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Opinião

MEMÓRIAS E CURIOSIDADES DE UM DESAPARECIDO IMPÉRIO: 22 …e com os “pweke” (bastões de madeira), afrontaram os portugueses!

Por: Inês Ribeiro 15 de Janeiro, 2026 2 Minutos de Leitura

Depois de termos percorrido a costa oriental africana em edições anteriores, hoje abordarei três pequenas ilhas onde os portugueses exerceram o seu domínio procurando controlar as rotas de especiarias, estas situadas na parte ocidental do Oceano Índico: Unguja, Pemba (ambas, com pequenas ilhotas, constituem o arquipélago de Zanzibar), e mais ao Norte a ilha de Socotorá, ilha estratégica no Golfo de Adem. O nome Zanzibar vem do persa antigo, significando “Costa dos Negros”, combinando “Zanj” (termo persa para “negros” ou “escravos negros”) e “Bar” (significando “costa”, “terra” ou “região”). Os árabes assim chamavam a ilha, devido à sua localização na costa oriental africana e ao comércio que ali ocorria, sendo um importante centro para especiarias e, infelizmente, também para o comércio de escravos. 

O arquipélago de Zanzibar situa-se a 50 Km da costa oriental africana, em frente à actual Tanzânia. Foi visitada por Vasco da Gama no seu regresso da Índia em 1499. Em 1503 o navio do capitão Rui Ravasco Marques, perdido da sua armada, avista e dirige-se para Unguja, a maior ilha do arquipélago. Hostilizado pelos árabes, bombardeia e domina-a, verificando tratar-se de um importante centro de comércio de especiarias, marfim e escravos. A troco da paz, a autoridade de Zanzibar, torna-se vassala do rei de Portugal, comprometendo-se a enviar anualmente um tributo de 100 moedas de ouro. Administrada por um governador português, tornou-se a ilha inicialmente parte da região portuguesa de Arábia e Etiópia. No começo os portugueses limitavam-se apenas à cobrança do tributo, mas perante os avanços dos turcos do império otomano, viram-se obrigados a estabelecerem-se de forma permanente com um pequeno forte. 

Exploradores e comerciantes portugueses, sob a protecção da grande fortificação de Mombaça, aqui iniciarão uma actividade comercial, passando Unguja a ser conhecida por Ilha das Especiarias, porque ali se reproduz facilmente todo o género destas, tais como a noz-moscada, açafrão, canela, cardamomo, gengibre, tamarindo e, principalmente a pimenta, cujo monopólio D. Manuel guardará só para si, enquanto privilégio real. Na ilha, encontraram os portugueses um grande bastião de escravatura, criado pelos árabes, os primeiros e principais responsáveis pela rota dos escravos que daqui partia, rota essa anterior ao Islão (século VI), cujo destino final era o Médio Oriente e a Península Arábica. Os portugueses, recém-chegados, conhecedores das vantagens do negócio da escravatura desde Agosto de 1444, data da chegada do primeiro carregamento de escravos vindos da Mauritânia para Portugal, rapidamente em tal negócio se envolveram. Por volta de 1571, ao tempo de D. António de Noronha o 24º Vice-rei da Índia, passou o arquipélago para a dependência e hegemonia dos portugueses da Ilha de Moçambique, embora continuasse a ser regida por uma dinastia local. 

Zanzibar funcionou como uma estância de armazenamento alimentar para posterior envio para Moçambique e Portugal. Com a vitória omani sobre a cidade portuguesa de Mascate em 1650, o reino de Omã inicia algumas décadas depois o combate aos portugueses na costa oriental africana. Perdida Mombaça, em 1698, Zanzibar cai em 1700 sob o Império Omanita, pondo fim a mais de 150 anos de soberania portuguesa. Nesta ilha ainda hoje o “português” é chamado de “doreno”, significando “do reino”. Aqui constroem os omanitas um forte árabe em 1710, no lugar do pequeno forte português e da igreja, sendo o local ainda hoje conhecido por “Gereza”. 

A ilha de Pemba, a   50Km a Norte da ilha de Unguja na zona ocidental do Índico, dista da costa oriental africana igual distância. Foi ocupada na década de 20 do século XVI, porque daqui partiam os assaltos e os incitamentos a rebeliões que assolavam a região dominada pelos portugueses, e também, por ser um grande produtor do cravinho, pimenta preta, tamarindo, baunilha e capim-limão, este último alvo de grande procura, devido às suas propriedades no combate à insónia, doenças de pele e queda do cabelo.

Alguns autores das primeiras décadas do século XVII, como Faria e Sousa, chamaram a Pemba e a outros pequenos reinos da costa suaíli de gente cafre dominados pelos portugueses como os de  Unguja, Sofala, Mombaça, Quíloa e Melinde “reinos da Cafraria”, reinos estes vassalos, mantidos pelas três fortalezas: a de São Caetano  em Sofala, a de São Sebastião na ilha de Moçambique e a fortaleza de Jesus de Mombaça, como uma das sete partes de cerca de 4 mil léguas em que se dividia o Estado da Índia ou Império Português na Ásia. Em Pemba e anterior à ocupação portuguesa, na zona de Chake-Chake, a principal localidade da ilha, existiam já ruínas de uma fortaleza datada do século XV, a única fortificação inicial conhecida em toda a costa suaíli. Em 1594, sobre tais ruínas os portugueses ergueram um forte, para consolidar a sua posição na costa da África Oriental face à crescente presença de navios ingleses e à resistência local. Hoje tal forte, ampliado é o museu local. Os nativos de Pemba nunca aceitaram a ocupação portuguesa, pelo que os mais afoitos, mantiveram uma espécie de guerrilha permanente, lutando contra o domínio português com a sua arma tradicional, os “pweke” (bastões de madeira). A técnica do uso dos “pweke”, (qual “jogo de pau” português), chamado de “kirumbizi”, é hoje uma dança de homens, onde em determinada altura dois dos dançarinos, acompanhados por um crescendo musical, se confrontam aguerridamente mostrando as suas habilidades de luta, momento que representa a forma como à época confrontavam os portugueses.

Ainda se mantêm na língua local algumas palavras portuguesas. Julga-se que de  influência portuguesa, anualmente se realiza na ilha a largada de toiros à moda dos Açores, isto é, à corda, onde as jovens encorajam os namorados a demonstrar a sua bravura perante os touros, e se estes saírem incólumes oferecem-lhes os seus lenços.

Quando a atenção real se virava para Bissau, na Guiné, pela tentativa dos franceses em a conquistar, os omanitas, após a conquista de Mombaça e Zanzibar em 1700, chegam a Pemba obrigando os portugueses, após mais de 100 anos de presença a recuarem para o Sul até à costa moçambicana, território sob seu domínio. O arquipélago de Zanzibar e Pemba faz hoje parte da República da Tanzânia. 

Com a chegada das armadas portuguesas ao Índico a partir de 1498, rapidamente se percebe que o grande obstáculo ao comércio da Índia seriam as vias marítimas do Mar Vermelho e Golfo Pérsico, onde as armadas árabes protegiam a navegação comercial das “Naus de Meca”. Estas vias vinham desembocar no Mar Arábico, este já conhecido pelos portugueses, pois em 1502 e 1503, vindas de Lisboa, por lá navegaram as naus de Vicente Sodré e Diogo Pereira. Não se surpreende, pois, que ainda nesse ano D. Manuel enviasse uma armada ao Mar Vermelho, com António de Saldanha por Almirante. Este vai descobrir a ilha de Socotorá. No seu regresso ao reino, relata a D. Manuel ser a ilha, “habitada por gente de raça mista, pastoril, convertida ao cristianismo em tempos remotos”, tudo indicando tratar-se do apóstolo São Tomé, que aí naufragou a caminho da Índia, nos anos 70 d.C.

Na corte, após o estudo da localização exacta, importante para o controlo do Mar Vermelho, faz-se o plano de conquista e da instalação de um forte. Este é uma estrutura em madeira pré-fabricada levado de Portugal nas armadas de Tristão da Cunha e Afonso de Albuquerque, que partem a 6 de Abril de 1506. Dominada a combativa guarnição de Çoco, oriunda da cidade de Caxém, do reino de Fartaque (Iémen), aí montam os portugueses o forte de São Miguel, mais um com nome de santo, na crença de que esse santo padroeiro oferecesse proteção espiritual e militar à fortaleza e seus habitantes. Já com um Vice-rei na Índia foi abandonada a tese de que a ocupação da ilha fosse importante para o controlo das rotas marítimas, sendo o forte de Socotorá abandonado em 1511, pondo fim a 4 anos de soberania portuguesa.

A falta de água, os fortes ventos, acrescida da infertilidade da terra, levava a que os portugueses fossem constantemente assolados pela fome e doença.  A esta dificuldade outra existia: a falta de um porto de abrigo para o período das chuvas que evitasse naufrágios de navios já fundeados, como sucedeu mais tarde, em 1601, ao galeão Santo António comandado por Manuel Pais da Veiga pois apesar do seu abandono, a ilha continuou a ser ponto de aguada dos portugueses. Também aqui fez aguada em 1542, uma frota de cinco naus comandada por Martim Afonso de Sousa. A bordo da nau S. Diogo, viajava São Francisco Xavier, que nesse período aqui cristianizou.

A fauna e a flora de Socotorá são algo de diferente, pois possui cerca de 700 espécies incomuns, a grande maioria delas extremamente raras, apenas encontradas nesta ilha. 90% do tipo de répteis e 95% da variedade dos caracóis terrestres presentes na região, não são encontrados em nenhum outro lugar do planeta. No total, são aproximadamente 800 espécies de plantas numa ilha sem água. A única matéria-prima de Socotorá com alguma rentabilidade económica era a seiva do aloé, utilizado como purgante intestinal. Devido a esta biodiversidade única, tendo a sua flora e fauna um alto grau de endemismo (espécies que não existem em nenhum outro lugar) a ilha de Socotorá é Património da Humanidade desde 2008.

Opinião, por Cândido de Azevedo

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