Durante décadas, o basquetebol viveu em Portugal à sombra do futebol, com pavilhões cheios de paixão mas pouca projeção lá fora. Esse tempo parece estar a chegar ao fim. Entre um campeão da NBA nascido em Lisboa e uma seleção que escreveu história no último Europeu, a modalidade atravessa o melhor momento de que há memória, e o entusiasmo já se sente dos grandes pavilhões aos escalões de formação espalhados pelo país, Ribatejo incluído.
O efeito Neemias Queta
Tudo mudou quando um miúdo formado no Barreirense se tornou, em 2021, o primeiro português de sempre a ser escolhido no draft da NBA. Neemias Queta não se ficou pela estreia: em 2024 sagrou-se campeão da liga norte-americana ao serviço dos Boston Celtics, tornando-se o primeiro jogador nacional com um anel de campeão da NBA. O poste de 2,13 metros percorreu um caminho improvável, da formação portuguesa ao basquetebol universitário americano e daí ao topo absoluto da modalidade. Para uma geração inteira de jovens jogadores portugueses, deixou de ser um sonho impossível ver um compatriota a disputar títulos ao mais alto nível mundial.
Do pavilhão para os ecrãs, e para os mercados
O crescimento do interesse mede-se também fora do campo. As transmissões da NBA e das principais ligas europeias ganharam audiência em Portugal, e com elas cresceu a curiosidade por uma dimensão que os adeptos de futebol já conheciam bem: os mercados de prognósticos. Nas secções de apostas em basquete das plataformas internacionais, as opções vão muito além do simples vencedor do jogo: há linhas de pontos totais, handicaps e mercados individuais, como o número de pontos ou ressaltos de um pivô ao longo da partida. Convém sempre lembrar que as cotações traduzem probabilidades estimadas pelas casas, mudam constantemente e não garantem resultado algum; para quem acompanha a modalidade, funcionam sobretudo como mais uma forma de ler o jogo.
Um EuroBasket para contar aos netos
O verão de 2025 ficará na história da modalidade. Em Riga, na fase final do EuroBasket, Portugal estreou-se com uma vitória por 62-50 frente à Chéquia, a primeira da seleção na prova em 18 anos, com uma exibição monumental de Queta: 23 pontos, 18 ressaltos e 4 desarmes de lançamento, tornando-se o primeiro jogador com mais de 20 pontos e 15 ressaltos numa estreia no Europeu desde que a FIBA regista ressaltos, como destacou a cobertura oficial da NBA. Dias depois, num jogo decisivo frente à Estónia, Rafael Lisboa empatou com um triplo nos instantes finais e converteu os lances livres da vitória, 68-65, selando um apuramento inédito para a fase a eliminar. Num grupo que incluía a Sérvia de Nikola Jokic, a Turquia e a Letónia anfitriã, a equipa das quinas mostrou que já não vai aos grandes palcos apenas para cumprir calendário.
A onda chega à formação
O impacto destes feitos sente-se onde ele mais importa: nos escalões jovens. Clubes de todo o país relatam mais procura nas camadas de formação, e as camisolas verdes e brancas dos Celtics tornaram-se presença habitual nos recintos escolares. A receita não é nova, o futebol português conhece-a bem: um ídolo global inspira, a televisão aproxima, e os pavilhões enchem-se de miúdos a imitar os gestos que viram no ecrã. Para as coletividades ribatejanas, habituadas a fazer muito com pouco, este ciclo virtuoso é uma oportunidade rara de captar novos praticantes, novos sócios e novas famílias para as bancadas. E o exemplo de Queta tem um detalhe que fala diretamente a estas coletividades: o campeão da NBA não saiu de uma academia milionária, saiu de um clube de bairro do Barreiro, e o seu percurso completo, documentado no perfil oficial da FIBA, é a prova de que o talento pode nascer em qualquer pavilhão do país, incluindo os desta região.
Acompanhar com entusiasmo e com conta, peso e medida
Como em qualquer modalidade em crescimento, o envolvimento dos adeptos ganha formas diferentes: há quem jogue, quem treine os filhos, quem colecione camisolas e quem goste de arriscar um prognóstico nos jogos da NBA ou do Europeu. Para estes últimos, a regra do lazer consciente é simples e libertadora: definir com antecedência o valor mensal destinado ao entretenimento, encarar eventuais ganhos como um bónus e nunca como rendimento, e aproveitar as ferramentas de limites que as plataformas disponibilizam. A atividade é reservada a maiores de 18 anos, e é com essa maturidade que melhor se desfruta dela: como um condimento do espetáculo, nunca como o prato principal.
O melhor ainda está para vir
Com Queta consolidado na rotação de uma das equipas mais tituladas da NBA e uma geração de seleção que provou pertencer à elite europeia, o basquetebol português tem pela frente anos de crescimento. O apuramento para a fase a eliminar de um Europeu deixou de ser miragem para passar a ser fasquia, e cada jogo transmitido é uma montra para os talentos que aí vêm. Do TD Garden de Boston aos pavilhões de Almeirim e de todo o Ribatejo, a bola laranja está a quicar mais alto do que nunca, e há muito boa razão para acreditar que este é apenas o princípio da subida. Aos adeptos, resta o melhor dos papéis: acompanhar, aplaudir e fazer crescer a onda.












