Começou por fazer rir os colegas nas aulas, passou pelas tunas universitárias e, em 2023, decidiu arriscar num curso de stand-up comedy. Hoje, Inês Batista organiza as noites de comédia clandestina que esgotam em Almeirim e prepara-se para subir a um dos maiores palcos do país. Em entrevista, fala sobre a inspiração que encontra no quotidiano e sobre o sonho que finalmente se concretizou.
Quem é a Inês Baptista?
Acho que sou uma pessoa como as outras, com a diferença de ter tido coragem de subir ao palco para fazer aquilo que, no fundo, muita gente faz nas conversas do dia a dia. As pessoas que me rodeiam estão sempre a fazer rir os outros. A única diferença é que decidi levar isso para o palco.
Quando tomou essa decisão e de que forma aconteceu?
Há cerca de três anos. Estava em casa, já tinha curiosidade de experimentar, de arriscar, e vi que havia um curso de stand-up comedy. Pensei: porque não?
Mas antes disso já tinha esse jeito natural para fazer rir?
Sim, sempre! Mesmo antes de começar a fazer comédia, fiz parte de uma tuna. Numa ocasião, convidaram-me para apresentar o nosso festival e foi muito natural preencher os momentos de pausa com humor. Essa veia já estava lá.
E quem é a Inês fora do palco?
Uma pessoa muito parecida com a que está em palco, mas com menos nervos. Nunca criei uma persona para atuar. O que digo em palco são coisas do quotidiano, coisas que diria na mesma fora dele. Sou essencialmente, a mesma pessoa.
Hoje em dia vive exclusivamente dos espetáculos?
Não. Abri, recentemente uma empresa, com o meu namorado. Temos um laboratório de prótese dentária. Tem sido muito positivo, porque agora consigo gerir melhor o tempo entre o trabalho e a comédia, tanto para escrever como para atuar.
E onde vai buscar inspiração?
À vida. Ao dia a dia. Quando estava a trabalhar numa empresa, antes de abrir a minha, por vezes, estava no meio de tarefas, lembrava-me de qualquer coisa e tinha de apontar imediatamente no telemóvel para trabalhar nisso mais tarde.
Soubemos recentemente que vai estar no NOS Alive. O que representa para si essa conquista?
Foi um grande passo. É algo que sempre quis, cheguei mesmo a dizer aos meus amigos: “um dia vou estar no NOS Alive.” E, finalmente, concretizou-se. A minha mãe ainda não está a saber lidar muito bem com a notícia de tão eufórica que está.
Como reagiu quando recebeu a confirmação?
Já sabia que poderia ser uma possibilidade, mas fiquei em êxtase na mesma. O problema é que não tinha ninguém por perto para festejar naquele momento, estava a conduzir, sozinha, com um sorriso enorme na cara.
Como vai preparar este espetáculo em particular?
Mais ou menos como preparo todos os outros. Tento não dar demasiada importância ao contexto para conseguir entregar o espetáculo com a mesma naturalidade de sempre.
De onde surgem as ideias e os textos?
Das situações do dia a dia. Houve uma altura em que a minha rotina era muito restrita, entre casa, trabalho e ginásio, e só conseguia escrever sobre o ginásio, porque era aquela a minha realidade. Quando fico com um bloqueio, sei que preciso de sair, estar com pessoas, observar. O que tem graça é o quotidiano, é o que nos rodeia. Às vezes pega-se numa coisa completamente banal e encontra-se um ângulo que ainda ninguém tinha explorado.
Como lida com uma piada que não resulta como era expectável?
É um processo. É preciso criar uma espécie de carapaça para não ir abaixo no momento, e depois aprender com isso. Quando uma piada não funciona, questiono-me: será que é da piada, será que foi do ambiente? Continuo a testá-la e, se verificar que realmente não está a resultar e que ninguém está a rir, corto-a. Simples.
Como tem corrido o projeto de stand-up comedy clandestino aqui em Almeirim?
Tem sido incrível! Já vamos na terceira sessão, esgota sempre ou quase sempre e o feedback que recebo, sobretudo da minha família, tem sido muito positivo. Tento sempre trazer comediantes com estilos diferentes, para garantir que há algo para todos os gostos. Do lado dos próprios comediantes, há sempre elogios no final. É muito gratificante.
Depois da passagem pelo NOS Alive, quais são os objetivos para 2026?
Não tenho grandes objetivos definidos. Quero continuar a fazer o que gosto, ter a oportunidade de levar o que faço a outros palcos e a mais pessoas.
Já na escola fazia rir os colegas?
Sim, e isso deu-me alguns problemas, porque as piadas saíam, muitas vezes, durante as aulas.
Chegou a ser expulsa de alguma aula por isso?
Para a rua nunca fui, porque sempre fui, razoavelmente, bem comportada e depois também ficava logo com medo. Mas fui mandada calar muitas vezes e separada dos colegas com quem estava a rir.
Com que piada vai começar o próximo espetáculo de stand-up comedy clandestino?
Eu nunca penso bem numa piada de entrada. Quando estou a dar as boas vindas ao público, tento lidar com o que as pessoas me dão, então vai muito depender do que o público me der hoje e se estão dispostos a brincar ou não.













