Foi apresentado, no dia 25 de julho, no Café Titanic, em Almeirim, o romance “Esperança Perdida”, livro de estreia de Lucinda Maria da Costa. Aos 68 anos e já reformada, a autora dedicou mais de quatro décadas a crianças, muitas delas com necessidades especiais, com passagem pela Escola Febo Moniz e pela Secundária Marquesa da Alorna. Nesta entrevista, fala do processo de escrita, da inspiração que encontrou no mar, da experiência profissional que a moldou e do que há de si própria nas páginas do livro.
Como foi a experiência de escrever o primeiro livro?
Foi a minha primeira vez a escrever com este propósito. Foi em Faro, junto ao mar, que encontrei a inspiração mais profunda para aquilo que escrevi.
Fale-nos um pouco sobre o livro.
É um livro que procura o encontro com as pessoas, com as suas ideias, a sua imaginação, o seu sofrimento. Assumi, desde logo, a influência de Nicholas Sparks, autor de sentimentos à flor da pele. É isso que também pretendo transmitir.
Quer que os leitores se revejam nessa influência?
Quero que, ao lerem o livro, as pessoas não fiquem apenas na superfície da história, mas se deixem levar pela imaginação e que, através dela, cheguem tanto até mim, a autora, como ao outro escritor que me inspirou. Ele é, de certo modo, o meu símbolo.
É um livro de experiência pessoal, ou mais de experiência emocional?
As duas coisas. Há nele emoção construída a partir de um percurso de vida mais longo, feito de episódios de vida. Mas está lá tudo, em essência.
Trabalhou quarenta e dois anos com crianças, os últimos com crianças com necessidades especiais. O que lhe trouxe essa experiência?
Os primeiros anos foram, sobretudo, profissionais a conviver com crianças e adultos, a pensar no futuro. Depois vim a trabalhar com crianças com necessidades especiais como a trissomia 21 e o autismo, e confesso que, no início, senti receio: era uma área pouco comum na escola, e ainda se sabia pouco sobre autismo e sobre como lidar com cada criança na sua diferença. Cheguei a duvidar de mim, mas nada como tentar. E assim fiz.
Lembro-me, em particular, de uma menina com quem passei dois anos. Era uma criança difícil, que chegava a bater no pai, mas que, junto a mim, se acalmava só com o olhar e a palavra. Mostrava-lhe que a vida exige superação, que gritar não basta. Isso deu-me uma força imensa: quando olhava para ela, dizia-lhe simplesmente “anda, vamos, temos de seguir”. Havia dias em que se deitava no chão, e eu deitava-me a seu lado.
São experiências que tornam as pessoas melhores. Quem não tem sentimento, não pode cuidar destas crianças que muitas vezes não falam o que sentem, mas conseguem “falar” emoções através do comportamento. Cabe-nos ler-lhes o olhar, não as rotular, e ir ao encontro daquilo que trazem dentro de si. Foi isso que me motivou, dia após dia.
Já está reformada?
Sim, com sessenta e oito anos.
Foi só agora, com mais tempo livre, que decidiu escrever?
Não. O livro começou a nascer ainda antes disso. Sou uma pessoa reservada e sempre hesitei antes de avançar com qualquer projeto. A meio da escrita, cheguei a pensar que talvez nunca o publicasse. Mas quando me diziam “já fizeste o trabalho todo, vais guardá-lo só para ti?”, isso movia-me por dentro e decidi que seria diferente desta vez.
Como construiu a história a partir da sua própria vida?
Não quis limitar-me à parte que me motivou, junto ao mar em Faro. Foi preciso ficção, alterar factos, juntar ideias próprias, imprimir um pouco de mim em cada linha. A personagem principal sou eu, isso será evidente para quem ler. É ficção, mas com raízes na vida real, ainda que nem tudo o que vivi tenha entrado no livro. A certa altura, é preciso cortar e dar seguimento à narrativa, foi o que fiz.
A escrita sempre fez parte da sua vida?
Sempre, mas nunca de forma desenvolvida, digamos assim. Escrevia só para mim, sem o incentivo de ninguém. Por vezes pensava: com tantos escritores, para quê mais um livro? E desistia. Mas, ao pegar neste projeto, decidi que iria até ao fim e procuraria uma editora. A minha filha sugeriu que o guardasse só para mim; respondi-lhe que não escrevia para mim, mas para mostrar que era capaz, não por querer ser escritora, mas por querer partilhar as minhas ideias.
Encontrou obstáculos pelo caminho?
Sobretudo a incerteza sobre publicar, e a necessidade de provar a mim mesma que era capaz. Vivi esse processo sozinha; os dois anos que levou a escrever serviram também para me preparar mentalmente até ao fim.
A ideia amadureceu com uma viagem a Faro e à ilha Formosa. Gostei profundamente da experiência e ali encontrei um conforto que me deu força para chegar ao fim. Esse apoio foi, muitas vezes, o do meu companheiro, a quem o livro é dedicado. Foi ele quem me deu força e valorizou o meu trabalho.
Quanto tempo previa levar a escrevê-lo?
Pensei em três meses, acabaram por ser dois anos.
Fale-nos do romance. A protagonista vê as filhas a ganhar independência e fica sozinha. Há vida para além dos filhos? Pode uma mulher apaixonar-se de novo?
Para mim, uma mulher, seja qual for a sua vida, nunca deve desistir, com filhos ou sem eles, com ou sem dificuldades. Não deve pensar-se perdida, sem nada por onde continuar. Deve acreditar que é capaz.
Se não lutarmos, ficamos à espera de que outros nos ajudem. E essa espera pode sair frustrada. Mas é preciso contar com a nossa própria força e foi isso que procurei ao longo de toda a vida. Luta-se pelo trabalho, luta-se para criar os filhos; e quem tem outra vida além disso não a perde, ganha antes mais coragem para enfrentar tudo. A esperança nunca está perdida; pode sempre ser alcançada.
E o desfecho da história? Não é propriamente o final que se espera a meio do livro…
Há um reencontro da personagem consigo própria e esse reencontro, feliz, acontece precisamente no mar. É aí que ela reencontra também esse homem que sempre procurou, apesar da vida dedicada às filhas e ao trabalho: nunca deixou de procurar o amor.
Encontra-o, entrega-se-lhe de corpo e alma, e é correspondida mas há sempre uma distância entre os dois, que ele nunca consegue vencer. Essa distância vem de um amor que ele nunca esqueceu, um amor que, tal como o mar, fazia parte da sua vida e permanece nele. A personagem Amélia encontrou a sua felicidade e ele foi no mar que, finalmente, encontrou a sua .
Vai continuar a escrever?
Sim, mas o próximo livro exigirá mais tempo de escrita. É um projeto diferente do primeiro: nasce menos da imaginação e mais do subconsciente e está ligado ao quotidiano e à natureza. Não é ficção. Será o olhar de alguém que ama a natureza e procura pôr em palavras tudo o que vê e sente.











