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Entrevista

“Sempre fiz aquilo de que gostava e isso ajudou-me a chegar aos 87 anos ativo”

Por: Inês Ribeiro 18 de Julho, 2026 2 Minutos de Leitura

Aos 87 anos, José Alberto Moreira continua a ser uma figura marcante de Almeirim. Durante 33 anos foi motorista da Câmara Municipal, percorreu vários países, dedicou mais de meio século à Banda Marcial de Almeirim e passou por muitas associações do concelho. Nesta entrevista, recorda a decisão de seguir a profissão que sempre sonhou, as histórias vividas na estrada e o projeto que pretende deixar como legado na Casa do Povo.


Aos 87 anos, olha para trás e sente que teve uma vida preenchida?

Sem dúvida. Felizmente, fiz sempre aquilo de que mais gostava, que era conduzir. A saúde nunca me faltou e isso também ajudou muito. Tive uma vida cheia de boas experiências, conheci muitas pessoas e nunca me arrependi das escolhas que fiz. Hoje olho para trás e sinto que valeu a pena.

O seu pai era funileiro. Pensou seguir essa profissão?

Enquanto fui novo não tive grande escolha. Saía da escola e ia diretamente para a oficina ajudar o meu pai. Foi assim durante muitos anos, praticamente até ir para a tropa. Quando fiz 21 anos disse-lhe que queria seguir o meu sonho. Perguntou-me se eu estava maluco, mas respondi que já tinha carta de pesados, queria tirar a de transportes públicos e tornar-me motorista. Aprendi o ofício dele, que ficou para a vida e ainda hoje sei fazer muitas dessas coisas, mas sempre soube que o meu futuro passava pela condução.

O gosto pelos motores surgiu cedo?

Muito cedo. Com apenas 14 anos já conduzia uma carrinha de um vizinho que fazia transporte de gado para o Porto durante a noite. Eram outros tempos e foi aí que comecei a ganhar experiência ao volante. Desde muito novo percebi que era aquilo que queria fazer durante toda a vida.

Como chegou à Câmara Municipal?

Primeiro trabalhei nos transportes e depois entrei para uma empresa onde fazia um pouco de tudo. Trabalhava na mecânica, fazia bate-chapas e, quando era preciso, substituía o motorista. Mais tarde surgiu a oportunidade de entrar para a Câmara Municipal de Almeirim. Acabei por ficar lá 33 anos e foi onde fiz praticamente toda a minha carreira.

Entrou pouco depois de Alfredo Bento Calado assumir a presidência. Como era a Câmara nessa altura?

Era completamente diferente daquilo que é hoje. Havia muito poucos meios. Existia praticamente uma carrinha e um trator para fazer a limpeza das ruas. Pouco depois comprou-se o carro do presidente, um Peugeot 1200, porque era a opção mais económica da altura. Trabalhei muitos anos ao lado do doutor Alfredo Bento Calado e acompanhei de perto essa evolução.

Como era Alfredo Bento Calado?

Era um homem exigente e dizia sempre aquilo que pensava, sem rodeios. Mas também era muito amigo dos seus amigos e valorizava quem trabalhava com ele. Durante 13 anos nunca fizemos uma viagem em que eu não me sentasse à mesa ao lado dele. Mesmo em reuniões oficiais fazia questão disso. Sentia que confiava muito em mim e isso marcou-me bastante.

Recorda algum episódio especial desses anos?

Nunca esqueço um almoço em Lisboa. Entrei no restaurante, olhei à volta e pensei logo que aquele sítio não era para a minha carteira. Sentei-me ao balcão e pedi um simples bitoque. O presidente deu pela minha falta, veio buscar-me e disse que eu tinha de almoçar com eles. Acabei por me sentar à mesa e, no fim, foi o diretor quem pagou a refeição. Foi um gesto que nunca mais esqueci.

Também acompanhou Alfredo Bento Calado nas deslocações a Belém?

Sim, várias vezes. Fui ao Palácio de Belém quando ele tinha reuniões com o Presidente da República, Ramalho Eanes. Numa dessas visitas levámos uma fotografia muito grande tirada durante uma deslocação de Eanes a Almeirim. Tivemos de rebater os bancos da carrinha para conseguir transportá-la. Mais tarde passei a conduzir os autocarros da Câmara. Primeiro chegou um mini-autocarro Toyota e, depois, um Mercedes que fui buscar a Antuérpia. Quando deixei esse autocarro já tinha feito mais de um milhão de quilómetros.

A música também marcou grande parte da sua vida. Como começou a ligação à Banda Marcial de Almeirim?

Entrei para a Banda Marcial de Almeirim com apenas 12 anos, muito por influência do meu pai. Comecei por tocar bombardino, mais tarde passei para o contrabaixo e depois para a tuba. Ao longo dos anos fui tocando os instrumentos de que a banda precisava em cada momento. A música acabou por fazer parte da minha vida durante muitos anos e deu-me também a oportunidade de conhecer muita gente e viver experiências inesquecíveis.

Chegou a tocar em mais do que uma banda ao mesmo tempo. Como era essa experiência?

Sim. Durante cerca de 15 anos toquei também na Banda de Samora Correia, sempre que não tinha serviço em Almeirim. Conseguia conciliar as duas porque organizava a minha vida em função dos ensaios e das atuações. Gostava muito da música e nunca me custou fazer esse esforço. Mesmo depois de deixar a Banda Marcial de Almeirim ainda permaneci mais cinco anos na Banda de Samora.

Antes de deixar a Banda Marcial chegou também a assumir a presidência da coletividade. Como recorda essa fase?

Foram nove anos muito intensos. Ao mesmo tempo que era músico também fazia parte da direção e assumi a presidência da banda. Havia muito trabalho para garantir que tudo funcionava, mas fazia-o com gosto. Os músicos recebiam pelas atuações, mas eu nunca fiquei com a parte que me cabia. Preferia que esse dinheiro ficasse na banda porque entendia que fazia mais falta à instituição do que a mim.

A sua saída da Banda Marcial foi um dos momentos mais difíceis da sua vida associativa. O que aconteceu?

Foi uma situação muito difícil. Houve um desentendimento relacionado com o meu filho, que também era músico da banda, e as coisas acabaram por tomar proporções que nunca imaginei. Fui insultado, virei costas e saí. Mais tarde acabei mesmo por ser expulso da Banda Marcial. Foi uma mágoa muito grande porque tinha dedicado ali grande parte da minha vida.

Apesar desse episódio, continua a recordar a banda com carinho?

Claro que sim. Passei lá grande parte da minha vida, fiz muitos amigos e vivi momentos muito felizes. É isso que prefiro guardar. Houve um episódio menos bom, mas não apaga tudo aquilo que a banda representou para mim nem tudo o que ali vivi ao longo de tantos anos.

Além da Banda Marcial, esteve ligado a muitas associações do concelho. De onde nasceu essa dedicação ao associativismo?

Sempre gostei de ajudar e, quando me convidavam para colaborar, tinha muita dificuldade em dizer que não. Ao longo da vida passei pelos Bombeiros Voluntários de Almeirim, pelo União de Almeirim, pelo CADCA e por várias outras coletividades. Costumo brincar e dizer que só não passei pelos Tigres. Nunca procurei protagonismo. Fazia-o porque gostava de dar o meu contributo à terra onde nasci e vivi toda a vida.

Nunca sentiu que dedicava demasiado tempo às associações?

Sinceramente, nunca pensei muito nisso. Fazia porque gostava e porque me sentia útil. Sempre que podia ajudar uma associação da minha terra, fazia-o com gosto. Claro que ocupava muito tempo, mas nunca encarei isso como um sacrifício. Era uma forma de estar na vida.

Nos últimos anos dedicou-se sobretudo à Casa do Povo de Almeirim. Que balanço faz deste percurso?

Faço um balanço muito positivo. Conseguimos desenvolver vários projetos importantes e deixar a instituição mais preparada para o futuro. O mais significativo foi, sem dúvida, o projeto de requalificação do edifício, uma obra de cerca de 500 mil euros, que consideramos essencial para preservar aquele património e criar melhores condições para todos os que utilizam a Casa do Povo.

Em que consiste esse projeto de requalificação?

O objetivo passa por recuperar a fachada do edifício, substituir as janelas, instalar um elevador e melhorar as condições de acessibilidade e de utilização dos espaços. São intervenções que já faziam falta há muito tempo e que vão permitir dar uma nova vida à Casa do Povo.

Que futuro imagina para a instituição?

Gostava de ver a Casa do Povo transformada num espaço ainda mais moderno e aberto à comunidade. A ideia é aproveitar melhor o piso inferior para acolher associações, criar uma sala comum e instalar um pequeno museu dedicado à história da instituição. É importante preservar a memória da Casa do Povo, mas também adaptá-la às necessidades atuais.

Trata-se de um investimento significativo. Acredita que será possível concretizá-lo?

Acredito que sim. A Casa do Povo tem uma base financeira importante e contamos também com o apoio da Câmara Municipal de Almeirim e com financiamento através de fundos comunitários. Estou confiante de que o projeto vai avançar e que será uma mais-valia para a instituição e para toda a comunidade. 

Já anunciou que este será o seu último mandato na Casa do Povo. É uma decisão definitiva?

É, sim. Prometi à minha mulher que este seria o último mandato e quero cumprir essa promessa. Passei grande parte da minha vida ligado às associações e isso exigiu muito tempo e muita dedicação. Chegou a altura de estar mais com a família e de aproveitar esta fase da vida de outra forma. Também acho importante dar oportunidade aos mais novos para assumirem responsabilidades e trazerem novas ideias.

Custa-lhe dar esse passo atrás?

Claro que custa. Quando passamos tantos anos ligados a uma instituição, acabamos por criar uma ligação muito forte. Mas tudo tem o seu tempo. Continuarei disponível para ajudar sempre que for preciso, mas sem estar à frente da direção. Acho que é a altura certa para fazer essa passagem.

Aos 87 anos continua muito ativo. Qual é o segredo?

Acho que devo muito disso ao associativismo. Obriga-nos a manter a cabeça ocupada, a resolver problemas, a lidar com pessoas e a estar sempre em movimento. Vejo muitos amigos da minha idade que passam os dias em casa e eu continuo a sentir vontade de fazer coisas. Enquanto tiver saúde e puder ser útil, quero continuar ativo. Acho que isso também nos ajuda a viver melhor.

O que é que o associativismo lhe deu ao longo da vida?

Deu-me muito mais do que aquilo que eu lhe dei. Fez-me conhecer muitas pessoas, criar grandes amizades e sentir que podia contribuir para a minha terra. Nunca fiz nada à espera de reconhecimento. Sempre procurei apenas ajudar onde fosse preciso. É essa sensação de dever cumprido que levo comigo.

Depois de uma vida dedicada ao trabalho, à música e ao associativismo, sente que deixa um legado?

Não gosto muito de falar em legado. Fiz simplesmente aquilo que achei que devia fazer em cada momento. Se as pessoas se lembrarem de mim como alguém que trabalhou, que ajudou as associações e que esteve sempre disponível para os outros, já fico muito satisfeito.

Se tivesse de resumir a sua vida numa frase, qual seria?

Sempre fiz aquilo de que gostava e isso ajudou-me a chegar aos 87 anos sempre ativo. Tive a felicidade de trabalhar na profissão com que sonhava, de servir as associações da minha terra e de conhecer muitas pessoas ao longo da vida. Olhando para trás, sinto que fui um homem realizado e só posso agradecer tudo aquilo que a vida me deu.

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