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Entrevista

“Fui seguindo em frente, um dia de cada vez”

Por: Inês Ribeiro 25 de Abril, 2026 2 Minutos de Leitura

Um acidente de alta tensão mudou-lhe a vida em segundos, deixou marcas físicas profundas e desafios diários que persistem até hoje. Ainda assim, nunca se deixou definir pela adversidade. Entre dores, recomeços e adaptações, construiu um novo caminho com resiliência e determinação. Nesta entrevista, Natálio Galveia partilha o seu percurso, as dificuldades que enfrentou e a forma como, passo a passo, conseguiu voltar a erguer-se e encontrar um novo propósito.


Poderia partilhar connosco o seu percurso de vida? Como descreveria o seu trajeto até ao momento?

Considero que o meu trajeto, até agora, não correu muito mal. Depois do acidente, um choque elétrico de alta tensão, tive alguns percalços, naturalmente, mas a adaptação acabou por ser melhor do que aquilo que eu, inicialmente, imaginava. No momento do acidente, pensei sempre da mesma forma: aconteceu? Aconteceu. Agora é preciso seguir em frente! Na altura, acordei passados seis ou sete minutos, ainda antes de a ambulância chegar. Quando recuperei a consciência, reparei logo no braço, mas a primeira coisa que tive de fazer foi desatar as botas porque sentia os pés a arder intensamente. O choque elétrico entrou pelo braço, percorreu o corpo e passou pelos dois pés, saindo também pela zona do peito. Estima-se que tenham passado cerca de 30 mil volts pelo meu corpo, o que provocou um aquecimento muito intenso. 

As pessoas, quando olham para mim, reparam logo no braço, é sempre a primeira coisa que chama a atenção, mas, na verdade, são os pés que me dão mais dificuldades. Ao caminhar, ferem-se com frequência, são eles que suportam todo o peso do corpo. Basta um sapato ou uma palmilha apertar um pouco mais para rasgar a pele e depois são necessárias semanas para cicatrizar. Como estou, diariamente, em cima dos pés, isso torna-se particularmente difícil. Durante o verão, a situação agrava-se ainda mais. Mesmo assim, fui seguindo em frente, um dia de cada vez.

Não utilizo prótese no braço porque, para mim, é como se não estivesse a usar nada e ainda me provoca tendinites nas costas, como já aconteceu várias vezes. Considero que consegui superar muitas dificuldades, embora tenha havido momentos bastante complicados. Depois do acidente, demorei quase dois anos até conseguir voltar a trabalhar e retomar a minha vida. Mais tarde, quando a situação com a seguradora ficou resolvida e, depois de ter ido a tribunal, procurei o presidente da Câmara Municipal da altura, o senhor Sousa Gomes, para tentar conseguir uma oportunidade de trabalho que me permitisse seguir em frente. Ainda tive de esperar algum tempo e também precisei de estudar para conseguir exercer essa nova função. Dediquei-me aos estudos e, passado algum tempo, as coisas acabaram por correr bem. No dia-a-dia, os maiores desafios continuam a ser os pés. Caminhar na calçada é muito doloroso. Cheguei a trabalhar com os pés com ligaduras para conseguir desempenhar as minhas funções. Antes do acidente, trabalhava como carpinteiro de cofragem. Já lá vão 24 anos. Tive a ajuda de algumas pessoas em momentos difíceis, o que foi muito importante. Era fundamental conseguir outro trabalho para pagar as despesas e manter uma vida minimamente equilibrada, de forma a continuar a seguir em frente.

De que forma decorreu todo o processo de adaptação a essa nova realidade?

Foi, sem dúvida, uma mudança muito grande! Fui-me adaptando dia após dia, mas não foi um processo fácil. Muitas coisas mudaram na minha vida. Ainda estava no hospital, na unidade de queimados, e durante os primeiros 15 dias, praticamente, não estava consciente, parecia que eu não estava presente, muito por causa da medicação com morfina. Com o passar do tempo, foram reduzindo a medicação e comecei a passar mais tempo acordado. Quando recebia visitas, as pessoas falavam comigo normalmente, mas há muitas coisas desse período das quais eu não me lembro. Mais tarde, quando já estava em casa, a minha esposa chegou a contar-me episódios que tinham acontecido durante as visitas e que eu, simplesmente, não recordava. Por exemplo, houve uma vez em que ela veio visitar-me acompanhada do meu irmão. Durante a viagem, o carro começou a deitar fumo por todo o lado na autoestrada, tiveram de parar e chamar assistência, porque o carro acabou por avariar. Ela contou-me isso, mas eu não me lembrava de nada.

Ainda na unidade de queimados, depois daquele período inicial, trouxeram-me uma caneta e um caderno para que eu começasse a habituar-me a escrever com a mão esquerda. No início, eram apenas gatafunhos. Tinha de escrever o meu nome, a morada e outras informações básicas, pois era necessário assinar documentos e tratar de vários assuntos. Com o passar do tempo, e já em casa, passei muitas horas sentado à mesa a fazer cópias e exercícios de escrita. Aos poucos fui aperfeiçoando a caligrafia e ganhando mais destreza.

Sempre tive a ajuda da minha esposa, que era quem estava mais tempo comigo. Os familiares também ajudavam sempre que podiam. No entanto, muitas das coisas tive de aprender sozinho, procurando formas alternativas de as fazer. Por exemplo, para atar as calças do fato de treino, tinha de improvisar: abria a gaveta, prendia o atacador com um nó para que não escapasse, colocava-o junto à perna e puxava com a mão. Assim, aos poucos, fui arranjando soluções para as tarefas do dia-a-dia. Vestir-me sozinho também foi um processo de aprendizagem, mas acabei por conseguir fazer a maioria das coisas de forma autónoma.

Quando voltei para casa, a adaptação também não foi fácil. Saí do hospital depois de ter estado cerca de um mês na unidade de queimados, onde presenciei muitas situações marcantes. Houve uma senhora que acreditava que colocar álcool fazia bem à garganta. Era inverno, fazia muito frio, e ela colocou álcool num lenço, colocou-o ao pescoço e, depois, foi acender a lareira. O resultado foi um acidente grave, que a levou para aquela unidade. Uma outra senhora que tinha chegado em estado grave, estava com queimaduras após entornar uma panela sobre si. Foram experiências difíceis de presenciar e que marcaram bastante aquele período da minha vida.

Existiu algum momento particularmente difícil em que tenha sentido que não conseguiria ultrapassar a situação? 

Um dos momentos mais difíceis foi, sem dúvida, logo após o acidente. Esse momento foi extremamente duro. Não consigo explicar as dores que senti. Foram dores muito intensas. Os bombeiros tiveram de gastar cerca de dez frascos de soro por cima de mim até chegar ao Hospital de Santarém, para tentar arrefecer as queimaduras, foram muito graves porque a corrente elétrica passou por dentro do corpo e queimou de dentro para fora. Quando o choque passou, queimou praticamente tudo, as veias, os tendões… Os dedos ficaram muito afetados e a ponta de um dos dedos desapareceu e a pele ficou escura e muito danificada.

O cheiro era muito intenso, semelhante ao cheiro que se sente quando se queima ou chamusca carne, era um cheiro muito forte e difícil de suportar. As dores foram extremamente difíceis de aguentar até chegar ao hospital. Quando cheguei, colocaram-me um cateter e administraram medicação para aliviar as dores. Pouco tempo depois, fui transferido diretamente para Lisboa, onde a unidade de queimados já estava preparada para me receber. Apesar de todos esses momentos difíceis, posso dizer que nunca desanimei verdadeiramente. Sempre tentei não me deixar abater. Houve momentos em que pensava: “Porquê eu? Porque é que isto me aconteceu?”. Mas, sempre que esse pensamento surgia, procurava afastá-lo rapidamente e concentrar-me noutras coisas. 

Atualmente, exerce funções numa escola. Como surgiu essa oportunidade?

Atualmente, sinto-me bem no meu trabalho! A oportunidade de trabalhar numa escola surgiu de forma inesperada. Antes disso, trabalhei durante algum tempo na autarquia, cerca de dois anos, a fazer leituras de contadores de água. No entanto, esse trabalho terminou por se tratar de um programa de emprego temporário. Depois disso, continuei à procura de trabalho. Numa das situações, fui ter com o senhor Carlos Galão para pedir um carimbo, pois ele era presidente da CACER. Aproveitei a oportunidade para lhe dizer que andava à procura de trabalho e perguntei-lhe se teria alguma oportunidade para mim. Ele pediu-me o número de telefone e disse que entraria em contacto caso surgisse alguma possibilidade. Passado algum tempo, ligou-me a informar que precisava de uma pessoa para trabalhar como porteiro. Aceitei essa oportunidade e comecei a trabalhar nessa função. Trabalhei nessa cooperativa durante cerca de dois a três anos. Infelizmente, a cooperativa acabou por falir, o que me levou novamente ao desemprego. Estar em casa durante tanto tempo era algo que me custava bastante. Não gosto de estar parado.

Um dia fui à farmácia e encontrei a senhora vereadora Fátima Pina. Aproveitei para lhe perguntar se existia alguma possibilidade de arranjar trabalho, pois já estava cansado de estar em casa sem ocupação. Ela respondeu que iria tentar verificar se existia alguma oportunidade. Cerca de duas semanas depois, recebi um telefonema para me apresentar nos recursos humanos. Fui então encaminhado para trabalhar em Fazendas de Almeirim, num centro escolar, onde permaneci cerca de três anos. Foi assim que tudo começou na área escolar.

Hoje trabalho na Escola Básica dos Charcos e confesso que nunca pensei que esta mudança corresse tão bem, até porque o meu percurso profissional anterior não tinha qualquer relação com esta área. Posteriormente, abriu um concurso público e consegui integrar-me através desse processo. Continuo a trabalhar na escola e posso dizer que gosto do que faço. Dou-me bem tanto com os alunos como com os encarregados de educação e professores.

Sente que a sua condição física tem impacto no desempenho das suas funções?

Não considero que a minha condição me limite de forma significativa. Apesar de não ter o braço, consigo realizar, talvez, 95% das tarefas necessárias. No trabalho, quando é preciso fazer alguma reparação ou resolver algum problema, se tiver conhecimento e capacidade, faço-o sem dificuldade. Quando surge alguma tarefa que exige o uso das duas mãos, peço ajuda aos colegas, que estão sempre disponíveis para colaborar.

De um modo geral, não sinto grandes dificuldades físicas no desempenho das minhas funções. Há poucas coisas que realmente não consigo fazer e, quando isso acontece, procuro soluções alternativas ou recorro à ajuda dos outros.

Na sua opinião, a sociedade está devidamente preparada para integrar pessoas com deficiência?

Na minha opinião, não. Eu sou uma pessoa bastante autónoma: conduzo, subo escadas quando não há elevador e consigo deslocar-me praticamente para qualquer lado. No entanto, há muitas pessoas que utilizam muletas ou cadeira de rodas e para essas pessoas a realidade é muito mais difícil.

Muitos espaços públicos e empresas ainda não estão devidamente preparados para receber pessoas com mobilidade reduzida. Pode haver algumas exceções, mas, no geral, ainda há muitas limitações.

Vou contar um episódio que aconteceu comigo e que demonstra isso. Quando abriu o supermercado Pingo Doce, eu estava desempregado e fui chamado para uma entrevista de emprego. Quando cheguei, a sala estava cheia de pessoas. A responsável estava a explicar as condições e, no final, perguntei-lhe diretamente se teria hipóteses de ser aceite. Ela respondeu que sim, que as mentalidades tinham mudado. No dia marcado, fui um dos primeiros a ser chamado, levei comigo todos os documentos organizados e estava preparado, mas quando chegou a minha vez, disseram-me que não correspondia ao perfil que estavam à procura. Acredito que o que aconteceu comigo acontece também com muitas outras pessoas.

Ainda identifica a existência de preconceitos ou barreiras?

Penso que sim, que ainda existe preconceito. Mesmo passado 24 anos desde o meu acidente, as pessoas continuam a olhar para mim como se tivesse sido ontem. Reparam muito no braço e ficam frequentemente a olhar. No meu caso, é apenas o braço que chama mais a atenção, mas existem pessoas que sofreram acidentes ainda mais graves, que ficaram com deformações visíveis, e acredito que essas situações geram ainda mais preconceito. Infelizmente, penso que esse tipo de atitudes ainda faz parte da realidade de muitas pessoas com deficiência.

Que mensagem gostaria de deixar a pessoas que enfrentam desafios semelhantes?

A mensagem que gostaria de deixar é que não desistam. Devem procurar olhar sempre para o futuro com esperança, mesmo quando, por vezes, parece difícil ou pouco promissor. É importante continuar a caminhar, um passo de cada vez, porque, com persistência, chega um dia em que conseguimos alcançar aquilo que desejamos.

Em particular, que conselho gostaria de transmitir aos mais jovens? 

Não é fácil dar conselhos porque os tempos mudaram muito. Hoje em dia, vivemos numa realidade bastante diferente daquela que existia no passado. Sinto que muitos jovens, mesmo desde o primeiro ciclo, nem sempre ouvem os adultos ou as pessoas mais velhas. Muitas vezes tentamos dar conselhos ou chamar a atenção para determinados comportamentos, mas é necessário repetir várias vezes até que prestem atenção. Por vezes, temos de elevar um pouco a voz para que percebam que estamos a chamá-los ou a alertá-los para alguma situação importante. No entanto, acredito que, com o tempo, os jovens vão aprendendo que nem tudo pode ser feito da forma que desejam e que é necessário compreender limites, responsabilidades e respeito pelos outros.

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