A história de uma das mulheres mais marcantes da cultura portuguesa chega à televisão com uma ligação especial a Almeirim. Parte da série “Leonor, Marquesa de Alorna”, uma produção da RTP protagonizada por Sara Matos, foi rodada na Quinta da Alorna, espaço que marcou a vida da escritora e poetisa. A produção teve uma antestreia em Almeirim, na quinta-feira, dia 5 de novembro, com a presença de elementos do elenco, da equipa responsável e de Maria João Lopo de Carvalho, autora do romance que inspirou a série. A estreia nacional está marcada para o dia 9 de novembro, às 22h00, na RTP1 e na RTP Play, ficando posteriormente disponível na Netflix.
A iniciativa permitiu apresentar ao público local uma produção que recupera a vida de Leonor de Almeida Portugal, conhecida como Marquesa de Alorna, e que dá também visibilidade aos cenários do concelho. A Quinta da Alorna, onde a personagem viveu parte do seu percurso, foi um dos locais escolhidos para as gravações, que decorreram entre maio e julho de 2025. A série passou ainda por outros espaços do concelho de Salvaterra de Magos, incluindo a Falcoaria Real, a Praia Doce e o Bico da Goiva.
Conhecida pela sua erudição, Leonor de Almeida Portugal destacou-se como poetisa, tradutora e pedagoga, num percurso marcado pela defesa da educação e do conhecimento. A série acompanha a personagem antes de se tornar Marquesa de Alorna, procurando mostrar a mulher por detrás da figura histórica: os seus desejos, dúvidas, contradições e decisões.
A narrativa decorre entre 1776 e 1802, ao longo de seis episódios. No início da história, Leonor tem 26 anos e vive no convento de Chelas, onde foi confinada aos oito anos, depois de a família ter sido injustamente envolvida no processo dos Távoras, na sequência de um atentado contra o rei D. José I. Durante esse período, os livros e a curiosidade pelo mundo tornam-se formas de resistência ao isolamento. A subida de D. Maria I ao trono abre-lhe caminho à liberdade e a uma vida marcada por novas relações e desafios. Depois de conquistar a confiança da Rainha, recebe a missão de viajar até Viena, com o objetivo de aproximar as casas reais portuguesa e austríaca. A passagem pelas cortes europeias, nomeadamente por Viena e Avinhão, antecede o regresso a Portugal, onde Leonor procura promover a educação das mulheres e combater a censura e a queima de livros. O seu percurso acaba por ser marcado pelo afastamento do país, em 1802.
A série tem como ponto de partida o romance histórico “Marquesa de Alorna – Do cativeiro de Chelas à corte de Viena”, de Maria João Lopo de Carvalho. A criação e o argumento são de Pandora da Cunha Telles e a realização está a cargo de Tiago Alvarez Marques.
Com um orçamento de 2,3 milhões de euros, a produção resulta de uma coprodução entre a portuguesa Ukbar Filmes e a espanhola Tornasol Media. Conta com o apoio do PIC, do Instituto do Cinema e do Audiovisual, da Câmara Municipal de Almeirim, da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, da RTP e da Netflix.
Uma história de família ligada à Quinta da Alorna
Para Maria João Lopo de Carvalho, a antestreia em Almeirim teve um significado particular. A Quinta da Alorna é a casa da sua família e a ligação ao concelho e ao Ribatejo faz parte das suas memórias desde a infância. A autora recorda que cresceu rodeada pelas referências da região, entre a gastronomia, os cavalos e o campo, tendo a Marquesa de Alorna ocupado desde cedo um lugar especial no imaginário familiar.
“Era o fantasma que aparecia à noite. Todos nós tínhamos histórias de que a Marquesa ia aparecer e de que estava ali enterrada. Não eram verdade, mas, no nosso imaginário infantil, era a dona da casa, antes da nossa avó”, recorda.
A investigação sobre a vida de Leonor permitiu-lhe conhecer melhor a relação da Marquesa com a região e perceber a importância que a Quinta da Alorna teve no seu percurso. “O amor que ela tinha a esta terra, ao Ribatejo e a Almeirim era muito especial. Talvez tenha sido aqui onde mais gostou de viver e onde guardou algumas das suas melhores recordações”, afirma.
Ver a história chegar ao ecrã, com gravações realizadas na própria propriedade, foi, por isso, um momento de emoção para a autora e para a família. “É uma emoção para toda a família. É um orgulho para nós todos”, afirma, revelando que os familiares acompanham a divulgação da série e partilham as notícias sobre a produção num grupo de WhatsApp dedicado à Marquesa de Alorna.
O romance que deu origem à série começou a ser pensado quando Maria João Lopo de Carvalho tinha 14 ou 15 anos, mas só foi concretizado muitos anos depois. A adaptação televisiva foi outro caminho que exigiu persistência. A autora conta que enfrentou várias recusas até encontrar a produtora Pandora da Cunha Telles, da Ukbar Filmes, que se interessou pelo projeto depois de ler o livro.
“Foi uma questão de teimosia e determinação. Levei com muitas portas na cara e ouvi muitos nãos, mas nunca desisti”, recorda. A vontade de levar a história ao ecrã não nasceu, garante, de uma questão de vaidade, mas da convicção de que o exemplo de Leonor continua a ter atualidade, sobretudo para as gerações mais novas.
Maria João Lopo de Carvalho acompanhou o desenvolvimento do argumento, participou nas sessões da sala de escrita e esteve presente em cerca de 90% das filmagens. A autora sublinha a preocupação com o rigor histórico, embora reconheça que a adaptação televisiva exige liberdade narrativa. “A série tem mais asas do que raízes, mas parte de um chão comum”, resume.
A produção adapta cerca de 150 páginas de um romance com aproximadamente 700, deixando ainda margem para desenvolver outras fases da vida da Marquesa. A possibilidade de novas temporadas dependerá, contudo, da decisão da produtora.
Sara Matos dá vida à Marquesa de Alorna
A protagonista é interpretada por Sara Matos, que admite que, antes de integrar o projeto, conhecia apenas alguns aspetos da vida de Leonor. O primeiro contacto com a personagem aconteceu durante o casting, através de uma cena do sexto episódio, na qual a Marquesa defende a criação de um espaço onde as mulheres possam receber instrução e educação.
“Emocionou-me muito. Deixei-me levar pelo texto e acho que isso também contribuiu para que me escolhessem”, conta a atriz.
Ao preparar a personagem, Sara Matos encontrou uma mulher cuja determinação considera pouco comum para a época. “Era uma mulher muito à frente do seu tempo e extremamente corajosa. Viveu tantos anos num convento e nunca desistiu de se educar, de se instruir e de se cultivar. Como não podia viajar pelo mundo, viajava através dos livros”, descreve.
A série representou também a primeira experiência da atriz numa produção de época. O guarda-roupa foi um dos desafios, sobretudo pela utilização de peças como os corpetes, que condicionavam os movimentos durante as gravações. “Tínhamos de gravar dez ou onze cenas por dia com aquelas vestes muito apertadas. Não era fácil, mas foi divertido”, refere.
O balanço da experiência é positivo. Sara Matos considera que o projeto teve um impacto especial no seu percurso profissional e não esconde o entusiasmo com o resultado: “Adorei. Acho que posso dizer que é a série da minha vida”.
Uma atriz da região no elenco
A produção conta também com a participação de Ana Varela, natural da Parreira, no concelho da Chamusca, e com uma ligação próxima a Almeirim, onde viveu durante oito anos e frequentou a Escola Secundária Marquesa de Alorna. Na série, interpreta Joana Forjaz, uma personagem ambiciosa e preocupada com o reconhecimento social, que vê em Leonor uma rival.
A ligação pessoal à região tornou o convite particularmente significativo. Quando foi chamada para o casting, a atriz não hesitou em aceitar o desafio. “Pensei logo que tinha de participar neste projeto. Almeirim é uma terra muito especial para mim. Queria fazer parte desta história e ajudar a contá-la”, afirma.
Embora já conhecesse a figura da Marquesa de Alorna, Ana Varela aprofundou o seu percurso através da leitura do romance de Maria João Lopo de Carvalho. “Percebi que a história dela era muito mais rica do que aquilo que conhecia, sobretudo pelo percurso internacional que fez e pela presença nas cortes europeias. Fiquei com ainda mais admiração por esta mulher da nossa história”, explica.
A atriz ainda não tinha visto a série na íntegra antes da antestreia, tendo acompanhado apenas alguns excertos e os materiais de divulgação. Por isso, aguardava também com expectativa a oportunidade de conhecer o resultado final.
As paisagens de Almeirim chegam ao ecrã
A escolha dos locais de gravação procurou acompanhar a época e os diferentes ambientes em que decorre a narrativa. No concelho de Almeirim, a produção utilizou vários espaços da Quinta da Alorna, incluindo as vinhas, as áreas florestais, as cavalariças e o exterior do palácio. Em Salvaterra de Magos, as gravações passaram pela Falcoaria Real, pela Praia Doce e pelo Bico da Goiva.
A componente visual foi pensada para distinguir os diferentes territórios representados na série. De acordo com a criadora, as paisagens da Lezíria do Tejo e os azulejos pombalinos, em tons de azul e branco, ajudam a caracterizar Portugal. Já Viena surge associada aos espelhos, aos candelabros e à arquitetura neoclássica, enquanto França é representada através de ambientes com papéis de parede pintados à mão e motivos florais.
A banda sonora cruza ainda música pop com elementos inspirados na música da época, incluindo uma recriação do fandango setecentista.
Para o presidente da Câmara Municipal de Almeirim, Joaquim Catalão, a realização da série representa uma oportunidade de divulgação do concelho e da região. O autarca considera que a presença de Almeirim numa produção com distribuição nacional e internacional poderá contribuir para atrair visitantes e dinamizar a economia local.
“É extremamente importante para o nosso território. Para além de recordar a figura da Marquesa de Alorna, a série vai divulgar a região por todo o país e também além-fronteiras. É uma forma de mostrar a beleza das nossas paisagens e do nosso território, o que poderá trazer turistas e ter reflexos na economia. Aqui, a cultura pode ser um motor da economia”, defende.
Joaquim Catalão destacou também a presença da Sopa da Pedra na narrativa, uma vez que há um episódio em que a Marquesa aparece a preparar este prato tradicional de Almeirim. Para o presidente da Câmara, esta referência poderá ser aproveitada na promoção turística do concelho.
“Temos de saber aproveitar a imagem da Marquesa de Alorna e potenciar o seu nome para atrair turistas ao nosso território”, afirma, adiantando que está a ser preparada uma iniciativa promocional associada à Sopa da Pedra.
Protocolo prevê roteiro turístico ligado às filmagens
A ligação entre a produção televisiva e a promoção turística da região ganhou também expressão através de um protocolo assinado entre a Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo e a Ukbar Filmes, na Quinta da Alorna.
O acordo prevê a realização de ações de divulgação e a criação de um roteiro turístico inspirado nos locais onde decorreram as filmagens, com o objetivo de levar os espectadores a conhecer os cenários da série. A Quinta da Alorna deverá assumir um papel central neste percurso, tanto pela ligação histórica à Marquesa de Alorna como pela utilização da propriedade durante as gravações.
A produção considera que projetos desta natureza podem contribuir para dar visibilidade aos territórios envolvidos e reforçar o seu potencial enquanto destinos turísticos e locais de futuras produções audiovisuais.
Fundada em 2009 por Pandora da Cunha Telles e Pablo Iraola, a Ukbar Filmes conta com cerca de 80 produções no seu percurso, entre as quais a série “Rabo de Peixe”, realizada para a Netflix e que alcançou o top 10 em mais de 30 países. “Leonor, Marquesa de Alorna” foi ainda selecionada para o Berlinale Series Market Selects 2026.
Além de Sara Matos e Ana Varela, o elenco integra Cristóvão Campos, Albano Jerónimo, Joana Solnado, Miguel Borges, Soraia Chaves, Rita Rocha Silva, Sandra Faleiro, Paula Lobo Antunes, Cucha Carvalheiro, Helena Caldeira, Inês Herédia, Rodrigo Tomás, Adriano Luz, Vicente Wallenstein, Pedro Granger e Graciela Doniz, entre outros.
A antestreia terminou com a exibição do segundo episódio, que inclui cenas passadas em Almeirim, Salvaterra de Magos, Queluz e Porto. Para quem assistiu à sessão no Cine-Teatro de Almeirim, foi uma oportunidade de reconhecer no ecrã lugares que fazem parte da paisagem local e que estão ligados à história da protagonista. A partir de 9 de novembro, com a estreia na RTP1, essa história chega a espectadores de todo o país.
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