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Desporto

“Representar Portugal no Mundial foi um momento que nunca vou esquecer”

Por: Inês Ribeiro 11 de Julho, 2026 2 Minutos de Leitura

Nuno Lucas conseguiu ser o terceiro melhor português e foi um dos jogadores que conseguiram fazer história por Portugal porque, pela primeira vez, Portugal passou uma fase de grupos num mundial acabando em 14.º lugar em 32 seleções de outros países.


 Antes de mais, como surgiu o seu interesse pelo Footgolf e há quanto tempo pratica a modalidade?

O meu interesse pelo Footgolf surgiu após a minha “retirada” do futebol em 2024 quando saí, por minha decisão, do Paço dos Negros. Não era o fim que queria para a minha “carreira” futebolística, mas foi uma decisão talvez mal pensada, porque sentia que poderia ter finalizado de outra maneira, e mais bonita, por tudo o que fiz e vivi no futebol durante quase 30 anos desta prática desportiva; e ainda me sentia em condições de jogar por mais anos (penso que ainda hoje jogaria futebol).

Mas houve um dia em que através de um amigo de longa data, César Piedade, que há muito anos me dizia para experimentar a modalidade, fui a um torneio de Footgolf urbano em Santarém e foi com muito gosto que adorei a modalidade e fiquei, e já sou praticante há quase dois anos.

Não é a mesma coisa que jogar futebol, mas de alguma maneira é um desporto viciante e pode ser apaixonante se o vivermos de maneira igual como eu vivia o futebol. É preciso muito mais concentração e técnica porque ali em campo o único fator de erro é a maneira como a bola saí do pé. És só tu e a bola contra o campo.

O que sentiu quando soube que ia participar no Campeonato do Mundo de Footgolf?

A caminhada para uma prova desta dimensão começa quando a época inicia.

Durante a temporada temos que fazer o máximo de pontos para conseguirmos ficar entre os selecionados para a seleção, depois é esperar que o telemóvel toque para a chamada final.

Quando recebi a mensagem com o veredito para representar o meu país, foi um momento que nunca mais vou esquecer, chorei muito de alegria porque é um sentimento de orgulho enorme que todos temos em representar o nosso país além-fronteiras, não o consegui através do futebol, conseguir no Footgolf só me enche humildemente de orgulho pelo tempo precoce em que estou na modalidade.

Como foi a preparação para uma competição desta dimensão?

Posso dizer que para este mundial não foi fácil, tens que improvisar um pouco devido ao facto de na nossa região existirem poucos recursos para treino para a modalidade. Agora com o encerramento do campo em Ribagolfe, o único campo que fica mais perto de casa é o Campo de Caxarias do Sr. António Simões, um dos impulsionadores da modalidade em Portugal.

Aqui na nossa cidade foi fazer um pouco de que já fazia durante a temporada, sempre com planos de treino para me manter bem fisicamente e sem lesões e depois aproveitar todos os espaços verdes, nomeadamente a Zona Norte e, agora, junto ao nosso Campo UEFA, recentemente inaugurado, para treinar mais especificamente com bola para tentar estar mais perto dos grandes jogadores nacionais e internacionais.

Que diferenças encontrou entre uma prova internacional e as competições em que costuma participar?

As principais diferenças penso que são a maneira como cada federação consegue arranjar recursos de treino e jogo para os jogadores.

Vejamos várias situações, aqui ao lado, em Espanha, podemos ver um desenvolvimento enorme no Footgolf. Há imensos campos de golfe adaptados á prática de Footgolf, o que facilita o treino a todos os jogadores de várias regiões do país, ou seja, mais campos mais hipóteses de treinar mais vezes, nem que seja só ao fim‑de‑semana ou numa folga do emprego, acaba por haver mais divulgação o que acaba por trazer mais gente para a modalidade. O mesmo acontece em França que deu frutos este ano e que para mim são a melhor equipa neste momento e isso comprovou-se com os títulos que conseguiram neste mundial no México.

Aqui em Portugal, estamos a atravessar um momento um pouco parado com muita gente a abandonar o Footgolf e muito pouca gente a entrar. Esperemos que na próxima época a situação inverta.

Quais eram os seus objetivos para este Mundial?

Os objetivos passam sempre por dar o nosso melhor e aproveitar a experiência ao máximo. Queremos sempre tudo, mas temos que ter os pés bem assentes na terra, no meu caso sou ainda um novato nestas andanças e sem esquecer que venho de uma realidade completamente diferente, os objetivos passaram por “beber” tudo o que fosse bom e mau para melhorar o meu jogo aqui em Portugal com o objetivo de dar frutos no que resta desta temporada e depois recomeçar a próxima com mais ambição de querer mais e puder disputar outros torneios internacionais. Claro que depois temos outros objetivos como ser um dos melhores portugueses a nível individual e conseguir ajudar a seleção a atingir um patamar elevado.

Consegui ser o 3.º melhor português no individual e fui um dos jogadores que conseguiram fazer história pelo nosso país porque, pela primeira vez, Portugal passou uma fase de grupos num mundial e acabou em 14.º lugar em 32 seleções de outros países; fica a sensação que podemos ser melhores no futuro, mas satisfeitos com o resultado obtido.

Como descreve o ambiente vivido entre atletas de diferentes países?

Um ambiente fenomenal em que chegas a um ponto que parece que já conheces toda a gente. Acabas por falar em diversas línguas que começas a falar espanhol e acabas a falar francês ou de outra maneira com um japonês, por exemplo, que não fala outra língua, é incrível e o mais impressionante é que todos nos entendemos no fim do dia.

Acho que por ser um desporto mais dependente do teu bom ou mau jogo, não jogas contra alguém diretamente o que acaba por criar um bom ambiente em volta de todos durante uma competição destas. Posso dizer que no dia da cerimónia final estivemos praticamente todos juntos e Portugal e França fizeram uma grande festa conjunta, eles gritavam por França e nós por Portugal e eles cantavam connosco e não com eles, é extraordinário e acho que o desporto deve ser vivido assim, se os outros são melhores temos que aceitar e só temos é que melhorar a nossa maneira a seguir, não há que ter inveja ou rancor com ninguém.

Acrescento também que todas a pessoas que nos viam fora do hotel vinham tirar fotos connosco e a primeira coisa que nos diziam era “Portugal? Cristiano Ronaldo…SIIIUUUU!!”.

Cristiano Ronaldo deixou-nos um legado que só quem vai ao estrangeiro a uma competição destas entende o que falo.

Houve algum momento durante a competição que o tenha marcado particularmente?

Acho que tudo foi marcante nesta aventura, mas se tivesse que destacar algum momento foi a convivência que tive com os meus companheiros de seleção. Estamos longe de casa e das nossas famílias, o que nos obriga a passar muito tempo juntos como se de uma família se tratasse. Acabamos por criar laços de amizade bons com pessoas que tínhamos acabado de conhecer e são coisas que ficam para a vida. Também tive a hipótese de ter o meu irmão presente comigo na primeira semana o que também ajudou a que fosse uma semana de mais emoção para mim porque é sempre importante termos ali o nosso sangue lado a lado.

Que balanço faz da sua prestação e dos resultados alcançados?

Faço um balanço muito positivo e superou as minhas expectativas. Estou nesta vida há pouco tempo e não ficar no “cut” por um chuto foi ao princípio de alguma desilusão, mas vejo as coisa como aprendizagem para o futuro e acredito que na próxima vez vai ser muito melhor. A nível de seleção é um momento único na nossa vida e só quem representa o nosso país, seja em que desporto for, sabe do que falo, tudo te passa pela cabeça, a família, os amigos, o que fizeste, quem te ajudou, é uma responsabilidade com um misto de orgulho. Estou muito agradecido por tudo o que passei nestes 13 dias no México.

O que é que aprendeu com esta experiência que possa ser útil para o futuro?

Levo comigo um experiência única e que se conseguir e tiver capacidade para tal gostaria de repetir novamente.

Participar neste tipo de competições pode sempre trazer coisas novas para o futuro, seja para melhorar o nosso jogo ou para outro tipo de utilidades. Acredito que com este mundial o Footgolf pode vir a ter um crescimento mais rápido, talvez tenha ainda um caminho longo a percorrer no nosso país, mas com as coisas bem alinhadas e um projeto sólido de divulgação da modalidade, possamos estar ao nível de outros países, sem sombra de dúvidas.

Como é representar Portugal numa competição mundial?

Acho que não há palavras que expliquem esta sensação de ser internacional. É um momento bonito, único e maravilhoso.

Quando me despedi da minha esposa no aeroporto, parti muito emocionado por ficar muitos dias sem ver a minha esposa e a minha filha que são o meu suporte para tudo, assim como os meus pais, mas sabia que ia ser uma oportunidade única na vida e que os deixaria muito orgulhosos de mim.

Quando representas o teu país é um misto de tudo, principalmente de orgulho lusitano porque a nossa história assim o diz e somos uma nação valente e imortal. Somos um país tão pequeno, mas tão grande ao mesmo tempo e quando estamos ao serviço do país ainda se sente mais, a única palavra que me ocorre é mesmo orgulho.

O Footgolf continua a ser uma modalidade pouco conhecida. Como explicaria o desporto a quem nunca ouviu falar dele?

O Footgolf está em Portugal há poucos anos, desde 2013, mais ou menos que foi quando decorreu a primeira prova oficial em Portugal.

Esta modalidade, como o próprio nome indica, é uma mistura de dois desportos, futebol e golfe.

As regras são praticamente idênticas às regras do golfe, mas onde jogamos com bolas de futebol de tamanho 5 e 18 buracos por etapa com sensivelmente 50 cm de diâmetro. Não é preciso seres um especialista com a bola nos pés nem muito novo para começar. Temos faixas etárias desde os 19/20 anos até aos +65, masculinos e femininos. Por isso, é um desporto aberto a todos e a todas as pessoas que quiserem experimentar.

Na sua opinião, o que falta para o Footgolf crescer ainda mais em Portugal?

Acho que a principal causa é a divulgação e a pouca “profissionalização” da modalidade. Quando falo em profissionalismo é mesmo quem faça parte da federação tem outros empregos fora da direção. Mesmo os jogadores estão um pouco espalhados por todo o país ou têm pouco tempo de treino ou vivem longe dos campos, o que obrigaria a um desgaste ainda maior a nível de tempo e de dinheiro para uma modalidade que não tem prémios monetários.

O que levaria a mais divulgação, por exemplo, era se houvesse alguns jogadores internacionais ou outros profissionais entrassem no circuito, talvez aí houvesse mais divulgação através de outros meios, televisão ou redes sociais, que hoje em dia têm um papel determinante.

Que conselhos daria a alguém que queira experimentar a modalidade?

O que posso dizer é que venham experimentar que vão gostar de certeza. Não se vão arrepender, com os apoios certos e disponibilidade vão de certeza ter uma boa maneira de praticar desporto e conhecer pessoas impecáveis. Não é só um desporto é também uma maneira de viajar pelo país e conhecer outras pessoas e amizades que vai de certeza ficar para a vida e voltar talvez a estar com outros conhecidos de outras andanças.

Eu hoje em dia, consigo estar no circuito com ex-companheiros de equipa, como o André Bento e o Vitor Duarte, o César Piedade e um ex-guarda redes do Fazendense o Nelson Pires, assim como partilho esta experiência com um ex-atleta do Mação e Abrantes, Vicente Constantino, que jogámos várias vezes contra desde os juvenis até aos seniores e só descobrimos isso na época passada. Quem vier não se vai arrepender e quem quiser pode entrar em contacto comigo que eu dou as indicações certas.

Depois desta participação no Mundial, quais são os próximos objetivos desportivos?

Os próximos objetivos passam por terminar esta temporada no lugar mais perto do topo, para também me dar algum alento para a próxima temporada e também puder atacar a Taça de Portugal no fim do ano com outro propósito que não seja só a aprendizagem. Quem me conhece sabe que gosto de desafios e no Footgolf não ia ser diferente. Depois também queria arranjar novos parceiros que me pudessem dar meios para puder disputar outros torneios e Open’s fora de Portugal. Sinto que posso crescer mais e isso só acontece que puder jogar contra os melhores da Europa e do mundo. Já que não consegui ser muito bom no futebol, que seja agora que dê o salto seguinte.

Gostaria de deixar alguma mensagem às pessoas que acompanharam e apoiaram a sua participação nesta competição?

Claro que sim. Sem eles, nada disto teria sido possível, porque infelizmente em Portugal, para representarmos o nosso país, temos de suportar praticamente todas as despesas. Posso dizer que a maior parte dos custos foi paga do meu próprio bolso porque também compreendo que muitas empresas atravessam momentos difíceis.

Ainda assim, consegui alguns apoios muito importantes e fundamentais para a minha participação nesta competição internacional. À Loja A Trouxa, da minha mãe, ao Restaurante O Pinheiro, ao Luís Ferreira e à Raquel Pinheiro, ao Fitness Factory, ao Pedro Mateus, à Imobiliária Home, ao Paulo Frutuoso, e à Duoclima, ao Paulo Galão, o meu sincero obrigado. Não há palavras que consigam expressar o quanto a vossa ajuda significou para mim.

Quero também agradecer à minha família e aos meus amigos, que de uma forma ou de outra estiveram ao meu lado. Levo todos comigo no coração e nunca esquecerei o apoio que me deram.

Aproveito também para deixar um apelo. O meu objetivo é continuar a representar Portugal nas próximas competições internacionais de Footgolf e, para isso, continuarei a precisar de apoio. Qualquer empresa ou pessoa que queira associar-se a este projeto e ajudar-me a levar o nome do nosso país além-fronteiras será muito bem-vinda. Com mais apoio, conseguirei competir com melhores condições e continuar a lutar por bons resultados para Portugal.

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