Cecília Aranha, da Associação de Apoio a Vítimas de Violência Nova Fénix, afirma ao jornal O Almeirinense que “ainda há muito a fazer nesta área” e que, embora seja fundamental denunciar, é igualmente essencial o trabalho que se segue ao processo. Conheça melhor a Nova Fénix e as suas ideias.
Pode apresentar a associação e explicar qual é a sua missão?
A Nova Fénix nasce para estar onde muitas respostas ainda não chegam: no início. A nossa missão é simples e urgente — acolher emocionalmente, escutar e orientar vítimas de violência, mesmo antes de existir uma queixa formal. Acreditamos que agir cedo pode mudar os desfechos.
Há quanto tempo atua na região e que tipo de apoio presta às vítimas?
Estamos numa fase de implementação na região, mas já no terreno. Prestamos escuta, apoio emocional, orientação e encaminhamento. Sem julgamento. Sem burocracia. Com presença. Já temos parcerias com algumas Juntas de Freguesia do Concelho de Santarém e de Almeirim que é uma mais valia na proximidade com a comunidade.
Que tipos de situações são mais frequentes no vosso trabalho?
Sobretudo violência psicológica e emocional. Controlo, manipulação, humilhação, isolamento. Situações que, muitas vezes, a própria vítima ainda não reconhece como violência.
Qual é a realidade no concelho/região no que diz respeito ao apoio às vítimas?
Existe resposta institucional, mas há um vazio importante: o antes da denúncia. E é aí que muitas vítimas ficam sozinhas.
Têm registado um aumento de casos? Em que áreas?
Sim. Há mais procura, especialmente em relações de controlo e violência emocional. Também há mais consciência e isso faz com que mais pessoas comecem a procurar ajuda.
Existem grupos mais vulneráveis que recorrem mais aos vossos serviços?
Sim. Mulheres em relações de dependência emocional ou económica. Mas também jovens e pessoas isoladas. A vulnerabilidade, muitas vezes, começa na solidão e na falta de rede.
Que tipo de apoio é disponibilizado às vítimas (psicológico, jurídico, social…)?
A Nova Fénix não substitui a rede formal — complementa-a. Fazemos apoio emocional, orientação e encaminhamento para serviços psicológicos, jurídicos e sociais.
A vossa preocupação também vai para lá da condenação. O “a seguir” também é fundamental?
O “depois” é decisivo. Sair da violência não é o fim — é o início. E sem apoio, muitas vítimas acabam por regressar ao mesmo ciclo. Estamos a trabalhar num projeto nesse sentido.
Como funciona o primeiro contacto de uma vítima com a associação?
Muitas vezes começa com uma mensagem. Um “não sei se isto é normal”. E é aí que tudo começa: na escuta. Nessa escuta inicial é feita a triagem para perceber o nivel de risco da vítima.
O acompanhamento é de curta ou longa duração?
Não impomos tempos. Cada caso tem o seu ritmo. O importante é que a vítima não se sinta sozinha no processo.
Quais são os maiores desafios que enfrentam no vosso trabalho?
Chegar cedo e ter recursos. Neste momento, um dos maiores desafios é a falta de um espaço físico para garantir apoio presencial com estabilidade.
Ainda existe muito desconhecimento ou preconceito em relação às vítimas?
Muito. Ainda se pergunta “porque não saiu?”. Pouco se pergunta “o que a prendeu?”
O que falta melhorar no apoio às vítimas em Portugal?
Mais proximidade. Serviço mais humano. Mais intervenção precoce. E menos exigência de que a vítima tenha de estar “pronta” para denunciar para poder ser ajudada.
Que tipo de ações de sensibilização desenvolvem junto da comunidade?
Trabalhamos muito nas redes sociais. Conteúdo direto, real, que ajuda a identificar sinais e quebrar o silêncio. Criamos parcerias com o comércio local para apoiar na sensibilização e sinalização.
Qual é o papel das escolas e das autarquias nesta área?
Fundamental. São pontos de proximidade. Podem detetar, apoiar e encaminhar.
O que pode cada cidadão fazer para ajudar ou identificar situações de risco?
Estar atento. Não normalizar comportamentos. E, acima de tudo, não julgar — ouvir e orientar já ajuda.
Que mensagem gostariam de deixar às vítimas que possam estar em silêncio?
Não estás sozinha. E não é suposto viveres assim.
Onde e como podem pedir ajuda?
Podem contactar a Nova Fénix através das redes sociais. Através do nosso email: direcao.novafenix@gmail.com ou pelo nosso contacto direto: 937726860. Ou dirigir-se à sua junta de freguesia e pedir que entrem em contacto connosco. Estamos a construir respostas — mas já estamos aqui.












