Shopping cart

No Widget Added

Please add some widget in Offcanvs Sidebar

  • Home
  • Opinião
  • MEMÓRIAS E CURIOSIDADES DE UM DESAPARECIDO IMPÉRIO: 21. …e assim nasceu Moçambique! 
Opinião

MEMÓRIAS E CURIOSIDADES DE UM DESAPARECIDO IMPÉRIO: 21. …e assim nasceu Moçambique! 

Por: Inês Ribeiro 15 de Dezembro, 2025 2 Minutos de Leitura

D. João II, na esperança de chegar ao centro económico que se movia entre a Europa e a China, não envia só gente por mar. Em 1487, por terra vão dois homens de confiança: Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã, que disfarçados de mercadores procuram dados sobre o comércio e navegação no Índico e uma aliança com o Imperador Preste João das Índias Etiópicas, reino cristão, possível aliado contra os islâmicos. Era a espionagem no seu melhor e secretamente preparada. Pêro da Covilhã obtém êxito pois andou pelas costas da Arábia, Índia e África, chegando a Sofala. Daqui Pêro da Covilhã passa toda a informação sobre as riquezas de Sofala para a corte, partindo de seguida para a Etiópia onde foi conselheiro imperial e escreveu a «Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias», (editado em Lisboa em 1540), morrendo em 1530 desiludido com as riquezas e o mito do Preste João. Também Vasco da Gama, na sua viagem para a Índia em 1497, tem notícias de Sofala onde os negócios predominantes eram o do ouro e dos escravos. 

Em 1498 chegará Vasco da Gama à Ilha de Moçambique, nome do sultão local “Mussa Bin Mbike”, traficante de escravos. Inicialmente bem recebido, dão os ilhéus conta de não serem os recém-chegados crentes do Islão, pelo que vão criar graves problemas. A frota de Vasco da Gama usou aqui os canhões pela primeira vez, para dispersar a multidão de ilhéus que, cercando um poço, quis impedir o abastecimento de água à armada. Importante como ponto estratégico, a ilha torna-se escala forçada, pelo que é ocupada por Portugal em 1507 e incorporada no Estado da Índia.

Em 1505, D. Manuel, decidido a proteger o grande comércio de ouro de Sofala, aí manda construir o forte de S. Caetano, pelo que a traça, artífices e cantarias lavradas vêm trazidos de Portugal, ficando integrada enquanto capitania, no já considerado Estado da Índia. Passou a ser importante feitoria embora monopolizasse com dificuldade o ouro do império Monomotapa, por troca com coisas banais como missangas e panos trazidos da Índia. Esta capitania vai sofrer nos anos seguintes uma grande desestabilização provocada não só por revoltas de povos locais, os suaílis, como a chegada de outras tribos vindas do interior como os zimbas e os maraves.

Os árabes, devido à presença portuguesa, vão desviar as rotas do ouro, levando à perda da importância de Sofala. Entre 1530 e 1544, mercadores apoiados por exércitos privados, fundam novas povoações como Quelimane, Sena, Inhambane e Tete. A partir de 1535, com o fim do comércio do ouro em Sofala, muda-se o poder para a ilha de Moçambique, que se torna na capital política e residência dos Capitães, mantendo a sua subordinação ao Vice-rei na Índia. Bem posicionada para atender ao comércio do vale do Zambeze, será importante entreposto comercial de ouro, marfim, panos, pau-preto e escravos. Por aqui, além dos feitores, marinheiros, soldados e até padres foram comerciantes de escravos, e só acessoriamente cumpriam as suas obrigações. A insistência dos árabes na reocupação da Ilha leva os portugueses a iniciar em 1558 a construção da Fortaleza de São Sebastião que será a maior da África Austral. Esta, na sua traseira, passados uns anos terá um campo de fuzilamento, um mal que se justificava porque a quase totalidade dos homens que serviam na África Oriental era constituída por degredados e compelidos, pouco habituados à disciplina, chegando aqui a haver revoluções contra os governadores e seus comandantes.

Contudo a ambição pelo ouro e pela prata mantinha-se pelo que não é de estranhar o envio em 1571 da expedição comandada por Francisco Barreto com o título de “Capitão-General de Moçambique e Sofala e Rios de Cuama e Conquistador das Minas de Monomotapa, título que ficou apenas no papel, pois nunca lá conseguiu chegar. Chegará sim a expedição de Vasco Homem que partiria de Sofala em 1574 com 500 expedicionários e alguns canhões para proteção de tais minas. Parte da guarnição, cerca de 200 militares que ficara a guardar as minas de prata de Chicova foi toda massacrada, tendo sido o primeiro massacre de portugueses na costa oriental africana. Nos inícios de 1600 resistirá a Ilha por três vezes ao cerco dos holandeses. 

Em 1607, na região de Zambézia e já com boas relações com o povo do antigo Império Monomotapa, obtêm os portugueses a concessão das minas de ouro. Em 1627 o rei Mavura, agora cristão, assume-se vassalo de Portugal. Após o período de capitães-mores (1501 a 1560) e de capitães- generais (1569 a 1609), passou-se a nomear governadores e em 1641, após a Restauração, existindo dificuldade em nomear estes representantes, vai o cargo estar em leilão sendo arrematado por Francisco da Silveira, por 30.000 pardaus, moeda em uso na Índia Portuguesa. 

Nesta altura vêm colonos indianos, quer hindus ou muçulmanos, que arrendando terrenos a prazo, se dedicarão ao comércio e agricultura. Vão-se misturando os cristãos com muçulmanos e pagãos, ganhando os primeiros dos outros os seus ritos e costumes, conforme referia o Tribunal da Inquisição de Goa em 1771, dando como exemplo um dos ritos pagãos ganho pelos cristãos da convivência com os muçulmanos, o da celebração festiva da primeira menstruação de uma moça. 

Mercadores cristãos, com exércitos privados, vão ocupando pontos importantes ao Norte, logo depois ao Sul do rio Limpopo. Sem resultados na economia, sai esta Capitania da dependência do Estado da Índia em 1752. Agora, com um Governador-Geral, vai chamar-se Capitania Geral de Moçambique, Sofala e Rios de Sena.

A Sul, a baía de Lourenço Marques, nome do primeiro navegador português a fazer profundo reconhecimento em 1544, passara a ser frequentada por ingleses, franceses, holandeses e até austríacos pois era aqui próspero o negócio do marfim. Por esta altura, o militar Joaquim Araújo nomeado Governador para Lourenço Marques, inicia a expulsão da presença estrangeira. Constrói ele o forte chamado de Nª Sra. da Conceição. No início de 1800, os vátuas, uma tribo aguerrida vinda do Sul, criará um império com o nome de Gaza. Era tempo de enquadrar guarnições militares e levantar instituições de um governo colonial. A criação deste governo era um trabalho que se afigurava difícil, pois em vilas importantes como Quelimane, Sena, Tete, Manica e outras, a população considerada civilizada, era reduzida e constituída por poucos portugueses europeus, muitos mulatos, indianos e negros libertos. Após o decreto de 1869, que finda a escravatura em todo ultramar, esta ainda se mantinha disfarçada em Moçambique, sob o nome de “engajado”. 

Em 1878 as companhias estrangeiras, interessadas nas matérias-primas constituem grandes exércitos de “achicundas” (escravos-guerreiros) e assim vão dominando vastas regiões e explorando os seus recursos. Em 1885 já tem a designação de Província. Em 1894, os alemães vindos da sua colónia de Tanganica ocupam o território de Quionga junto ao rio Rovuma. Serão muitos os combates, sendo o maior o de Negomano, onde os portugueses e a sua tropa landim são derrotados. Em 1919 retiram-se os alemães. 

No Sul é agora rei dos vátuas, Gungunhana. Este assina em 1886 um tratado de amizade e submissão com Portugal. Por este tratado Gungunhana ganhou honras de coronel de 2ª linha, com direito ao uso da farda; mas devido à sua revolta, é despromovido para 2º sargento. A inconstante fidelidade e revolta armada levam à sua prisão, por Mouzinho de Albuquerque. Gungunhana e familiares são exilados inicialmente para Portugal e depois para os Açores. Aqui é batizado de Reinaldo Frederico Gungunhana e aprende a ler e escrever. 

A povoação de Lourenço Marques que se inicia com 16 portugueses, torna-se vila em 1876; carenciada de tudo, pois só vem um barco por ano, não tinha médico, e, quem adoecesse era tratado por um curandeiro landim que recebia uma capulana por cada um dos curados. Vai tornar-se cidade em 1887, mudando-se para aqui a capital em 1898. No Norte, nas primeiras décadas do século XX, já se controlam efetivamente as regiões do Niassa, Zambézia e Cabo Delgado.  

Em 1963 inicia-se a luta armada contra o regime português. Lisboa procura evitar o pior e qual sinal de um futuro diálogo, chama-lhe em 1964 de Estado de Moçambique. Não resultou. Este torna-se independente em 1975.

[Bibgª.: A. Lobato, R. Martins, M. Newitt, A. Silva, M. C. Vilhena. Por decisão pessoal, o autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico].

Opinião por, Cândido de Azevedo

Etiquetas Relacionadas:

Notícias relacionadas