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Desporto

De Lisboa para Almeirim: uma nova vida ao ritmo da dança

Por: Inês Ribeiro 15 de agosto, 2026 2 minutos de leitura

Há pouco mais de um ano, Rui Gonçalves deixou Lisboa para trás e escolheu Almeirim para começar uma nova etapa da vida. A decisão foi motivada pela família, pela procura de uma melhor qualidade de vida e pela vontade de desenvolver um projeto ligado à sua grande paixão: as danças sociais. Hoje, divide o tempo entre o ensino do padel, as aulas na Universidade Sénior de Almeirim (USAL) e a escola de dança que criou na Casa do Povo de Almeirim, com a ambição de formar uma verdadeira comunidade de dança no concelho.

A mudança aconteceu depois de muitos anos a viver em Oeiras. A necessidade de encontrar uma habitação maior para reunir a família, aliada aos elevados preços da habitação na área de Lisboa, levou-o a procurar alternativas. Almeirim acabou por reunir todas as condições.

“A razão foi principalmente familiar. Queríamos juntar a família numa única casa e precisávamos de um T3. Em Oeiras os preços estavam muito elevados e procurámos uma região próxima de Lisboa, mas onde fosse possível viver com mais qualidade. Almeirim tem excelentes acessibilidades, fica a cerca de uma hora de Lisboa e tem uma boa dinâmica social.”

A adaptação foi quase imediata. Desde cedo procurou integrar-se na comunidade, participando em diferentes projetos e colocando os seus conhecimentos ao serviço da população.

Começou por dar aulas de padel no AlmeirInn Padel, onde, diz, foi muito bem recebido pelos responsáveis do clube. Pouco tempo depois, juntamente com a esposa, iniciou um projeto de voluntariado na USAL, onde ambos são professores de dança desde setembro de 2025. Paralelamente criou uma turma de danças sociais na Casa do Povo de Almeirim, dedicada sobretudo aos ritmos latinos e africanos.

“Sentimos que fomos muito bem acolhidos. Além disso, Almeirim é uma cidade muito bem servida de comércio, restauração e com uma dinâmica que nos fez sentir rapidamente em casa.”

Depois de anos a viver na Área Metropolitana de Lisboa, as diferenças fazem-se sentir no dia a dia.

“O trânsito e o estacionamento mudaram completamente a nossa vida. Ganhámos cerca de uma hora por dia que antes passávamos em deslocações. É mais tempo para a família e menos despesas com combustível e estacionamento.”

Mas não foi apenas essa a diferença que encontrou.

“Aqui existe uma proximidade maior com a terra. Temos campos agrícolas a perder de vista, que mudam de cor ao longo do ano, acesso direto aos produtores locais e uma forte tradição de festas populares. Sempre que podemos fazemos questão de participar.”

A dança entrou na sua vida em 1997, durante os tempos de universidade.

Foi no Instituto Superior Técnico que teve o primeiro contacto com as danças a par, através de aulas organizadas no pavilhão de Engenharia Civil. Anos mais tarde, durante uma estadia profissional de seis meses em Itália, descobriu a salsa e percebeu que aquela seria uma paixão para a vida.

Ao regressar a Portugal ingressou na escola Espasso Latino, posteriormente EDSAE, onde percorreu todo o percurso de formação, desde aluno até professor, concluído em 2007.

“Desde então nunca mais parei. Na verdade, descobri duas paixões: a dança e o ensino.”

Atualmente dedica-se sobretudo ao ensino da Salsa, Bachata e Kizomba.

A Kizomba continua a ser o ritmo que mais desperta curiosidade junto dos alunos, pela facilidade de aprendizagem e pela proximidade com a música. A Bachata, impulsionada pela popularidade de artistas internacionais, tem conquistado cada vez mais praticantes. Já a Salsa continua a ser, para si, o ritmo mais desafiante e simultaneamente o mais divertido.

“É provavelmente o mais difícil de aprender, mas também aquele que mais prazer me dá dançar.”

Ao longo de mais de vinte anos ligados à dança, os momentos marcantes acumulam-se.

Participou em espetáculos no Coliseu dos Recreios, no Auditório da Caixa Geral de Depósitos, em festivais nacionais, workshops e inúmeras apresentações de final de ano.

Um dos momentos mais recentes e especiais aconteceu precisamente em Almeirim, durante as Festas da Cidade de 2026, quando subiu ao palco com os alunos da USAL.

“Foi uma experiência fantástica. Ver os nossos seniores em palco e sentir o carinho do público através dos aplausos foi muito gratificante.”

A escolha da Casa do Povo de Almeirim para instalar a escola não foi casual.

O espaço reunia as condições necessárias para a prática da modalidade e encontrou total disponibilidade por parte da direção para acolher o projeto.

Mais do que ensinar passos de dança, o objetivo passa por criar relações entre as pessoas.

“Numa primeira fase queremos consolidar turmas estáveis. Depois queremos que os alunos criem amizades, saiam juntos para dançar e descubram aquilo que as danças sociais têm de mais rico: a convivência.”

Num horizonte mais alargado, sonha ver nascer uma verdadeira comunidade de dança em Almeirim, envolvendo diferentes escolas e organizando eventos conjuntos.

Convicto dos benefícios da dança, lembra que existem diversos estudos científicos que demonstram os seus efeitos positivos.

Além da melhoria da condição física, a dança estimula a coordenação, a memória, a atenção e o desenvolvimento cognitivo, ao mesmo tempo que promove a socialização e reforça a autoestima.

“A dança ajuda os jovens a desenvolverem confiança e reduz o isolamento dos seniores.”

Por isso rejeita a ideia de que as danças sociais são apenas para pessoas mais velhas.

“Temos alunos dos 16 aos 66 anos. Todos dançam com todos e isso cria uma interação entre gerações muito enriquecedora.”

Apesar da boa aceitação dos alunos da Universidade Sénior, Rui admite que ainda há um trabalho importante a fazer na divulgação da escola.

“Muitas pessoas nem sequer sabem que estas aulas existem em Almeirim.”

Para dinamizar a modalidade, estabeleceu uma parceria com o bar Poço Velho, onde organiza noites de dança social de quinze em quinze dias, assumindo o papel de DJ, professor e animador. A iniciativa regressará em setembro, após a pausa de verão.

Daqui a cinco anos espera encontrar uma realidade completamente diferente.

Gostaria de ver dezenas de pessoas a dançar regularmente em festas, bares e eventos, várias escolas a colaborar entre si e Almeirim reconhecida como uma cidade onde a dança social faz parte da sua vida cultural.

E para quem continua a achar que não sabe dançar, deixa um desafio simples.

“O primeiro passo é sempre o mais difícil. Mas basta experimentar uma aula para perceber que ninguém nasce a saber dançar. Aprende-se, diverte-se e, sem dar por isso, acabam por nascer amizades e momentos que ficam para a vida”, conclui Rui Gonçalves.

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