O portão está aberto. Do lado de dentro, há árvores de fruto, uma horta e animais do campo. Os cães vêm receber quem chega e, mais ao fundo, estão os cavalos, os protagonistas neste espaço, que ajudam as crianças a aprender a lidar com as emoções. No Dom Pequenote, uma quinta-escola em Almeirim, a rotina tem regras, mas a magia acontece todos os dias.
João tem sete anos e começa a aula como sempre aprendeu: “com licença”. A expressão repete-se sempre que entra no picadeiro. Para muitas crianças, é um detalhe. Para João, que tem autismo, é uma conquista. Cada rotina, cada gesto, cada regra faz parte de um objetivo maior, dar-lhe independência e confiança.
Antes de montar, João prepara a égua Tecla. Vai buscá-la às cavalariças, segura a corda com firmeza e conduz-la até ao picadeiro. Dá algumas voltas com ela, reconhece o espaço, acalma-se. Só depois sobe. Já o faz quase sozinho. Em cima da Tecla, começa uma nova aula, centrada na regulação emocional, na tolerância à frustração e na construção da autonomia.
A professora Inês Mota Ferreira acompanha cada passo. Fundadora do projeto, explica que o trabalho ali é progressivo. “Somos uma escola de equitação. Começamos pela iniciação ao pónei, depois o volteio e, mais tarde, a sela. Paralelamente, fazemos serviços assistidos com animais”, explica. Estes serviços vão muito além de montar a cavalo. “Procuramos relaxamento, tranquilidade, mais tolerância e mais resiliência face às frustrações do dia-a-dia. Trabalhamos responsabilidades e tarefas que depois lhes dão autonomia noutras áreas da vida”, refere.
Na aula de João, a comunicação acontece, sobretudo, sem palavras. Inês utiliza um dossier com cartões de comunicação alternativa, com imagens e palavras-chave que João aponta para responder. Algumas dessas palavras são depois copiadas para uma ardósia, num exercício que treina o movimento da mão e a coordenação com a caneta. Gestos aparentemente pequenos, mas essenciais.
Seguem-se os jogos interativos. Pelo picadeiro estão espalhadas imagens de frutas. João tem de identificá-las, deslocar-se até elas e cumprir instruções. Depois, João realiza exercícios de equilíbrio e coordenação, sempre com atenção aos movimentos e à postura sobre a Tecla. Ao longo da sessão, Inês Mota Ferreira cria pequenas situações de conflito, esperar, interromper, alterar a sequência, para que João aprenda a lidar com adversidades. “A vida é feita disto”, explica. “Eles têm de aprender a esperar, a tolerar, a reagir”, conta.

No final da aula, João desmonta e arruma todo o material. Nesse dia, há ainda um momento especial, pela primeira vez, consegue tirar sozinho as caneleiras da Tecla.
Cátia Malheiros, mãe de João, acompanha tudo de perto. Chegou ao Dom Pequenote há oito meses, depois de três anos em terapias convencionais. “Eu estava cansada e desesperada. Não via resultados”, menciona. Logo no primeiro dia percebeu que algo era diferente. “O João não queria aproximar-se do cavalo e a Inês levou a que ele o fizesse. Quebrou-se ali uma barreira, ele adorou”, explica a mãe de João.
Mais do que os cavalos, foi a abordagem que mudou tudo. “Eu tinha uma visão muito de ‘coitadinho’, porque ele não fala. A Inês mostrou-me que não falar não é desculpa para não haver regras”, afirma. Hoje, enumera conquistas que antes pareciam impossíveis: tolerar a espera, sair à rua sem crises, comunicar com cartões, imitar movimentos e responder quando é chamado.
“Ele não comia com garfo e faca”, lembra. “Foi a Inês que trabalhou muito a coordenação. Hoje come com garfo e faca, veste-se sozinho”, conta Cátia Malheiros. As sessões são agora quatro vezes por semana.
“Muita gente diz que os cavalos fazem milagres. Não fazem. O cavalo é calmo, ajuda, mas quem faz o trabalho é a Inês, com consistência”, sublinha.
Para Inês Mota Ferreira, o ambiente é decisivo. “É uma atividade ao ar livre, no meio da natureza, com animais. O estímulo é completamente diferente. Estar a mexer num ser vivo, com pelo, que dá calor, é um reforço muito positivo”, admite a fundadora do projeto, com convicção. Ainda assim, não ignora os desafios.
“A maior dificuldade é a falta de regras no dia-a-dia destas crianças. Todos têm capacidades, têm é de ser trabalhadas”, explica.
A inclusão é um princípio base no Dom Pequenote, durante todo o ano. “Aqui não há diferenças. Somos todos iguais, cada um com as suas características”, afirma a professora.
Este lema é confirmado por Mileta Gomes, que frequenta o espaço em família com os seus dois filhos, Lucas e Tomé, de 11 e 14 anos.
“O meu filho mais velho está aqui desde os seis anos. São oito anos de crescimento”, conta, sorrindo ao lembrar as primeiras experiências.
Para esta mãe, o Dom Pequenote não é apenas um espaço de equitação, é uma extensão da casa, um lugar onde os filhos aprendem responsabilidade, disciplina e contacto com a natureza.
“Mais do que montar, eles aprendem a cuidar, preparar o cavalo, aparelhar, arrumar o material, tratar dos animais. É uma aprendizagem que vai muito além da técnica, envolve atenção, paciência e colaboração”, explica.
Mileta Gomes sublinha o impacto que este contacto constante com o mundo rural e os animais tem no desenvolvimento das crianças. “São capacidades que não se adquirem noutros sítios, longe dos ecrãs, em contacto com a natureza. Aqui eles aprendem a esperar, a organizar-se e a lidar com imprevistos. Aprendem também a partilhar, a ajudar e a valorizar o esforço próprio e dos outros”, destaca.
Além disso, a mãe de Lucas e Tomé valoriza o caráter familiar do espaço.
“Nós próprios podemos participar nas atividades, e isso fortalece laços. O ambiente aqui é colaborativo e resulta num crescimento conjunto, que se reflete fora do picadeiro, na forma como se comportam em casa e na escola”, refere.
No Dom Pequenote, as crianças não vêm só brincar. Vêm aprender a fazer, a interagir e a conquistar pequenas vitórias diariamente, “constroem-se resultados que saem do picadeiro e entram na vida”, conclui Inês Mota Ferreira.












