Daniela Pereira é, aos 24 anos, a presidente da Banda Marcial de Almeirim depois de ter entrado na música aos cinco anos. Agora que lidera a mais antiga associação da cidade olha para o futuro com otimismo apesar das dificuldades que a banda atravessa.
eirim celebra 95 anos de história. O que representa para si liderar uma instituição com tanto peso na vida cultural da cidade?
Só me ocorre a palavra “orgulho”. Integrei a escola de música da Banda Marcial de Almeirim com cinco anos, ou seja, a Banda sempre fez parte da minha vida… das minhas memórias, amizades e aprendizagens. Depois de tantos anos passados nesta casa, assumir a presidência tem, naturalmente, um significado muito especial. A Banda já acompanhou muitas fases da minha vida e isso faz com que tenha um carinho muito especial por tudo aquilo que ela representa. Espero conseguir contribuir positivamente para o futuro desta Instituição e que também continue a marcar a vida de todos aqueles que por aqui passem, como marcou a minha.
Sendo a associação mais antiga de Almeirim ainda em atividade, sente uma responsabilidade acrescida em preservar este legado?
Será sempre uma responsabilidade acrescida para todos aqueles que ocupem um cargo de dirigente, considerando a história desta coletividade. Mas acredito que o mais importante será respeitar o passado e contribuir para o futuro.
Se por um lado, temos a responsabilidade de preservar o legado que foi construído ao longo dos 95 anos de história da Banda Marcial de Almeirim, por outro, também temos a responsabilidade de garantir que a Associação continua dinâmica, capaz de atrair aprendizes e de se adaptar aos desafios da atualidade.
Como tem sido a experiência de assumir a direção sendo uma dirigente jovem, numa instituição com quase um século de história?
Tem sido uma experiência desafiante, mas interessante. Sinto que ainda existe muito presente a ideia de que a experiência só vem com a idade, pelo que assumir a presidência de direção com 24 anos possa ter suscitado alguma curiosidade nas pessoas. Já por diversas vezes, quando procuram falar com alguém responsável pela Banda, reparo que ficam surpreendidas por serem recebidas por alguém jovem. Contudo, não sinto que essa surpresa seja necessariamente negativa.
Vejo aqui a oportunidade de reforçar que os jovens também podem assumir responsabilidades, dedicarem-se às Associações e contribuir ativamente para a preservação e desenvolvimento da cultura. O importante não é a idade, mas o compromisso e confiança que transparecemos. Creio que a confiança não seja algo que se possa impor, pelo contrário, tem de se conquistar pelo trabalho desempenhado e responsabilidade em assumir os compromissos e, tenho-me esforçado neste sentido.
Acima de tudo, tenho sentido o apoio da Direção e dos restantes órgãos sociais, assim como dos músicos e maestro, o que tem sido imprescindível.
Acredita que a juventude pode trazer uma nova visão ao movimento associativo e às bandas filarmónicas?
Sem dúvida. Reconheço que os movimentos associativos ganham força quando a juventude se junta às gerações mais experientes. Os jovens trazem uma energia diferente, novas ideias e outras formas de olhar para o que já existe. Contudo, para que isto aconteça, é importante que os jovens se sintam ouvidos e respeitados, porque isso contribuirá na vontade de continuar e, consequentemente, assegurar a sustentabilidade das bandas filarmónicas.
Quais têm sido os maiores desafios na liderança da Banda?
No nosso primeiro ano de mandato passámos por algumas dificuldades internas deixadas pela anterior direção, mais ao nível organizativo e financeiro mas, felizmente, conseguimos ultrapassar essa fase. Atualmente, considero que os maiores desafios prendem-se, sobretudo, na captação de novos elementos para a Banda e, simultaneamente, garantir que os aprendizes e músicos se mantenham motivados e com vontade de permanecer.
Também existe o desafio constante de captar o interesse da comunidade para o envolvimento nas atividades que vamos dinamizando, mas creio que, com tempo, iremos conseguir despertar a atenção de mais pessoas. Refiro ainda o desafio na preparação das atuações e gestão das atividades que, naturalmente, têm de acompanhar as dinâmicas da comunidade e ir de encontro às necessidades e exigências da mesma.
E quais têm sido as maiores conquistas ou motivos de orgulho destes últimos tempos?
Sem dúvida, o facto de voltarmos a aproximar-nos da comunidade. Temos vindo a assumir uma disponibilidade e presença em Almeirim que tem produzido efeitos muito positivos na Banda. Apesar de ser um trabalho que requer continuidade, não só no concelho de Almeirim, voltámos a sentir o reconhecimento e apoio da população.
Deixa-me satisfeita perceber que a Banda continua a ser bem recebida e que as pessoas gostam de a ouvir tocar. Isso motiva-nos a continuar o trabalho que tem sido desenvolvido.
Não poderei deixar de referir que também fiquei muito orgulhosa do modo como conseguimos celebrar o 95º aniversário da Banda, em maio. Embora o CineTeatro não estivesse completamente cheio para assistir ao nosso concerto, estava bastante composto e recebemos um excelente feedback do público. Esta foi uma das nossas maiores iniciativas desde que iniciamos o mandato e senti-me grata pela adesão significativa que teve e pela forma como o público se expressou.
A Banda continua a conseguir atrair jovens músicos? Como é feito esse trabalho de formação e motivação?
Temos vindo a conseguir, gradualmente, aumentar o número de aprendizes, embora considere que será sempre um desafio. Isto revela a necessidade de explorarmos novas estratégias para captar mais elementos. A nossa Escola disponibiliza a formação musical e aulas de prática com o instrumento.
Creio que a melhor forma de os motivar é fazer com que estes se sintam integrados, não só através da sua participação nas atuações, mas também nos convívios e iniciativas que vamos dinamizando, promovendo o seu sentimento de pertença à Banda Marcial de Almeirim.
Hoje em dia, a Banda conta com muitos rostos novos, resultado do trabalho que tem sido desenvolvido na formação, integração e motivação dos jovens músicos.
O que distingue a Banda Marcial de Almeirim das restantes coletividades?
Creio que o maior fator de distinção da Banda Marcial de Almeirim comparativamente às restantes coletividades, se centre no modo como conseguiu, ao longo de 95 anos, manter ativo um espaço que já acompanhou diversas gerações, procurando sempre reajustar-se à atualidade, sem perder a sua essência. Isto faz dela a Instituição mais antiga de Almeirim e a segunda mais antiga do Concelho.
Ao longo destes 95 anos, qual considera ser o papel da Banda na identidade cultural de Almeirim?
Creio que a Banda tenha vindo a contribuir positivamente para a identidade cultural de Almeirim, através da promoção da música e da formação de várias gerações de músicos. Nestes 95 anos, tem levado a cultura à comunidade, chegando a representar Almeirim dentro e fora do Concelho. Posto isto, considero que a nossa Banda já faz parte da história e do associativismo de Almeirim.
Há alguma história, momento ou atuação que considere especialmente marcante na história da Banda?
Um dos momentos mais marcantes desde o início do meu mandato, foi a celebração do 94º aniversário da Banda, no ano passado. Tínhamos assumido funções há pouco mais de 1 mês. As limitações financeiras com que nos deparámos, na altura, não nos permitiram avançar com um grande projeto, contudo, considero que a Direção fez o que era necessário a ser feito, dentro das nossas possibilidades. Optámos por celebrar a data com um desfile por Almeirim, indo de encontro a um dos nossos maiores objetivos: voltar a aproximar a Banda da comunidade.
Sem dúvida, considero que foi um momento de viragem, tanto na forma da Banda se apresentar na rua, como no modo como as pessoas voltaram a olhar para a Banda. As pessoas saíram à rua, aplaudiram e acompanharam o desfile. Desde então, sentimos um impacto positivo, motivando-nos a continuar o nosso trabalho. Verificámos um aumento do interesse das pessoas pelas atividades da Banda, assim como o aparecimento de aprendizes para a nossa Escola de Música.
Como é a relação entre os músicos de diferentes gerações dentro da instituição?
Considero que existe uma relação familiar entre músicos, maestro e dirigentes. Há respeito, união e entreajuda. E, embora existam diferentes faixas etárias, a música acaba por ser um ponto comum que nos aproxima a todos. Honestamente, esta é uma das particularidades das Bandas Filarmónicas mais bonitas: a capacidade de juntar pessoas, cada uma com as suas especificidades, e proporcionar um ambiente de partilha de experiências, ensinamentos e vivências entre todos.
Que importância têm os ensaios, atuações e convívio na criação desse espírito de “família” tão característico das bandas?
Os ensaios e atuações que vamos tendo requerem um trabalho de equipa, onde tem de prevalecer a entreajuda para que se consiga atingir o objetivo comum: o sucesso. Consequentemente, as pessoas acabam por se conhecer e criar amizades. O facto da responsabilidade numa atuação ser partilhada por todos, também reforça este “espírito de família”, porque dependem uns dos outros. Mas, sem dúvida, é nos convívios que vamos dinamizando ao longo do ano que as relações ficam mais próximas, visto que há um momento de partilha que não tem só a ver com a música.
Que projetos ou objetivos gostariam de concretizar nos próximos anos?
Pretendemos aumentar o número de aprendizes e, consequentemente, investir na nossa escola de música. A aproximação da Banda à comunidade, através da dinamização de atividades e iniciativas, também é um dos nossos principais objetivos. Esperamos, de igual forma, conseguir aumentar, progressivamente, o número de serviços anuais.
Perspetivamos o desenvolvimento e implementação de um projeto direcionado para um grupo de animação de rua, que possa responder a alguns serviços mais pontuais, quando não se revela necessária a presença da Banda completa. Acreditamos que, com este grupo, possamos diversificar a nossa atividade, revelando-se como uma mais valia para a Associação.
E a vossa sede? Precisa de reformulação?
A nossa sede já tem alguns anos, pelo que a necessidade de reformulação é inevitável. De entre diferentes aspetos a serem intervencionados, é na questão estrutural que vemos maior urgência, nomeadamente, no arranjo do telhado, uma vez que se verificam infiltrações causadas pela chuva.
Como imaginam a Banda Marcial de Almeirim no centenário?
Estando consciente que o futuro da Banda Marcial de Almeirim passa pelas gerações mais novas, espero encontrá-la no seu centenário com os “frutos” da escola de música, isto é, com mais músicos provenientes do nosso trabalho da formação musical.
Mas mais do que a quantidade de músicos, espero que haja uma evolução na qualidade, seguindo a lógica de “sermos melhores hoje do que ontem”. Impreterivelmente, imagino a Banda com uma maior diversidade de projetos e uma presença notória na vida cultural do Concelho de Almeirim, e não só.
O apoio da população e das entidades locais tem sido suficiente para manter viva a atividade da Banda?
Obviamente que, quanto mais nos apoiam, maior será a probabilidade de sucesso na nossa atividade. Neste sentido, temos vindo a contar gradualmente com um apoio muito positivo por parte da população almeirinense e das entidades locais. Destaco especialmente a Câmara Municipal de Almeirim, que tem tido um papel fundamental na nossa sustentabilidade, assim como outras entidades e pessoas particulares que têm acompanhado e apoiado o nosso trabalho de perto.
O apoio tem sido essencial para darmos continuidade aos 95 anos de história da Banda Marcial de Almeirim, mantendo viva a atividade musical e cultural na alma da nossa terra.
Que mensagem deixa aos almeirinenses neste aniversário dos 95 anos?
Deixo uma mensagem de agradecimento a toda a comunidade almeirinense. São 95 anos de muita história que não pertencem apenas à nossa Banda, mas também a toda a comunidade que sempre a acompanhou.
Deixo também o compromisso de continuarmos a trabalhar para manter viva esta coletividade e trazê-la, mais vezes, à rua.













