Torres Gomez, jogador da AD Fazendense, está em Portugal há três anos com um contrato profissional assinado e situação contributiva regularizada, mas continua sem autorização de residência. O jogador gambiano, de 25 anos, viu o seu pedido ser alvo de um projeto de indeferimento por não apresentar um registo criminal da Gâmbia, país que deixou há quase uma década, quando ainda era menor.
A história de Torres Gomez começou muito antes de vestir a camisola do clube ribatejano. Em 2015, com apenas 16 anos, embarcou num bote de borracha na Líbia com o irmão, juntamente com 136 africanos. Foram resgatados por um navio espanhol e acabaram no sul de Itália.
“Não foi uma viagem fácil. Fomos tratados de uma forma desumana desde o início. Passámos 16 horas à deriva até sermos resgatados por outra embarcação, que nos levou para uma nova viagem de dois dias até ao desembarque em Itália. Estávamos 138 no barco, muitos perderam a vida pelo caminho”, confessou Torres Gomez ao Zerozero, em 2022.
Foi nesse país que começou a jogar em divisões inferiores. Destacou-se no Manduria, no campeonato Eccellenza, com 10 golos em 22 jogos. No entanto, a lei italiana só permite a atuação de jogadores extracomunitários na Serie A, o que travou a sua progressão.
A oportunidade surgiu mais tarde em Portugal. Na época de 2022/2023, chegou à AD Fazendense, onde foi recebido pelo presidente do clube, António Botas Moreira. A direção ofereceu-lhe um contrato profissional por duas épocas e assumiu todos os encargos legais. Desde então, o contrato tem sido renovado anualmente com as mesmas condições. O jogador vai agora para a sua quarta época ao serviço do clube. Torres Gomez afirma ainda, em entrevista ao Zerozero, em 2022, que “em Portugal as pessoas são muito acolhedoras”.
Nesse mesmo verão, o jogador submeteu o pedido de autorização de residência, ao abrigo da extinta “Manifestação de Interesse”. Em novembro de 2023 foi chamado à Agência para a Integração Migrações e Asilo (AIMA) para recolha de dados biométricos. Disseram-lhe que a autorização chegaria em 48 horas. No entanto, após quatro meses, recebeu “um projeto de decisão de indeferimento do pedido de concessão de autorização de residência temporária” por não ter apresentado um certificado de registo criminal do seu país de origem.
“Ou seja, praticamente uma guia de marcha”, contesta António Botas Moreira. O jogador tinha planeado visitar a família com o irmão neste verão, mas receia sair do país e não conseguir regressar.
“O caso do Torres não é único”, conclui o presidente da AD Fazendense. “Na AIMA está tudo parado, nem falar com eles conseguimos”, acrescenta.
Enquanto isso, Torres Gomez continua a jogar pelo Fazendense, onde está no lote de capitães de equipa, à espera de uma resposta que tarda.