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Entrevista

“Foi uma ótima surpresa ganhar o prémio”

Por: Daniel Cepa 31 de Dezembro, 2025 2 Minutos de Leitura

Romina Henriques está na África do Sul desde 2013. Recentemente, venceu o Exceptional Young Achiever Award e esse foi o mote para uma grande entrevista em que fala das raízes almeirinenses e dos desafios que o planeta atravessa com as alterações climáticas.

Recentemente, venceu o Exceptional Young Achiever Award. Que significado tem vencer este prémio?

Este prémio é o culminar do trabalho desenvolvido nos últimos quatro anos, desde que comecei a trabalhar na Universidade de Pretória. Recebê-lo significa o reconhecimento não só do meu trabalho, mas também do trabalho do grupo e dos meus colegas. Foi uma ótima surpresa!

De que se trata este trabalho vencedor?

Não é um trabalho em específico, mas sim o acumular de toda a atividade científica e académica desenvolvida enquanto docente na Universidade de Pretória. Ultimamente, o grupo tem estado focado em genómica pesqueira e das alterações climáticas, no sul de África.

Neste grupo de trabalho estão 14 elementos. Presumo que exista uma diversidade de membros e, se calhar, até nacionalidades?

Sim! Somos 14: homens, mulheres, sul-africanos, namibianos, franceses e ingleses. É a vantagem de trabalhar num país altamente diversificado e com um dos melhores sistemas marinhos do planeta.

O seu pai, com o orgulho natural de quem aprecia os feitos das filhas, partilha algumas vezes os seus trabalhos. São pais muito orgulhosos?

Suponho que sim, mas acho que isso deverá ser perguntado aos meus pais (sorrisos).

Pode recordar-me o percurso académico. Quando e porquê decidiu depois sair de Portugal?

Eu fiz a licenciatura na Universidade de Lisboa em Biologia Ambiental aplicada aos Recursos Marinhos em 2006. De seguida, concluí um Mestrado em Biologia da Conservação, também pela Universidade de Lisboa. Enquanto estava a concluir o Mestrado, comecei a procurar doutoramentos, e encontrei um sobre Genética Populacional de espécies pesqueiras na Corrente Fria de Benguela, no Royal Holloway University of London, Inglaterra. Saí de Portugal, pela primeira vez, em Janeiro de 2008 para começar o doutoramento em Inglaterra, e voltei em 2012, quando o acabei e mesmo a tempo para a crise financeira e o desinvestimento em ciência em Portugal. Ainda trabalhei a contrato no Instituto de Psicologia Aplicada (ISPA), a dar aulas de biologia e a fazer investigação a contrato em 2013, mas a situação científica em Portugal estava tão complicada que acabei por voltar a sair em 2013, desta vez para a África do Sul, para dois programas pós-doutorais, primeiro na Rhodes University (Grahamstown) e depois na Stellenbosch University (Stellenbosch). Aqui, acabei por me especializar em genómica pesqueira e tive a oportunidade de dar aulas, orientar alunos e concorrer a projetos de investigação. Em 2017, consegui um projeto na Technical University of Denmark, para aprofundar os meus conhecimentos de genómica populacional e museómica, e acabei por ficar na Dinamarca até 2021, quando voltei para a África do Sul, como Senior Lecturer na University of Pretoria.

E o porquê do destino: África do Sul?

Tudo começou com o meu doutoramento na Corrente Fria de Benguela, onde o trabalho que realizei demonstrou o potencial deste sistema oceanográfico em modelar a história evolutiva de espécies marinhas. A África do Sul está na confluência da Corrente Fria de Benguela e da Corrente das Agulhas, que é uma corrente tropical. Cria-se, assim, um gradiente de condições oceanográficas que influencia a distribuição e evolução das espécies marinhas. A África do Sul é também um dos pontos mais vulneráveis para as alterações climáticas, o que terá consequências também para a evolução das espécies locais. Além do mais, apesar de todos os outros problemas de um país que só conheceu a democracia em 1994, continua a haver investimento em ciência, e um reconhecimento de que a biodiversidade é fundamental para o desenvolvimento socioeconómico do país.

Que memórias tem de Almeirim?

Eu continuo a ir a Almeirim pelo menos uma vez por ano, portanto, as memórias continuam a fazer-se. E as melhores não são para ser partilhadas no meio público, mas com amigos e família.

Será possível um dia regressar ou será só depois na reforma?

Depende das condições de trabalho. Não teria saído de Portugal se o investimento na ciência tivesse continuado, como era durante o Ministério do Dr. Mariano Gago. Mas com as atuais políticas de desinvestimento na ciência e nas universidades, fica mais complicado.

Como acompanha a vida do concelho?

Através de pais, amigos, família, Facebook. Não estou desligada de Almeirim, de todo. Estou só imigrada. 

Romina Henriques, a investigação centra-se na forma como as espécies marinhas se adaptam às alterações ambientais. Que mudanças estão realmente a acontecer?

Estamos a assistir à maior redistribuição de espécies, num período de tempo verdadeiramente curto. Estamos a aumentar a temperatura, a acidez, o nível de ruído, a quantidade de poluição dos oceanos, e as espécies marinhas levaram milhões de anos a desenvolver mecanismos de adaptação às condições. Agora, tudo muda numa questão de décadas.

O seu trabalho é em terra e mar?

Sim, o trabalho de amostragem pode ser na praia ou em mar alto, mas é geralmente feito por colaboradores no Ministério das Pescas ou na indústria pesqueira. Depois o trabalho de laboratório e a análise de dados é feita na Universidade de Pretória

Que episódios curiosos pode partilhar com os nossos leitores nesse trabalho mais prático?

Saídas de campo para recolher amostras são talvez uma das melhores partes do meu trabalho. Ser parada pela polícia porque estávamos três mulheres a arrastar redes de emalhar na praia, e os policiais acharam que estávamos com problemas, porque a água era extremamente fria e ninguém no seu perfeito juízo estaria dentro dela. Ou perdermo-nos no deserto porque havia um sinal para a esquerda com o nome da terra onde queríamos ir, só que não. E entretanto, estávamos a ficar sem combustível. Foi uma maravilha de dia. 

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