Quinta-feira, agosto 13, 2026 16:32
Sociedade

Missões Familiares voltam a levar esperança e proximidade às ruas de Almeirim

Por: Inês Ribeiro 13 de agosto, 2026 2 minutos de leitura

Durante uma semana, famílias e jovens ligados ao movimento católico Schoenstatt percorreram as ruas Almeirim com o objetivo de levar companhia, alegria e fé a lares, creches, instituições e casas de pessoas em situação de maior isolamento. Este ano, o grupo chegou maior e mais confiante.

As t-shirts cor de laranja voltaram a ser presença habitual nas ruas de Almeirim. Entre os dias 2 e 9 de agosto, 81 missionários instalaram-se na cidade para mais um ano das Missões Familiares Católicas, uma iniciativa que regressa pelo segundo ano consecutivo ao concelho e que chegou em força, maior e, segundo quem participa, ainda mais otimista do que na estreia.

O grupo é composto por famílias, crianças e jovens oriundos de várias zonas do país, com idades que vão dos 5 aos 20 anos na sua maioria. Durante a semana, percorrem instituições, lares, creches, escolas, cafés e casas particulares, batem à porta de desconhecidos e sentam-se à mesa de quem os convida. O objetivo é simples, mas exigente: estar presente, ouvir, fazer companhia. Levar alegria a quem vive sozinho, animar quem está acamado, ajudar onde é preciso e aprender com quem tem mais experiência de vida.

Um movimento com décadas de história

As Missões Familiares Católicas estão ligadas ao movimento de Schoenstatt, fundado na Alemanha e presente em Portugal desde meados do século passado. “Estas missões já existem há algumas décadas”, explica Tiago Tavares, membro de uma das famílias participantes. Ele, a mulher Maria Tavares e os quatro filhos integram o grupo que este ano voltou a Almeirim, depois de uma primeira experiência no verão de 2025. “Somos um grupo de famílias que se juntam para vir passar uma semana com os seus filhos e também com vários amigos, jovens e adolescentes, numa semana para estar ao serviço de uma comunidade”, afirma.

Desde 2022 que as Missões Familiares têm levado fé e esperança a várias comunidades pelo país neste formato. Almeirim foi escolhida pela primeira vez no ano passado. Este ano, o grupo cresceu, passou de 58 para 80 participantes, e as possibilidades de intervenção alargaram-se proporcionalmente.

A presença dos missionários em Almeirim não se limita às visitas programadas. Os grupos percorrem a cidade a pé, entram nos cafés, param junto das lojas, conversam com quem passa. As t-shirts cor de laranja são o sinal de identificação escolhido para facilitar o reconhecimento e transmitir confiança. “Andamos espalhados pela cidade com estas t-shirts cor de laranja, para também nos poderem identificar e ganhar mais confiança”, conta Tiago Tavares, reconhecendo que a aproximação nem sempre é imediata. “Às vezes pode ser mais difícil tocarmos à porta, porque as pessoas, naturalmente, podem ter algum receio de abrir a desconhecidos, já não estamos tão habituados a receber desconhecidos em casa. Mas há muitas pessoas que gostam de conversar e que nos recebem de braços abertos”.

O trabalho nas instituições é igualmente intenso. O grupo tem estado presente no Lar de São José, da Santa Casa da Misericórdia de Almeirim, no CRIAL, no Centro Paroquial de Almeirim e nas creches, mas também visita pessoas em casa: doentes, idosos, cidadãos que vivem sozinhos e que foram sinalizados como podendo beneficiar de uma visita. “Passamos metade do dia a passear pelas ruas, a visitar algumas pessoas que nos foram indicadas, que vivem mais sozinhas ou que estão doentes, acamadas, e tentamos fazer um bocadinho de companhia”, descreve Tiago Tavares. “É um apoio muito simples, de relação, de conversa, e é também uma aprendizagem para nós, para conhecermos a vida das pessoas e aprendermos também com elas”.

No Lar de São José, o envolvimento foi além das visitas. Alguns dos jovens ajudaram nas tarefas do dia a dia, na cozinha, na lavandaria e a acompanhar a distribuição de refeições. “É um trabalho muito cansativo e às vezes muito invisível, das pessoas que estão nos bastidores a garantir que dezenas de idosos recebem em casa as suas refeições, que as roupas estejam lavadas. Um trabalho muito discreto, mas muito importante”, sublinha Tiago Tavares.

Uma cidade onde os vizinhos ainda se conhecem

Uma das coisas que mais marcou o grupo em Almeirim foi o tecido humano da cidade, a proximidade entre as pessoas, os laços de vizinhança que ainda resistem, os familiares que vivem perto uns dos outros. “Numa cidade um bocadinho mais pequena, como Almeirim, onde há tudo, todos os serviços, mas onde se nota que as pessoas ainda se conhecem todas, isso gera uma proximidade muito grande”, observa o missionário. “Nota-se que os vizinhos se apoiam, há muitos familiares que se mantêm a viver perto, isso é uma coisa muito difícil de encontrar em Lisboa”.

Essa proximidade faz-se sentir até nos momentos mais inesperados. “Às vezes batemos à porta de alguém e há um vizinho que diz: esses agora não estão cá'”, menciona Maria Tavares. O grupo notou ainda que a rede de apoio social local funciona de forma articulada e eficaz. “Percebemos que há vários apoios que estão bem integrados, a Santa Casa da Misericórdia de Almeirim e o Centro Paroquial, por exemplo, que prestam apoio mesmo às pessoas que estão em casa. Todos estes serviços se cruzam de uma maneira que nos parece muito boa e muito útil”.

Uma senhora acamada e uma missa diferente

Entre os momentos que ficaram gravados na memória do grupo, Tiago Tavares destaca um em particular, que decorreu a semana. Na véspera de uma missa no Lar de São José, o grupo visitou uma senhora que já conheciam do ano anterior, acamada em casa há bastante tempo, com raras oportunidades de sair. “Desafiámos se queria vir connosco a esta missa, que nós passaríamos em casa a ajudar no transporte. Até não contávamos que dissesse que sim, porque de facto está acamada há bastante tempo. Mas a senhora aderiu e ficou contente com a ideia”.

No dia seguinte, os missionários foram buscá-la, ajudaram-na a chegar ao lar e estiveram com ela durante a celebração. Na missa, a senhora reencontrou pessoas que não via há vários meses. “Foi muito bom também poder ajudar a dar um dia diferente. Foi uma coisa que aconteceu espontaneamente e que para nós foi também muito importante”, refere. 

O balanço desta segunda edição em Almeirim é claramente positivo. “Este ano creio que foi uma experiência ainda mais rica”, admite Tiago Tavares. “Por um lado porque o grupo que veio de Lisboa é maior éramos 81 pessoas, o que abriu novas possibilidades de nos desdobrarmos por mais sítios. Como é o segundo ano, as pessoas já nos conheciam melhor e nós também, quando chegamos ao lar, já nos lembramos das mesmas pessoas do ano passado. É mais rápido ganharmos confiança uns com os outros”, explica.

O missionário destaca ainda o exemplo dado pelos profissionais das instituições que os acolheram. “As pessoas que trabalham nestes lares merecem um reconhecimento enorme pela dedicação com que acompanham os idosos dia após dia. É um trabalho exigente e que nos dá um enorme exemplo de entrega. Esperamos que a presença destes jovens e crianças durante uma semana possa, também, devolver um pouco de alegria e de movimento a quem vive e trabalha nestes espaços, uma lufada de ar fresco que, acreditamos, faz bem a todos”.

Momentos abertos à comunidade

Para além do trabalho nas instituições e das visitas domiciliárias, a semana incluiu ainda momentos abertos a toda a população. No Jardim da República, o Terço Vivo e Cantata a Nossa Senhora reuniu moradores numa noite de oração e canto. No Cine-Teatro de Almeirim, foi apresentada a peça de teatro “Da Máquina ao Coração”, preparada pelos voluntários. As missas na Igreja Matriz de Almeirim contaram igualmente com a animação do grupo, tornando as celebrações mais participadas e festivas.

“Houve uma pessoa que trabalha numa das instituições que trouxe a filha para passar o dia connosco e foi muito bom conhecermo-nos mutuamente. Todos estes encontros enriquecem-nos”, reflete Tiago Tavares.

O lema desta edição: “Vem e vê” é, segundo Tiago Tavares, uma referência às palavras que Jesus dirige aos discípulos para que o conheçam, e resume bem o convite que o grupo deixa a quem ainda não conhece a iniciativa. “Procurem-nos! Ficamos muito contentes quando nos abrem um bocadinho da sua porta para nos conhecermos. Ou da sua janela”, diz, em tom de brincadeira.

As Missões Familiares Católicas regressam a Almeirim no próximo ano e levam consigo as memórias desta semana e a certeza de que a cidade cá os espera de braços abertos em 2027.

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