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Entrevista

“Continuei sempre ligado a Almeirim”

Por: Daniel Cepa 22 de Maio, 2026 2 Minutos de Leitura

Nascido em Macau e criado em Almeirim, Pedro Choy construiu um percurso improvável que o levou a tornar-se uma das principais figuras da medicina tradicional chinesa em Portugal. Entre dificuldades, polémicas e reconhecimento internacional, afirma-se como um dos grandes responsáveis pela divulgação e regulamentação desta área no país.

Surpreendido com este regresso a Almeirim?
Estava à espera de encontrar pessoas conhecidas, até porque vivi aqui durante 17 anos, desde que cheguei de Macau com seis meses de idade. Fui para Coimbra estudar Medicina, mas continuei sempre ligado à terra. Não vinha todos os fins de semana, porque a vida era difícil do ponto de vista económico, mas vinha, pelo menos, uma vez por mês. Mantive amizades e uma relação muito forte com Almeirim. Aliás, a minha primeira clínica social foi aqui. Funcionou durante 25 anos e era totalmente gratuita, pensada para pessoas que não tinham condições para pagar medicina privada. Fiz questão que fosse em Almeirim pela ligação emocional que tenho a esta terra onde fui feliz.

Porque vieram viver para Almeirim?
Por causa da minha avó. Ela vivia aqui e era muito conhecida. Chamava-se Maria da Graça, era cautelosa, vidente e também tratava pessoas com ervas que cultivava no quintal. Fazia isso gratuitamente, porque acreditava que era um dom de Deus e que não podia cobrar por ele, com receio de o perder. Quando viemos de Macau ficámos, primeiro, em casa dela e depois fomos viver para uma casa alugada, muito simples. Portugal era um país pobre e Almeirim era, praticamente, uma pequena aldeia, com muitos terrenos livres.

Que memórias guarda da infância?
São boas memórias. A minha família era pobre. O meu pai era militar de baixa patente, com um salário equivalente ao de um professor primário da época. É preciso imaginar seis pessoas a viver com esse rendimento. Era difícil, mas nunca senti falta de felicidade. Senti integração. Os portugueses têm algum racismo, como todos os povos, mas não é violento. Além disso, eu praticava artes marciais desde os cinco anos, o que também me dava alguma segurança.

Essas artes marciais eram praticadas às escondidas?
Sim. Antes do 25 de Abril, era preciso autorização para praticar. Eu treinava kung fu com a comunidade chinesa de Lisboa, nos Olivais Sul. Fazíamos isso em armazéns, disfarçados de ginástica, com alguém sempre de vigia. Se aparecesse alguém, havia um sinal e mudávamos imediatamente. Chegou a acontecer. Só depois de 1974 comecei a praticar karaté em Santarém de forma aberta.

A sua mãe teve dificuldade em adaptar-se?
Teve, sim. No início não falava português e era o meu irmão mais velho que a ajudava a comunicar, até nas compras. Ela vinha de Macau, uma cidade com muita gente, e estranhava viver num sítio com tão poucas pessoas. Chegou a pensar que havia alguma guerra ou epidemia, porque não via ninguém na rua. Ao mesmo tempo, chamava muito a atenção. Usava calças numa altura em que as mulheres não usavam e trazia-me às costas, o que era estranho para as pessoas. Chegavam a segui-la para a ver. Mas acabou por se integrar, muito através da religião. Era profundamente católica e eu tive uma educação religiosa completa, fiz catequese, escuteiros, comunhão e crisma, muito para a agradar.

Quando nasce a vontade de tratar?
Desde muito cedo. Sempre tive tendência para cuidar, foi isso que me guiou a minha vida toda. Tratava animais, cães abandonados, aves. Lembro-me de uma epidemia de mixomatose em que era obrigatório matar os coelhos, mas eu recusei e tratei-os com chás de malva, lavando as feridas todos os dias. A maioria sobreviveu, apesar de ser considerada uma doença incurável. Isso marcou-me. Quando entrei na universidade sabia que queria tratar, mas não sabia se pessoas ou animais. Foi decidido com uma moeda ao ar.

Já conhecia a medicina chinesa nessa altura?
Tinha contacto indireto. A minha mãe fazia pequenos tratamentos, como pressionar pontos de acupuntura com uma colher. A comunidade chinesa de Lisboa partilhava medicamentos de ervas. Usávamos coisas como a pomada de tigre, que na altura era rara. Cresci com essa influência, mas estudar medicina chinesa em Portugal era impossível, não existia ensino.

Como descobre esse caminho?
No terceiro ano de Medicina descobri que havia um curso em Marselha, o único na Europa. Para entrar, era preciso ter, pelo menos, três anos de medicina convencional. Decidi que tinha de ir, apesar de parecer impossível do ponto de vista financeiro.

Já trabalhava nessa altura?
Sim, desde muito novo. Comecei a trabalhar por volta dos 12 ou 13 anos. Fazia vindimas, apanha de fruta, tomate. Aos fins de semana era servente de pedreiro, um trabalho muito duro na altura, tudo feito à mão. Trabalhei também na Compal, onde fiz vários trabalhos, incluindo limpeza industrial com soda cáustica. Escolhia os trabalhos mais duros porque eram melhor pagos.

Como eram as viagens para França?
Muito exigentes. Muitas vezes de mota. A primeira vez foi numa 125 e fazia cerca de dois mil quilómetros. No início, demorava mais de um dia e dormia pelo caminho, em sacos-cama, em zonas isoladas. Mais tarde, com uma mota maior, fazia a viagem no mesmo dia. Saía de Coimbra de manhã e jantava em Marselha. Cheguei a fazer partes da viagem a mais de 200 km/h, o que hoje reconheço que foi uma imprudência.

E a vida em Marselha?
Foi difícil no início. Cheguei a dormir na rua, em jardins, durante vários dias seguidos para poupar dinheiro. Não era exatamente um sem-abrigo, porque tinha acesso à universidade, onde podia tomar banho. Ia a pousadas de juventude para cozinhar arroz e descansar. Mais tarde, comecei a trabalhar como guarda-costas, em missões curtas mas muito bem pagas, o que melhorou bastante a minha situação.

Porque se afastou da medicina convencional?
Pelo choque que tive nas urgências hospitalares. Confrontei-me com sofrimento extremo e com uma abordagem que separava o corpo da mente. Eu tinha uma visão mais humanista da saúde e percebi que não era esse o caminho que queria seguir.

Como foi o regresso a Portugal?
Muito difícil. Fui alvo de cerca de dez processos judiciais. Fui acusado de exercício ilegal de medicina, burla, publicidade enganosa e até bruxaria. Ganhei todos os processos, mas foi uma fase dura, sobretudo porque algumas dessas ações vieram de colegas meus da faculdade. Havia muita desinformação sobre o que era a medicina chinesa.

Como reagiu?
Decidi dar a cara. Fui à televisão, promovi debates e aproveitei para explicar o que era a medicina chinesa. Na altura, nem os jornalistas sabiam. Havia situações caricatas, como pessoas a perguntarem se bastava levar uma fotografia para tratar doenças. Senti que era importante esclarecer e dignificar a profissão.

Teve papel na regulamentação?
Sim. Iniciei petições que reuniram dezenas de milhares de assinaturas, algumas acima das 100 mil, o que obrigou a Assembleia da República a discutir o tema. Isso levou ao reconhecimento da medicina chinesa como profissão de saúde com ensino superior e cédula profissional.

Devem as duas medicinas trabalhar juntas?
Sem dúvida. Complementam-se. Nos países asiáticos isso já acontece. No cancro, por exemplo, a medicina convencional salva vidas, mas a medicina chinesa pode reduzir efeitos secundários e melhorar a recuperação. Nas enxaquecas, consigo reduzir e até eliminar sintomas em muitos casos ao longo do tempo. Defendo sempre que os doentes mantenham a medicação convencional e acrescentem a medicina chinesa.

Porque ainda não está no SNS?
Há interesses económicos fortes. A medicina chinesa trata doenças crónicas de forma eficaz, o que reduz o consumo de medicamentos a longo prazo. Isso tem impacto na indústria farmacêutica. Quando tentei promover essa integração, fui alvo de pressões e até ameaças de morte, das quais fiz queixa à Polícia Judiciária.

Vai acontecer?
Vai. É inevitável. É apenas uma questão de tempo.

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