Dois anos e um dia separam dois momentos que vão ficar para sempre na história dos Bombeiros Voluntários de Almeirim. Dois partos inesperados, ambos em ambulâncias da corporação, ambos na autoestrada, ambos quando as equipas seguiam com uma grávida em direção ao hospital. A coincidência temporal seria, por si só, motivo de destaque, mas o mais marcante voltou a ser a forma como os operacionais responderam ao imprevisto, com técnica e uma humanidade impossível de ignorar.
Na madrugada de terça-feira, dia 25 de novembro, pouco depois das 5h00, a central dos bombeiros recebeu um alerta do 112 para prestar auxílio a uma grávida em Fazendas de Almeirim. “Era uma grávida de 40 semanas e três dias, com contrações entre cinco e oito minutos”, recorda Nuno Amoroso, um dos operacionais que, mais tarde, realizou o parto. A equipa seguiu de imediato para o Hospital de Abrantes, unidade indicada para este caso, mantendo sempre o contacto com o Centro de Orientação de Doentes Urgentes do INEM. Ao mesmo tempo, estava a ser mobilizada a Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) de Vila Franca de Xira, com a qual iriam encontrar-se na área de serviço da A1.
No entanto, ainda antes de chegarem a Santarém, tudo mudou dentro da ambulância. O intervalo das contrações começou a diminuir rapidamente. “Passou para três em três minutos e depois dois em dois. Até que a coroa da cabeça da bebé começou a aparecer”, descreve Cátia Lopes, a outra operacional que realizou o parto. Foi nesse momento que a bombeira percebeu que não havia alternativa, era preciso parar de imediato na autoestrada. Já não havia tempo para avançar até ao ponto de encontro previsto.
Cátia Lopes, bombeira e mãe, fala com emoção sobre o instante em que percebeu que o parto teria de acontecer ali mesmo. “O espaço não é o ideal, o ambiente também não é o adequado para o nascimento de um bebé”, admite. Ainda assim, ambos garantem que não houve hesitações. “Fizemos tudo o que era possível e até mais do que aquilo que imaginámos conseguir!”, recorda a bombeira.
E assim, aos primeiros raios de sol da madrugada, com o trânsito a passar a poucos metros, nasceu Benedita. “A minha colega disse-me: ‘tens de parar’. Parámos e a Benedita veio ao mundo ali mesmo”, conta Nuno Amoroso. O primeiro choro é um momento que ambos guardam como se o tivessem gravado na memória. Para Cátia Lopes, esses segundos de som foram a confirmação de que tudo tinha corrido bem. “Foi o que me descansou. O respirar dela, o choro, aquilo que nos diz que está tudo bem”, refere.
De acordo com os bombeiros, a mãe manteve uma calma que ajudou toda a equipa. “Formámos ali uma bolha, os quatro, depois com a Benedita. A mãe foi extraordinária! Seguiu tudo o que lhe pedimos e confiou em nós”, admitem. O procedimento continuou com o corte do cordão umbilical, enquanto a VMER chegava ao local poucos minutos depois.
Sem complicações clínicas, mãe e bebé foram transportadas para o Hospital Distrital de Santarém (HDS), estáveis e tranquilas. A distância ao hospital foi o único constrangimento apontado pela equipa. Ainda assim, asseguram que o parto decorreu de forma natural, tranquila e sem complicações.
Apesar de toda a experiência acumulada e da formação, ambos admitem que nada prepara totalmente um bombeiro para um momento destes. “A formação é uma coisa, o contexto real é outra. É impossível descrever. A Benedita fará sempre parte da nossa história”, confessa Cátia Lopes. Nuno Amoroso concorda, “é deslumbrante! Algo que não se explica por palavras”.
Esta não foi, porém, a primeira vez que os Bombeiros Voluntários de Almeirim viveram um cenário semelhante. No dia 24 de novembro de 2023, também de madrugada, outra bebé, também chamada Benedita, nasceu na ambulância da corporação, também na A1, mas área de serviço em Santarém. Agora, dois anos e um dia depois, a história repetiu-se. O imprevisto voltou a acontecer em plena autoestrada, com a vida a impor o seu próprio tempo e lugar. “São momentos que ficam connosco para sempre”, afirmam.
No quartel, a notícia foi recebida com orgulho e naturalidade. A corporação está habituada a responder a emergências de todo o tipo, mas os partos ocupam um lugar particular, não apenas pela responsabilidade clínica, mas pela intensidade emocional do momento. “Trazer alguém ao mundo, mesmo sem ser nas condições ideais, é algo que marca qualquer um”, sublinha Cátia Lopes.
Dois anos, um dia e duas histórias que agora passam a fazer parte da memória coletiva dos Bombeiros Voluntários de Almeirim.












