Ao longo de 15.934 dias, António José Sousa serviu a comunidade como bombeiro durante mais de 43 anos. Um percurso feito de entrega, profissionalismo e profundo sentido de missão.
Porque é que decidiu entrar nos bombeiros em 1981?
Por influência de familiares. O meu pai já era bombeiro e o meu tio também. Além disso, fui ainda influenciado pelo atual segundo comandante do quadro de honra, Diamantino Santos, após um exercício realizado pelos Bombeiros Voluntários de Almeirim na altura do aniversário da corpotação. Ele levou-me e inscreveu-me imediatamente como bombeiro. A partir daí, tudo se desenrolou naturalmente.
Na altura, imaginava que ia ficar 43 anos nos bombeiros?
Não, na altura não imaginava. Mas com o passar dos anos, o “bichinho” começou a mexer cá dentro e fui gostando cada vez mais. Hoje, os bombeiros são a minha segunda casa. Tenho muitos amigos, e mesmo no quadro de honra, todos os bombeiros são meus amigos e pedem-me para que eu vá ao quartel todos os dias.
Que momentos destaca como mais felizes?
Tive muitos momentos felizes, embora alguns deles tenham começado de forma menos positiva. Um exemplo marcante foi quando transportei uma filha de um amigo meu até ao hospital em Lisboa, carregando-a em cima do meu corpo. Dez anos depois, essa rapariga, que agora já é uma senhora e tem um filho, veio conhecer-me, e fiquei muito feliz.
Também terá tido momentos menos bons, quer falar um pouco sobre eles?
Sim, houve momentos difíceis. Um deles foi o incêndio na Chamusca, onde morreram cinco elementos dos bombeiros. Mas os dois episódios mais tristes da minha vida foram a perda do meu avô, que morreu nas minhas mãos, e de uma prima minha. Esses foram, realmente, momentos muito dolorosos.
O quanto evoluiu a corporação em termos humanos e de viaturas?
Em termos humanos, eu costumo dizer que muitos são sempre poucos. Mas continuo a apelar a quem gosta de servir o próximo para que se inscreva nas recrutas e venha para os bombeiros, porque é uma experiência bonita. Além de gratificante, é saudável perceber que se está a ajudar os outros. Só no fim de uma intervenção é que se sente verdadeiramente a importância de servir. Se os bombeiros estiverem sempre no quartel, é sinal de que tudo está bem, não há ocorrências, tudo está tranquilo.
O que é que falta, neste momento, nos bombeiros voluntários de Almeirim?
Faltam sempre mais elementos humanos à corporação. Apesar disso, a direção garante que nada falte aos elementos do corpo ativo. No entanto, há sempre algo que falta, e toda ajuda é bem-vinda. Quando recebemos recursos novos, não é para nós, é para melhor servir a população.
Por que decidiu sair?
Decidi sair porque, após um acidente de trabalho, não me sentia em condições de continuar. Tinha limitações de mobilidade e percebi que não conseguia desempenhar as funções que mais gostava. Foi uma decisão do género “tem que ser agora, porque não consigo mais”. A minha família apoiou-me, especialmente a minha mulher e os meus filhos, mas eu sabia que já não conseguia ajudar da forma que queria.
Já sente saudades?
Saudades, eu sinto muitas, na parte do ativo. Porque em relação à corporação em si, estou presente todos os dias. Eu paro no quartel dos bombeiros todos os dias. Sou muito bem recebido e só não vou lá mais vezes porque não posso. Todos eles são meus amigos. Gosto muito de lá estar, gosto de estar dentro daquelas paredes.













