Todos os anos a história repete-se: chega março, os dias ficam mais compridos, as flores aparecem… e os consultórios enchem-se de narizes entupidos e olhos a lacrimejar. Muitas pessoas dizem «sou alérgico à primavera», como se a estação tivesse culpa direta no assunto. Na realidade, a primavera é apenas o contexto; os verdadeiros responsáveis são pólenes específicos, que surgem em certas alturas do ano e desencadeiam sinais e sintomas em quem é sensível.
No topo da lista estão as gramíneas. Não são plantas raras nem exóticas: estão nos campos, nas bermas de estrada, nos jardins e em terrenos ao abandono, ou seja, por todo o lado. A polinização começa habitualmente no final de março, atinge o pico entre abril e junho e pode prolongar-se até ao início do verão. Nesse período libertam partículas microscópicas, invisíveis a olho nu, mas com grande impacto clínico, causando espirros, obstrução nasal, comichão nos olhos e, em alguns casos, tosse e pieira. Para muitos doentes, são as gramíneas que definem a fase mais intensa da alergia primaveril.
Logo a seguir surge a oliveira, especialmente relevante nas regiões centro e sul do país. A sua polinização ocorre sobretudo entre maio e junho, muitas vezes a coincidir com o final do pico das gramíneas. Isto faz com que o período de sintomas se prolongue, dando a sensação de que a alergia «não passa». Em zonas com muitos olivais, a oliveira pode ter um impacto tão importante como o das gramíneas.
Há ainda um conjunto de plantas herbáceas, como a parietária, o plantago e a artemísia, muito comuns em meio urbano e à volta das habitações. Estas plantas têm períodos de polinização mais longos, que podem ir da primavera até ao final do verão. Em vez de causarem queixas intensas concentradas em poucas semanas, tendem a provocar um desconforto mais persistente, com variações ao longo do tempo.
Entre as árvores, espécies como a bétula, alguns carvalhos ou a azinheira podem ter relevância em situações específicas, sobretudo em pessoas com várias alergias em simultâneo. O plátano merece, no entanto, uma referência especial, por ser muito frequente nas cidades. Durante um curto período da primavera, pode libertar pólen em quantidades suficientes para provocar sinais e sintomas em pessoas sensibilizadas, sobretudo quando coincide com outros pólenes em circulação.
Muitas pessoas culpam o plátano pelas alergias da primavera, sobretudo porque veem «coisas a voar» no ar. Na verdade, o pólen desta árvore é microscópico e invisível; o que se observa são sobretudo fibras e fragmentos vegetais, que podem irritar olhos e vias respiratórias, mas não explicam, por si só, uma alergia verdadeira. Aqui entra o «mito do plátano»: em Portugal, os grandes responsáveis pelas alergias respiratórias sazonais continuam a ser as gramíneas e a oliveira. O plátano pode contribuir, principalmente em meio urbano e em pessoas já sensibilizadas, mas raramente é o principal culpado da história, apesar de ter boa visibilidade mediática.
Fatores como o clima e a poluição influenciam todo este processo. Primaveras mais quentes podem antecipar e prolongar as épocas de pólen. Anos secos e ventosos aumentam a dispersão e a permanência de pólen no ar. A poluição pode ainda modificar os grãos de pólen, tornando-os mais inflamatórios e agravando a sintomatologia.
Em resumo, a chamada «alergia à primavera» é, na maioria dos casos, uma resposta do sistema imunitário a pólenes concretos, sobretudo de gramíneas, oliveira e algumas plantas herbáceas. O plátano entra na história, principalmente nas cidades, mas o seu peso é, muitas vezes, bastante menor do que aquilo que a perceção popular leva a acreditar.
Opinião
David Pina Trincão











