A 25 de abril de 2026, a loja de Bento David Roxo assinala 60 anos desde a abertura do espaço comercial. Na edição de 1 de abril, antecipamos a festa de aniversário que pode ser também o momento da “reforma” do Sr. Roxo. Os filhos Rute e Guilherme asseguram a continuidade do negócio.
Com que idade começou a trabalhar e como surgiu a entrada neste ramo?
Bento David Roxo: Eu nasci e morei, até casar aos 25 anos, na rua Açores, número 104-D. Hoje está lá uma casa bonita, mas, naquela altura, era uma casa de gente pobre. O meu primeiro patrão foi o senhor António da Silva Tacão. Ele era casado com uma senhora que morava junto à minha casa, só havia um quintal no meio por isso, quando saí da escola, surgiu a conversa sobre a necessidade de alguém para ajudar na oficina dele, e foi assim que comecei. Tinha 11 anos quando fui trabalhar para o senhor António da Silva Tacão. Um primo meu, o António Ferreira Roxo, trabalhava numa oficina de bicicletas que pertencia ao Francisco da Costa Boavida, conhecido por “Batata”, que ficava onde era a sapataria Acácio. Eles também precisavam de alguém, e como as condições de trabalho lá eram melhores, fui para lá. Acabei por ficar nessa oficina cerca de 10 anos, até à altura em que tive de ir cumprir o serviço militar.
Como foi essa experiência na tropa?
Fui para o serviço militar numa altura em que decorria a Guerra do Ultramar. Estive lá bastante tempo, não me recordo exatamente, mas foram seguramente cerca de três anos.
Apesar de ter sido mobilizado, não fui para o Ultramar. Assentei praça na Figueira da Foz, depois estive no Porto, na Engenharia 2, e mais tarde, fui para a Escola Prática de Cavalaria.
Porque razão conseguiu não ir para o Ultramar?
Foi por uma razão especial, sim. Eu estive até mobilizado, mas a verdade é que eu era condutor radiotelegrafista. Era uma especialidade ligada ao morse. Essa especialidade, na altura, era muito importante e muitos dos que tinham essa formação foram enviados para o Ultramar. No entanto, quando fui colocado na Escola Prática de Cavalaria, fiquei integrado num esquadrão que fazia parte do comando, onde havia necessidade permanente de operadores de rádio.
Todos os meus colegas foram mobilizados, menos eu. O comandante decidiu que não podiam ficar sem ninguém daquele esquadrão e, por isso, acabei por ficar.
Ficou aliviado por não ter ido?
Claro que sim. Fiquei aliviado, embora fosse sempre um tempo de tensão. Mesmo não indo para o Ultramar, vivíamos sempre com alguma preocupação.
Depois passei à disponibilidade, ou seja, vim embora mas, mais tarde, ainda fui novamente chamado durante algum tempo. O serviço militar acabou por ocupar uma parte significativa da minha vida.
O que aconteceu depois de sair da tropa?
Depois de sair da tropa, comecei a pensar em estabelecer-me por conta própria. E foi assim que tudo começou: abri o meu próprio espaço no dia 25 de abril de 1966.
Foi nessa data que comecei a trabalhar por conta própria, e, desde então, a atividade esteve sempre muito ligada às pessoas com poucos recursos. A maioria dos clientes eram pessoas pobres, simples, trabalhadores, gente humilde.
Como foram os primeiros anos?
Foram anos de muito trabalho. Na altura, trabalhava-se, principalmente, com bicicletas, embora já houvesse algumas motorizadas.
Sempre trabalhei muitas horas. Não era como hoje, em que se fazem oito horas de trabalho e as pessoas estão desejosas de ir embora. Eu trabalhei todas as horas do dia e da noite aqui na oficina.
Houve clientes que marcaram muito essa fase. Por exemplo, o vizinho Borges fazia distribuição com motorizada. Algumas vezes, se a motorizada avariasse à noite, precisavam dela no dia seguinte logo de madrugada. Então eu para desenrascar, trabalhava de noite.
Nós trabalhamos há bastantes anos para os CTT. A frota deles é grande e, atualmente, muito exigente. Durante algum tempo, eles não tinham máquinas de reserva. Isso significava que, se uma motorizada avariasse, o carteiro ficava sem trabalhar.
Por isso, trabalhei muitos fins de semana e noites quase inteiras para garantir que, no dia seguinte, os carteiros pudessem fazer a distribuição normalmente.

Todo esse esforço acabou por trazer recompensas ao longo dos anos?
Sim, por um lado foi um percurso muito duro, mas por outro ajudou-me a conquistar aquilo que tenho hoje. A casa que tenho é resultado de muito trabalho e sacrifício. Foi tudo conseguido com muito esforço.
Mesmo agora, com 84 anos, continuo a trabalhar. Gosto de trabalhar, mas a verdade é que a saúde já não é a mesma. Este é um ramo que exige muito esforço físico — é preciso baixar e levantar muitas vezes — e hoje já me custa bastante.
Mas essas mãos continuam a ter muita experiência acumulada ao longo dos anos!?
Isso é verdade. São muitos anos de trabalho e há certas coisas que faço com prática e facilidade. No entanto, hoje em dia, tudo tem eletrónica, e isso, às vezes, complica bastante o trabalho. Aparecem avarias relacionadas com eletrónica que, às vezes, nos dão cabo da cabeça.
Voltando ao início do seu negócio, em 1966, como era o espaço nessa altura?
Era muito pequeno comparado com o que existe hoje. Havia uma porta de entrada para a rua e outra para um quintal que pertencia à senhora Cristina Carrapanha, avó do Janeiro. Ela permitia-me colocar algumas bicicletas naquele quintal, o que ajudava bastante.
Mais tarde, comecei também a usar um corredor que havia, porque o material começou a acumular-se. Hoje tenho cerca de 300 metros quadrados cheios de bicicletas — algumas minhas, outras de clientes — e muitas ficam lá anos sem serem levantadas.
O crescimento do espaço foi acontecendo aos poucos?
Foi tudo muito gradual. Quando a senhora Cristina Carrapanha faleceu, os herdeiros – Jaime Janeiro, João e as irmãs – dividiram o espaço. O Jaime acabou por comprar a parte das irmãs e, mais tarde, venderam-me uma parte do terreno, o que permitiu ampliar a oficina.
Mais tarde, consegui comprar outra parte a uma senhora que morava ali ao lado. Foi assim que o espaço foi crescendo, sempre aos poucos.
Em que altura decidiu construir a oficina atual?
Foi por volta de 1978 que pensei em construir este espaço maior. Mas o dinheiro era pouco e tentei pedir empréstimos a alguns bancos.
Na altura disseram-me que, se fosse só para habitação ou só para oficina, podiam emprestar. Mas como era para habitação e oficina ao mesmo tempo, disseram que não era possível por causa das leis.
Então comecei a construir por administração direta. Conforme ia arranjando dinheiro, íamos construindo.

No início da atividade, em 1966, trabalhava sobretudo com bicicletas ou já vendia também motorizadas?
No início, eram sobretudo bicicletas, embora já existissem algumas motorizadas. Ainda eram poucas, mas eu comecei a trabalhar com elas desde cedo, porque já tinha tido algum contacto com motorizadas na oficina onde trabalhei antes, no Batata.
Eles vendiam Sachs algumas marcas e nós já tínhamos alguma prática com esse tipo de máquinas, mas a verdade é que, naquela altura, as bicicletas eram o principal.
A bicicleta tinha um papel muito importante naquela época, não era?
Tinha um papel fundamental. Hoje os jovens podem não ter essa noção, mas há uns anos atrás a bicicleta era tudo: era transporte, era carro de carga e era meio de trabalho.
Por exemplo, o meu pai ia fazer podas ao Cadaval e o transporte dele era a bicicleta. Mas não era como as bicicletas de hoje — eram bicicletas pesadas, com travões de alavanca, feitas para transportar peso.
E não era só o meu pai. Cerca de 99% das bicicletas que existiam naquela altura eram usadas para trabalho. Muitas pessoas transportavam cargas grandes, como erva ou outros materiais, em suportes montados nas bicicletas.
Vendia muitas bicicletas nessa altura?
Vendia muito mais do que hoje. Houve anos em que, só no mês de dezembro, eu vendia perto de 100 bicicletas.
Era normal vender 60 ou 70 bicicletas num único mês de dezembro. A maioria eram as chamadas pasteleiras, que eram bicicletas robustas e muito utilizadas pelas pessoas.
Hoje já há poucas dessas bicicletas antigas, mas algumas voltaram a ter muito valor, até em termos de mercado. Há quem as procure novamente.
Esse tipo de bicicleta voltou a estar na moda?
Em certa medida, sim. As bicicletas antigas ganharam valor, mas as fábricas que as produziam deixaram de existir ou deixaram de fabricar esse tipo de modelos.
Restaurar bicicletas antigas é caro hoje em dia?
É bastante caro. Hoje em dia, um selim antigo de couro pode custar mais de 100 euros.
Peças como guiadores com travões de alavanca já quase não se encontram em Portugal. Algumas vêm da Índia ou da China, mas muitas vezes não, têm a qualidade das antigas.
Além disso, há peças que dão muito trabalho a montar. Um guiador desses, por exemplo, tem um sistema interno com peças pequenas e específicas que exige muito tempo para montar corretamente. E, hoje em dia, a mão de obra é cara, por isso fabricar essas peças em Portugal seria muito dispendioso.

A sua família acabou por se juntar ao negócio ao longo do tempo?
Sim, foi algo que acabou por acontecer quase naturalmente. A minha filha concluiu o 12.º ano e, entretanto, ficou aqui a trabalhar, um pouco contrariada ao início. Mas a verdade é que acabou por se adaptar e tornou-se um braço muito importante aqui na empresa.
O Guilherme juntou-se depois?!
Sim, o Guilherme também começou desde muito novo a vir para aqui. Na altura podia ter continuado os estudos, mas o entusiasmo pelas motoretas e pelas máquinas acabou por falar mais alto.
Mais tarde ainda tirou alguns cursos e formou-se melhor na área. Chegou também a estar fora do país durante oito anos, esteve na Suíça, mas acabou por regressar e tornar-se sócio.
Considera que ele fez um percurso semelhante ao seu?
De certo modo, sim. Claro que os tempos são outros e há outras preferências hoje em dia, mas o percurso acabou por ter algumas semelhanças. Ele é uma pessoa muito ligada às inovações e isso tem ajudado bastante a modernizar o negócio.













