importante, calafetar, pois a calafetagem insuficiente era causa de muitos naufrágios. A longevidade do coqueiro faz dele uma árvore de enorme importância social, utilidade e rendimento, por ser uma planta de crescimento e produção contínuos, não havendo diferenças importantes durante os meses chuvosos, secos ou quentes, gerando emprego todo o ano. O coco é para um indiano o símbolo da vida. Isto porque para além de outras utilidades que o tronco, as folhas, a fibra e o endocarpo têm, as raízes possuem propriedades medicinais, como o antídoto para a mordedura da cobra, e a seiva fornece por ano cerca de quatrocentos litros de “sura” (bebida alcoólica) de onde se retira a jagra (açúcar) e o “fenny”, uma espécie de aguardente e, por último o miolo do coco, que diariamente presente no caril e na doçaria, fazem com que um proprietário de 5 coqueiros seja um próspero comerciante.
Na década de 1530-1540 a redução da guarnição militar, acrescida de alguma tensão na ilha Agati, onde alguns portugueses foram envenenados, facilitou a revolta dos habitantes da ilha principal, Kavara, acabando os portugueses expulsos em 1545, ano em que vinha para o Oriente D. João de Castro como 13.º Governador e 4.º Vice-rei do Estado Português da Índia.
As Maldivas é outro arquipélago, com cerca de 1.900 ilhas, das quais 203 são habitadas. O arquipélago localiza-se a cerca de 450 Km ao Sul da península Indostânica e a sua capital Malé situa-se na ilha principal Kaafu que é a mais povoada. É o país mais disperso do mundo e de mais baixa altitude, pois tem de média a altura de 1,5m. Os portugueses praticaram por estas águas a pirataria a partir dos inícios de 1500, esperando as naus muçulmanas vindas dos mares da Insulíndia ou de Bengala repletas de especiarias, pedras preciosas, droga, ouro, prata, etc., fugindo aos portos de Malabar, controlados pelos portugueses. Por volta de 1522 tentam os portugueses construir aqui um forte, que não terminam, pois, vítimas de uma cilada foram todos massacrados. Em 1551 o Sultão Hasan IX refugiou-se em Goa para escapar de uma conspiração, acabando por se converter ao cristianismo e doar os seus direitos sobre as ilhas ao Rei de Portugal.
A partir de 1558 os portugueses ocuparam todas as principais ilhas, para a prática do corso, mas também para estabelecer nelas algumas pequenas feitorias que foram por vezes licenciadas a privados, procurando a coroa controlá-las a partir de Goa. Abusos da parte dos feitores originaram por vezes conflitos com as populações locais. Estes com as suas gentes, alojavam-se geralmente no arraial da praia para as pescarias e aqui exigiam em forma de contribuições e para proveito pessoal, não só a oferta do pescado, mas principalmente aljôfar, tartarugas e pérolas apanhadas no fundo do mar, dada a grande capacidade de longos mergulhos em apneia dos pescadores locais. A campanha de cristianização forçada sobre este povo islâmico levada a efeito pelo capitão Andreas André, despertou a revolta popular encabeçada por Muhamad Al-Azam que forçou o pequeno número de portugueses a abandonar as ilhas em 1573. Portugal nunca se preocupou em recuperar as mesmas, dado que o provento tirado das ilhas, não justificava os custos da manutenção de forças e meios. Os ataques de piratas e corsários destas ilhas aos navios e às costas dos territórios portugueses na Índia e Ceilão, foram combatidos com alguma dureza por D. Jerónimo de Azevedo, Capitão-mor de Ceilão de 1594 a 1612.
A data da expulsão dos portugueses do arquipélago, o dia 3 de Novembro de 1573, ainda hoje é feriado nacional porque considerado o Dia da Vitória.
[Bibgª.: G. Mari, J. V. Serrão, L. Thomaz. Por decisão pessoal, o autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico].
Resumo Histórico
• Primeiros Contactos (1518-1521): Em 1518, os portugueses estabeleceram um pequeno forte em Malé. No entanto, devido ao comportamento arbitrário da guarnição, os habitantes locais atacaram e expulsaram os portugueses em 1521.
• Domínio Efetivo (1558-1573): Em 1558, uma força liderada por Andreas Andre (conhecido localmente como Andiri Andirin) invadiu Malé, matando o Sultão Ali VI e estabelecendo o domínio português por 15 anos.
• Expulsão e Resistência: A ocupação terminou em 1573, quando o herói nacional Muhammad Thakurufaanu liderou uma revolta bem-sucedida que culminou na expulsão definitiva dos portugueses.
Opinião, por Cândido de Azevedo














