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Opinião

Internet e Redes Sociais…

Por: Daniel Cepa 24 de Abril, 2026 2 Minutos de Leitura

A Internet é uma infraestrutura global descentralizada que interliga milhões de redes de computadores públicas, privadas, académicas e governamentais para troca de dados. As redes sociais são plataformas digitais que permitem a conexão, interação e partilha de conteúdos dentro de grupos com interesses comuns. Têm as vantagens de manter as pessoas em rede, promover o relacionamento e a comunicação rápida e em tempo real, disponibilizar o acesso ao conhecimento e permitir o entretenimento. TikTok, YouTube, Instagram, Facebook, Snatchap, são algumas das mais conhecidas e usadas.

A facilidade de acesso à internet tem aumentado exponencialmente o respetivo número de utilizadores. Infelizmente, a prioridade das empresas detentoras das redes sociais tem-se orientado preferencialmente para o lucro obtido, sem respeito pelos efeitos nefastos que produzem. Enriquecem maximizando o tempo de ecrã, extorquindo os dados dos seus utilizadores para elaboração de algoritmos individualizados. Não têm consideração pela saúde mental dos consumidores e falham na proteção dos grupos mais vulneráveis: crianças, adolescentes, indivíduos com tendência para o isolamento, os mais impulsivos e os socialmente menos integrados. O tempo excessivo de utilização, o vício e a dependência dos ecrãs, o consumo indiscriminado de conteúdos inapropriados/perigosos e a facilidade com que predadores de vários tipos promovem e conseguem o assédio de vítimas são os fatores com maior impacto na saúde mental. 

A dependência é conseguida através dos vídeos rápidos (reels), dos “likes”, do scroll infinito, das notificações e do conteúdo personalizado elaborado por algoritmos individualizados e concebidos com base nas preferências particulares. Desta forma, conseguem cativar e recompensar sem enfadar, fragmentar a atenção e promover a desconcentração de outras tarefas, retendo o espetador indefinidamente em frente ao ecrã.

Comportamentos desafiantes, pornografia, discursos extremistas, fake news, facilidade de contacto com predadores e cyberbullying representam conteúdos inapropriados que se podem tornar particularmente perigosos para os grupos mais vulneráveis.

Os mais jovens, sob pressão do grupo e com necessidade de notoriedade, são facilmente empurrados para comportamentos desafiantes e perigosos. Encontram-se facilmente acessíveis em plataformas como o TikTok, YouTube, Instagram e Facebook. Foram descritas consequências fatais em desafios como: o da Baleia Azul, do Benadryl, de Skull-Breaker, da Canela e, mais recentemente, o do Paracetamol. Normalmente, as raparigas são mais suscetíveis à autoimagem, aceitação social, comparação e dismorfia corporal. Nesse contexto, são mais vulneráveis a alterações do comportamento alimentar (anorexia, bulimia) e comportamentos autolesivos (adoção de automutilação como “estilo de vida”, por exemplo). Por serem mais competitivos, os rapazes são mais propensos a jogos online e, consequentemente, a conteúdos e links onde se banaliza a violência e se incentiva o consumo de álcool, tabaco, substâncias ilícitas, cenas de sexo explícito, ou mesmo de pornografia.

Entre os diversos conteúdos perigosos, a pornografia tornou-se um negócio muitíssimo produtivo no mundo virtual. A exposição ocorre cada vez mais precocemente. Sem maturidade para assimilarem o que vêm, os conceitos da sexualidade ficam distorcidos, comprometendo a saúde sexual e a capacidade para estabelecer relações estáveis de intimidade. Para além disso, estes conteúdos estão repletos de conceitos machistas (manosfera) que incitam à violência doméstica e no namoro e têm uma associação inevitável com a violência sexual, o tráfico de seres humanos e a exploração infantil. O seu combate exige medidas e legislação firme.

A violência virtual é completamente desumanizada, tem uma divulgação ampla, rápida, perpetua-se no tempo e é muito difícil de interromper. Por isso, o cyberbullying é mais traumático e pode ter consequências catastróficas. 

Predadores virtuais de todos os tipos escondem-se por trás de identificações falsas e de outros truques, facilitando o apelo e posterior chantagem dos mais inocentes. A Sextortion constitui um exemplo desta situação e a pedofilia um risco associado. 

Discursos extremistas e, muitas vezes infundados, encontram eco e amplificação junto de indivíduos / grupos com fraca integração social. Incitam ao ódio e à violência.

As competências sociais não se desenvolvem na ausência de interações presenciais. Indivíduos com tendência para o isolamento encontram na internet o refúgio que procuram. Dependentes dos dispositivos digitais para comunicar com os outros, a interação presencial torna-se cada vez mais comprometida. 

Assim, o uso inadequado e o tempo excessivo de ecrãs fomentam o sedentarismo, prejudicam a qualidade e quantidade de sono diária, comprometem o desenvolvimento das competências sociais, fragmentam a atenção, diminuem a capacidade de concentração, a motivação, a aprendizagem e o sucesso escolar. Para além disso, geram dependência, isolamento, ansiedade, depressão, baixa autoestima e podem estar na base de comportamentos auto-lesivos, ideação suicida e suicídios. Roubam todo o tempo disponível, eliminando o tempo de verdadeiro tédio, essencial à criatividade, à introspeção e ao desenvolvimento da capacidade crítica. Conteúdos fúteis não fomentam o desenvolvimento das capacidades cognitivas e discursos extremistas incitam o ódio, a intolerância e a marginalização Para além de já se admitir a associação entre o uso excessivo de redes sociais e a demência em adultos, é consensual que a hiperexcitação digital cerebral nos cérebros em desenvolvimento embota a empatia e provoca alheamento e indiferença para o mundo real, assim como um estado de apatia para as atividades não digitais, como descreve o Psiquiatra Pedro Afonso no seu livro “(Quase) Sempre Online”. 

O declínio das capacidades físicas, sociais, emocionais e cognitivas cursa com avultados lucros das empresas detentoras das redes sociais. Neste mundo em profunda mudança, é essencial prevenir, detetar e orientar precocemente, protegendo os grupos mais vulneráveis. 

A proibição total do uso da Internet pode não ser o melhor caminho. Consciencializar precocemente para os seus perigos, ensinar a usar adequadamente e negociar o seu uso com regras constituem as melhores formas de lidar com este problema. Para além da capacidade criativa de ludibriar e contornar as proibições, estas podem provocar um efeito contrário, um sentimento de exclusão e humilhação desnecessária para quem não as utiliza, enquanto inviabiliza a monitorização dos controladores. Tendência para o isolamento e refúgio digital constituem um sinal precoce de alerta e necessidade de intervenção. O diálogo e abertura permitem detetar e orientar prematuramente, evitando sequelas. 

A sociedade civil, os profissionais de saúde e os legisladores devem trabalhar em conjunto com o intuito de proteger o bem mais precioso que a sociedade tem: a Infância! A exposição pública da esfera privada ultrapassou todos os limites descritos por Hannah Arendt no século passado. O visionário George Orwell conseguiu descrever há quase um século esta permanente vigilância no seu livro “1984”. Contudo, esta sensação adquiriu contornos de alienação e falsa noção de liberdade, comparável ao “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley. Urge investir na literacia digital e inverter o rumo indesejável do uso indevido dos ecrãs.

Teresa Gil Martins – Pediatra

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