Designam-se por infeções urinárias todas as infeções que afetam o trato urinário. Assumem denominações particulares consoante a sua localização: a pielonefrite atinge o rim, a cistite a bexiga e a uretrite a uretra. Na sua maioria são provocadas por bactérias e, cerca de 85 a 90% destas, são provocadas pela Escherichia coli. Afetam 8,4% das meninas e 1,7% dos rapazes com idade inferior aos 7 anos de idade. Embora possam ocorrer em todas as idades, são mais frequentes na fase do desfralde.
Os sintomas de apresentação variam com a idade e com a localização da infeção. Bebés até aos 3 meses podem apresentar febre, vómitos, icterícia, recusa alimentar, irritabilidade ou incapacidade de ganhar peso. A cistite costuma apresentar-se com sangue na urina, urina turva ou com cheiro fétido, dor, ardor ou urgência a urinar e dor na região inferior do abdómen. A pielonefrite cursa, normalmente, com febre, dor abdominal ou na região lombar, vómitos, ou outros sintomas gerais. A febre é o sintoma de apresentação mais frequente da pielonefrite abaixo dos 2 anos de idade.
O diagnóstico de uma infeção urinária exige a realização de uma análise específica de urina, a urocultura. Esta, para além de identificar a bactéria responsável pela infeção, permite conhecer o antibiótico mais adequado para a tratar. A colheita dessa urina deve ser feita após uma limpeza prévia da região genital e o primeiro jato deve ser desperdiçado. Estas medidas evitam a contaminação da urina por bactérias oriundas da pele e, consequentemente, um falso diagnóstico. Deve ser colhida no laboratório onde vai ser realizada e entregue de imediato. O método da colheita depende da idade da criança. É mais difícil de obter nas crianças que ainda usam fralda e, por isso, deve ser orientado pelo médico que a solicita.
O resultado dessa análise não será conhecido de imediato. Contudo, isso não inviabiliza o início da terapêutica empírica, que será posteriormente reajustada ao antibiótico identificado na urocultura. O tratamento precoce e atempado evita o agravamento clínico e diminui o risco de sequelas renais. O diagnóstico definitivo permite orientar adequadamente cada situação.
Num número de reduzido de crianças, as infeções urinárias de repetição podem ser reveladoras de doença subjacente que deve ser investigada. A realização de uma ecografia pode ser esclarecedora, mas normalmente é insuficiente, pelo que pode ser necessário realizar exames radiológicos mais específicos e dirigidos.
Na maioria das situações, as causas das infeções urinárias são manipuláveis e passíveis de intervenção. Destas, destacam-se: a obstipação, os maus hábitos de higiene, o uso de roupa inadequada, as manobras de retenção de fezes e urina, assim como o início da vida sexual ativa nas jovens adultas.
A obstipação pode ser combatida com uma alimentação saudável e com exercício físico; os legumes e as frutas acidificam a urina, tornando-a um ambiente hostil à proliferação das bactérias.
Por outro lado, é importante beber muita água, enquanto as bebidas açucaradas, gaseificadas e estimulantes devem ser evitadas. Casas de banho limpas e seguras nos locais frequentados pelas crianças são indispensáveis para que elas não se inibam de as utilizar. As crianças devem urinar cerca de 5 a 6 vezes por dia e devem ter uma dejeção diária de fezes moldadas e não endurecidas. Não devem reter fezes nem urina sempre que sentirem vontade, pelo que a ida à casa de banho nunca lhes deve ser vedada. Devem sentar-se confortavelmente na sanita ou no bacio, com os pés apoiados, para que consigam esvaziar totalmente a bexiga em cada micção realizada. Devem urinar antes de dormir e retirar a fralda logo que a sua maturidade o permita.
As roupas íntimas devem ser de algodão e não devem ser muito apertadas. A limpeza dos genitais deve ser direcionada da frente para trás, especialmente nas meninas, sem recurso a produtos humedecidos. Se as infeções surgem com o início da vida sexual ativa, é recomendável que a jovem urine depois das relações sexuais.
Hábitos de vida saudável contribuem para a promoção da saúde e previnem doenças, nomeadamente as infeções urinárias.
Teresa Gil Martins
Médica pediatra












