Entrevista

Mário Serra: Entrevista ao coordenador da formação do Tigres

Por: Redação 28 de outubro, 2026 12 minutos de leitura

O Hóquei Clube Os Tigres conta atualmente com cerca de 56 atletas até ao escalão de sub-15 e quer afirmar-se como referência regional na formação. Nesta entrevista, Mário Serra, coordenador da formação do HC Os Tigres aborda o crescimento do projeto, a captação de novos praticantes, os recursos necessários e o objetivo de preparar jovens para a equipa sénior.

Para começar, como caracteriza o atual momento da formação do HC Tigres? Que balanço faz do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido?
Começo pela segunda parte da pergunta  e explico porquê. As duas questões estão associadas. O trabalho que tem sido feito nos últimos 3 a 4 anos pela coordenação técnica do clube levou a que esta época tivéssemos definido os objetivos como uma época de afirmação!
Quando aqui cheguei deparei-me com um clube desacreditado no trabalho que devia estar a ser feito nos escalões de formação, nomeadamente na captação que não existia.
Eu e o Rui Oliveira estabelecemos objetivos, reorganizamos a secção e pusemos em prática um plano que permitiu a captação de novos atletas.

Quando assumiu a coordenação da formação, quais eram as principais prioridades e o que considera que já foi possível concretizar?
Quando assumi este projeto o objetivo imediato foi numa primeira fase, chamar alguns pais para dentro da estrutura que nos permitisse colocar a máquina a andar. Depois de criada uma equipa de 7/8 pessoas, os chamados delegados, redefinimos tarefas e dividimos trabalho.
A prioridade principal era criar condições que permitissem receber atletas e proporcionar todas as valências quer técnicas, quer estruturais que permitisse aos técnicos trabalhar no desenvolvimento do atleta e os pais acreditar no trabalho realizado. E esse trabalho, através da carolice de muita gente, agora delegados, foi conseguido.
Hoje em dia a máquina já não pára, fora de rinque á uma organização estruturada e definida através de um organograma e um modelo organizacional que já não deixa qualquer dúvida. Dentro do ringue hoje em dia a existência é máxima, o trabalho que eu e o Rui desenvolvemos é sempre em sintonia. Com a chegada do Renato, permitiu-nos também  colmatar uma lacuna que tinha na iniciação e captação de atletas.

Quantos atletas integram atualmente os escalões de formação do HC Tigres e quantas equipas estão envolvidas nas competições?
Neste momento, até ao escalão de sub15 temos cerca de 56 atletas divididos por diversos níveis de aprendizagem.
Apesar de no fim de semana cada atleta ir representar o seu escalão, aqui trabalhamos por níveis de aprendizagem durante a semana.
Neste momento, além da iniciação onde estão inseridos todos os atletas do nível 1 que iniciaram recentemente a sua aprendizagem, temos ainda o escalão de bambis, benjamins, escolares, sub13 e sub15.

O hóquei em patins é uma modalidade tecnicamente exigente. Quais são as principais dificuldades que os jovens enfrentam quando começam a praticar a modalidade?
A filosofia de formação do Hóquei Clube Os Tigres deve assentar em formar pessoas através do hóquei em patins, desenvolvendo atletas e criando condições para que possam, no futuro, representar a equipa sénior.
Estas três dimensões complementam-se, mas têm uma ordem de prioridades:
1. Formar pessoas: transmitir respeito, responsabilidade, compromisso, espírito de equipa e capacidade de superar dificuldades. O sucesso da formação também se mede pelo comportamento dentro e fora do pavilhão.
2. Desenvolver atletas para o hóquei em patins: proporcionar uma aprendizagem sólida, promover o gosto pela modalidade e respeitar o ritmo de evolução de cada atleta, dando a todos oportunidades para aprender e participar.
3. Preparar jogadores para a equipa sénior: construir um percurso que permita aos jovens chegar à equipa principal com qualidade e identificação com o clube, sem colocar os resultados imediatos acima do seu desenvolvimento.
Nem todos chegarão à equipa sénior, mas todos devem sair da formação com aprendizagens e valores que os acompanhem pela vida. É esse o sentido que devemos dar ao lema «Somos Formação».

Existe talento na região para alimentar os escalões de formação do HC Tigres? Como se pode despertar o interesse de mais crianças pelo hóquei em patins?
Sim, é verdade que a vertente da patinagem é muito exigente, e o hóquei patins em particular ainda mais quando se tem de juntar equilíbrio, velocidade e coordenação. É sem dúvidas algumas um dos desportos mais exigentes.
Mas também é uma modalidade que quanto mais cedo começar, mais fácil será a sua adaptação. Entre os 3 e 6 anos é a idade aconselhada para se começar a praticar, sendo o limite até aos 8/10 anos. Quanto mais velhos mais dificuldades no equilíbrio e normalmente pela experiência mais receio pelo queda ou desequilíbrio.

Que características procura num jovem jogador para além da qualidade técnica? A atitude, o compromisso e a capacidade de trabalhar em equipa são determinantes?
Existe muito talento nas nossa região, e a formação dos Tigres é uma prova disso. Se por um lado é verdade que uma parte dos nossos atletas é proveniente de localidades fora de Almeirim, por outro lado temos atletas com muito potencial, alguns deles provenientes da captação que fazemos regularmente.
O impacto que o hóquei desperta em quem vem experimentar é muito positivo. Obviamente que ter um campo de futebol logo ao lado do pavilhão que não ajuda muito a cativação dos miúdos, porque na realidade vivemos num país onde jogos de hóquei, ao contrário do futebol, raramente passam nas nossas televisões.

Qual é o papel dos treinadores neste processo e que importância tem a formação contínua de quem trabalha diariamente com os jovens?
Para quem vem experimentar pela primeira vez, sem dúvida nenhuma a assiduidade. Para quem dá os primeiros passos, a persistência é fundamental. Um jovem atleta que faça apenas um treino por semana vai ter muitas dificuldades em cumprir um plano de evolução sustentado.
Não me canso de dar um bom exemplo que temos: um atleta que apareceu numa captação com 10 anos, já no limite e que dificilmente atinge escalões de competição. Era tão persistente que durante uma época treinou cinco dias por semana, duas horas por dia. Hoje é atleta dos sub15 e um exemplo para tantos outros.
A atitude, o compromisso e a capacidade de trabalho são 3 fatores muitos importantes para o desenvolvimento individual de cada atleta. Atitude define a garra e o compromisso em cada treino e permite ter capacidade para o trabalho.

A formação exige muitos recursos humanos, equipamentos e tempo de trabalho. O HC Tigres dispõe atualmente das condições necessárias para desenvolver o projeto que idealiza?
Os treinadores são o ponto de equilíbrio dos pontos falados na questão anterior. Cada vez mais os cursos são mais exigentes, hoje em dia para se tirar o curso nível 1 é obrigatório saber andar de patins. Embora não seja obrigatório, mas ter sido atleta é fundamental para exemplificar, corrigir e explicar cada exercício.
Nós por exemplo trabalhamos de uma forma muito integrada, entre mim, o Rui e o Renato. Fazemos questão que todos os miúdos trabalhem diretamente com cada um de nós para não haver repetições excessivas de rotinas, hábitos regulares e falta de bases. Basicamente  em muitos treinos, juntamo-nos os 3 em campo para cada um de nós desenvolver o que de melhor sabemos transmitir.

Como se gere a relação entre clube, atletas e famílias, sobretudo numa fase em que os jovens têm de conciliar os treinos e os jogos com a escola e outras responsabilidades?
Essa relação deve assentar no diálogo, na confiança e na colaboração. Clube, atletas e famílias têm de trabalhar em conjunto, com um objetivo comum: o desenvolvimento e o bem-estar dos jovens. A escola é uma prioridade, e o desporto deve fazer parte desse equilíbrio. É importante ensinar os atletas a organizar o tempo, a cumprir compromissos e a comunicar as suas dificuldades. Nas fases de maior exigência escolar, devemos procurar soluções com as famílias, tendo também em conta o descanso e o tempo para serem crianças e jovens.
As famílias têm um papel fundamental no apoio e no incentivo, respeitando o espaço dos treinadores e evitando uma pressão excessiva sobre os resultados. Aos treinadores cabe ouvir, orientar e conhecer a realidade de cada atleta.
Mais do que formar jogadores, queremos ajudar a formar pessoas responsáveis, autónomas e felizes. É esse o sentido de dizermos: “Somos Formação”.

A captação de novos atletas é uma preocupação? Que iniciativas podem ajudar a levar o hóquei em patins a mais crianças e jovens?
Um projeto de formação exige um investimento contínuo em pessoas, equipamentos e condições de treino. A nossa ambição é construir uma base sólida que permita aos atletas aprender, evoluir e ter orgulho em representar o HC Os Tigres, acima de tudo, ser feliz.
O empenho dos treinadores, dirigentes, delegados e famílias é fundamental, mas precisamos também de garantir mais material adequado, mais tempo de pavilhão e apostar cada vez mais na capacidade técnica para acompanhar cada escalão com qualidade.
Queremos desenvolver este projeto de forma sustentada, ajustando os passos aos recursos disponíveis e procurando os apoios necessários para melhorar. Mais do que crescer em número de atletas, interessa-nos crescer na qualidade da formação que oferecemos. É um trabalho coletivo, que exige compromisso e continuidade.
É fundamental a estabilidade diretiva do clube no sentido de melhorar ainda mais as condições físicas, logísticas e técnicas de uma formação que caminha a passos largos para o sucesso.

Um dos grandes objetivos de qualquer formação é preparar jogadores para patamares superiores. Quantos jovens do HC Tigres vê com potencial para chegar à equipa sénior?
Sim, a captação de novos atletas é uma preocupação e uma prioridade, porque o futuro do clube e da modalidade começa na formação. Queremos dar a mais crianças a oportunidade de conhecer o hóquei em patins e de descobrir o prazer de patinar e jogar em equipa.
A aproximação às escolas, as sessões de experimentação e os treinos abertos são iniciativas que podem fazer a diferença. Disponibilizar equipamento para os primeiros contactos também ajuda a que as famílias possam conhecer a modalidade antes de assumirem esse investimento. A nossa mascote Tigrex pode ser uma excelente aliada para despertar a curiosidade dos mais pequenos.
Tão importante como trazer novos atletas é saber recebê-los e acompanhá-los. Queremos que cada criança se sinta integrada, faça amigos e tenha vontade de regressar ao treino. Quando os atletas estão felizes e as famílias confiam no nosso trabalho, tornam-se também os melhores embaixadores do clube, passando a palavra a outras famílias e meninos.
A oportunidade que nos estão a dar de apresentar a toda a população o nosso projecto, será com toda certeza uma forma estreitar ainda mais a relação clube/comunidade.
Essa é uma questão muito pertinente. Na minha modesta opinião, uma equipa sénior que esteja no patamar do hóquei clube os Tigres deve ter sempre 4/6 da sua formação na sua equipa sénior. O trabalho que estamos a desenvolver vai permitir a médio prazo colocar na sua primeira equipa, 3 a 4 atletas. Mas isso vai depender sempre de quem aqui estiver. Pessoalmente tenho esse objetivo e tudo farei para que seja possível.
A verdade é que a nossa formação se continuar nesta linha de trabalho, pode, daqui a 3 a 4 anos ser a referência a nível regional e começar a colocar equipas nos campeonatos Nacionais.
Geograficamente estamos localizados numa zona onde é difícil trazer atletas já formados de outros clubes. E dou o meu exemplo que todos os dias faço 45 minutos para cada lado para vir dar treinos a Almeirim. No entanto, não posso deixar de salientar que na época passada tivemos um atleta que foi para o Sporting e neste momento temos outros referenciados. Esta época fazem parte dos nossos planteis, atletas de Tomar, Entroncamento, Coruche, Santarém, Fazendas e Almeirim. Isso diz muito do trabalho que hoje em dia se faz na formação do clube.
Para finalizar queria fazer um apelo a todos os sócios, adeptos e apoiantes dos Tigres para fazerem parte da vida ativa do clube. Acedam ao nosso whatsapp através da Comunidade Tigres e tenham acesso a toda a informação diária. Apoiem os nossos atletas nos jogos e ajudem-nos a crescer. Na captação apareçam no pavilhão Alfredo Bento Calado às Segundas, Quartas, Quintas e Sextas a partir das 18h00, tragam os vossos filhos e de certeza que iram voltar.
Nós temos os patins e todo o material necessário para emprestar.
Queremos terminar esta época com os objetivos concretizados e deixar a nossa formação preparada para os desafios dos próximos anos.
Por fim e não menos importante uma palavra de agradecimento a vocês pelo excelente trabalho de cooperação e partilha, um referência Nacional que muito nos honra ter-vos como nossos parceiros.

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